Autobiografia: março 2007 Archives

76 - Reciclar

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Pois é,

As meninas dormem. O Afonso também. E cá estou eu aproveitando esta tranqüilidade, este um pouco de paz, sem que ele, o Afonso, fique incomodando. Sim, sim. Não pensem vocês que ele é tudo isso que às vezes pinta por aqui. Não esqueçam que ele tem a pintura por passatempo (ou tinha até pouco tempo) e quem pinta está acostumado a colocar cores diferentes das cores da realidade. Aos artistas é permitido, em nome da arte, criar uma realidade que parece ser mais linda que a verdadeira realidade.

Não, não vou dar uma de Afonso agora e questionar se existe uma verdade ou uma realidade. Isso são os ares de pseudo intectualóide que ele tem. E vejam: intectualóide já á algo ruim; pseudo, então... Mas vamos deixar o Afonso dormir em paz e falar um pouco de mim. A noite está propícia. Chove!

Segundo dizem, já nasci Chato. Mas não um chato comum, desses que incomodam por qualquer bobagem. Daí que, para diferenciar entre uns e outros que andam à solta por ai, é que me referiro, a mim, como Chato, com "C" maiúsculo. O resto é o resto. Amadores, apenas!

Chega um dia, no entanto, que devemos reciclar. Palavrinha da moda, quando se trata de meio ambiente, mas muito pouco lembrada quando tratamos de nós mesmos. É um fenômeno que os psi explicam (D. Cláudio que o diga): preferimos olhar a bunda alheia do que a própria, mesmo que essa bunda seja o meio ambiente.

Mas em verdade vos digo: não recicla o lixo da casa quem não recicla o lixo da própria vida. (favor citar a fonte em caso de reprodução)

Alías, não citem fonte alguma. Essa é a primeira reciclagem a ser feita: a da propriedade. De bens materiais e de idéias. Nada há nada nesse mundo que nos pertença, pela simples razão de que, assim como viemos a ele, vamos embora dele, isto é, sem nada! Deixamos apenas o que causamos nas pessoas: alegrias ou tristezas e dor. E é disso que devemos nos ocupar. Não de frases ou de obras, mas dos sentimentos que deixamos.

Reciclar o lixo da propriedade. De bens materiais apenas o necessário para uma vida digna. O resto vai pro lixo. A propriedade de conhecimentos inúteis, que só servem para demonstração, perante pares, de que somos "o cara", vai pro lixo! A crítica ao outro, pelo simples fato de pensar diferente de nós, vai pro lixo!

O que mais? É um exercício - sem dúvida difícil - que deve ser feito. E é isso que me faz ser um Chato.

Em meio a um mundo que privilegia a futilidade, os B_B_Bs da vida e tantas outras coisas inúteis, quem, deliberadamente, não se orienta por tudo isso, só pode ser Chato.

Na última sessão de terapia da filha mais velha do Afonso, a psicóloga propôs a eles um pequeno exercício: "imaginem que vocês tenham apenas mais uma semana de vida. O que vocês fariam? Daqui a uma semana, no próximo encontro, me contem o que vocês fizeram!".

Ja se foram dois dias e talvez o Afonso não tenha feito nada. É provável, se bem o conheço, que ele esteja esperando que eu faça alguma coisa. Que o incomode; que o faça sair da mesmice que anda a vida dele. Mas dessa vez não vou fazer. Ele que se vire!

Ele que entenda que essa é a segunda reciclagem que devemos fazer: a reciclagem das nossas relações. Entender que o que está ao nosso alcance não é o exigir das pessoas, mas exigir de si mesmo. É o abrir mão da propriedade da razão.

Ninguém tem o direito de fazer outro sofrer por pensar que é dono da razão. Amanhã, quando o Afonso ler isso, certamente vai ficar furioso comigo. Mais uma vez vai tentar acabar comigo. Mas tenho que dizer: o verdadeiro mundo, Afonso, não é o mundo da razão.

Olha teus gatos, Afonso. Eles pensam como nós? Não. Mas sentem como nós! Lembra que a cada vez que um deles fica doente, o quanto os outros demonstram tristeza, ficam quietos. Se aconchegam.

Olha tuas plantas. Afonso. Elas pensam como nós? Não. Mas sentem como nós. Lembra que dizes que tens "mão" para plantas? E sabes por quê? Porque conversas com elas; tocas com carinho em cada folha. E elas te retribuem crescendo, verdejantes, não porque te entendam, mas porque sentem a tua energia, a tua alegria em vê-las bonitas.

Há que reciclar a vida, como se dela restasse apenas uma semana. Ou menos! Por isso sou Chato.

Pois é,

Ontem viajei. E a rotina do Chato foi pro beleléu.... Cheguei depois das oito da noite em casa. E os comentarios aos comentários e as leituras foram pro beleléu... também! E agora ando correndo pra fazer dois posts. E faltam, ainda, mais dois. Que acho que vão pro... beleléu... também! A Condessa mudou de turma e seria importante esse registro. Mas como estamos próximos do fim-de-semana, aproveito e escrevo. Isso, se EU não for pro beleléu!!!

Dizem que uma das caracteristicas de ser chato é, num mesmo parágrafo, escrever uma palavra quatro vezes. Viram por que sou chato? Mas vamos ao que interessa, antes que esse post também vá pro...

Há um comentário, no entanto, que tomo como tema do post: o do Valter. Diz ele:

"(...) Êsse teu trabalho reflete na melhoria de vida dos velhinhos, pois a instituição sente-se vigiada e ainda tem o cnontato humano que vc trava com êles.(...)".

Como que num transmimento de pensação, eu proferi frase quase igual hoje, lá em Taquari. Sim, voltei a Taquari. Precisava analisar com mais vagar os detalhes do expediente investigativo. Dito assim, até me sinto um "detetive" de série americana, que sai à procura de detalhes que ninguém até então tivera capacidade para perceber. É parecido, só que sem o glamour televisivo.

Sem dúvida que nossa intenção é a preservação da instituição e, principalmente, fazer com que os mantenedores se apliquem na melhoria das condições de vida dos idosos e crianças/adolescentes. E uma das forma é fazer com que a instituição sinta-se "vigiada", permanentemente fiscalizada.

São gente séria, sem dúvida. As pessoas que compõem a mantenedora pertencem a um ramo do cristianismo do qual não há que falar uma vírgula sequer. Mas há o amadorismo no trato de certas situações. E uso a expressão "amadorismo" sem sentido pejorativo. Até porque, é um amadorismo carregado de amor.

Mas não se lida com idosos e com pessoas portadoras de necessidades especiais, além de crianças/adolescentes, com amadorismo, mesmo que calibrado com amor. Infelizmente (ou felizmente, não sei) o mundo é outro. E é um mundo que requer profissinalismo. A lei assim o exije. E a lei, não esqueçamos, é produto da sociedade; produto nosso.

O Estatuto do Idoso e o Estatuto da Criança e do Adolescente são produtos de reivindicações sociais. Não se pode ignorar, em nome do amor, as denúncias feitas por pessoas que lá trabalharam. Não se pode ignorar as denúncias feitas por adolescentes que de lá fugiram. Não uma, nem duas, mas várias vezes. Há que se analisar com a frieza da técnica e o rigor da lei.

Não podemos esquecer que a maldade humana é a ordem primeira, a natureza primordial do ser humano (quem me acompanha há bastante tempo sabe que penso assim). Muitas vezes, sob o manto da bondade, as pessoas nada mais fazem do que auferir vantagens para si e para os seus. Não nos cabe a inocência de pensar que tudo é amor; que tudo são flores.

Taquari é uma cidadezinha, com seus trinta e poucos mil habitantes, às margens do rio que lhe empresta o nome: o Rio Taquari. De origem indígena, inicialmente, e portuguesa (açoriana), posteriormente. Apegada a tradições, é conhecida por seu "Natal Açoriano". Já foi um porto próspero, antes de que alguns brasileiros vendessem nosso sistema de transporte aos americanos e transformássemos tudo em estradas asfaltadas.

Não da para dizer que seja uma cidade arborizada, no sentido urbano que damos ao termo, porque na realidade é uma cidade no meio do mato. Caminha-se algumas poucas quadras para fora da região central e entra-se diretamente na Mata Atlântica (ou o que sobra dela). É mato mesmo! Mas e somente na área urbana, pois a zona rural está tomada pela atual praga da monocultra sílvicola do eucalípto.

Na hora e meia que me foi dado pela lei para arrefecer a ânsia estomacal que, diga-se de passagem, era mais ânsia pela perspectiva da gororoba que me restaria num finzinho de mundo desses, do que pela fome em si, fiz um passeio turístico pela cidade.

Munido do espírito caminheiro que insiste tomar conta do meu ser, recusei carona e, pasmem, deixei meu carro estacionado exatamente no local onde o havia deixado quando lá cheguei. Fui a pé! Andando. Isso mesmo, podem acreditar! Um calor desgraçado, diga-se de passagem. Tão quente que o céu desabou lá pelas três da tarde.

Depois de umas duas voltas pelo centro, e já começando a suar, entrei num restaurante que observei estar cheio. A velha história: se está cheio é por que deve ser bom. Santo e inocente Chato!

E, se me dão licença, vou escrever o post do "Faça a sua parte". Vão lá, vão lá...

Pois é,

Chamou-me a atenção, nos comentários ao post de ontem, que a maioria referiu-se ao fato de eu ter uma "vida regrada" Do cigarro nem vou falar.

Não sei, sinceramente, se isso é vantagem, além do fato de propiciar um funcionamento absolutamente regular do intestino. E intestino que funciona é a melhor coisa para a saúde.

Fora isso, só vejo desvantagens. A primeira - e talveza maior delas - seja a premÊncia do tempo e a conseqüente, e permanente, sensação de que se algo der errado, tudo o mais se atrasará. E o caos se instalará no teu dia.

Não que eu não tenha quase que total controle sobre os meus horários. À exceção dos horários da Kaya, todos os demais - inclusive os do trabalho - são por minha inteira conta. E isso, por um lado, é ruim, pois não ter horários acaba por fazer com que eu os imponha, sob pena de, aí sim, tudo virar uma perfeita esculhambação.

Percebem a pressão psicológica diária? Sem horário, esculhambação; com horário, pressão! Há, ainda, o fato de que não faço metade das coisas que gostaria. E, via de regra, são as coisas que dão prazer.

Eu, que já fiz posts sobre como administrar o tempo (lá nos idos do blogspot); eu, que trabalho ensinando as pessoas a administrar o tempo para que sejam mais eficientes, não tenho mais tempo. Está certo que meu dia é um dos mais eficientes que conheço, mas o resultado final é um cansaço que me joga cedo demais - se comparado a outras épocas da minha vida - na cama.

A pilha de livros se acumula tanto quanto aquela dos que queria ler e sequer comprei, por óbvias razões.

Pintar? Nem pensar! Há mais de mês que olho para a tela vazia e sequer inspiração aparece. E quando, num átmo, vislumbro algo que gostaria de pintar, no segundo seguinte o cansaço toma conta. Pintar requer algumas horas de dedicação. E das horas eu ando à cata!

E assim os dias vão passando sem que eu perceba. E a hora, a única hora que não queria, também vai se aproximando...

Pois é,

Um dia na vida do Chato, sem desvios de rota, começa por volta das 06:45h. É a hora que levanto, ou melhor, começo a acordar. Levantar, mesmo, só lá pelas 07:00h.

- 07:00h às 07:30h

Levanto e vou direto ligar o computador. Essa joça anda levando mais de 15 minutos pra ficar pronto. Estou falando do computador. Até porque eu levo mais de meia hora... E não sou joça! Desço e coloco a água do chimarrão pra esquentar. Mijadinha básica e conformes. Faço o chimarrão, tomo um, acendo o primeiro cigarro e venho pro computador. Até as sete e trinta reviso o post do dia, tomo um chimarrão e fumo um cigarro, publico, respondo aos comentários da noite, tomo um chimarrão e fumo um cigarro, carrego o Thunderbird e leio os e-mails (alguns, pois recebo mais de 70 por dia), tomo um chimarrão e fumo um cigarro.

- 07:30h às 08:00

Vou pro banheiro, etc. etc, acompanhado da leitura de alguma revista e tomo banho. Me arrumo, tomo um chimarrão e fumo um cigarro, vou tirar o carro da garagem e esperar as meninas. Fumo um cigarro enquanto espero.

- 08:00h às 08:30h

Trânsito até chegar no trabalho da Kaya e na cheche da Condessa (ficam no mesmo local). Deixo as meninas e volto.

- 08:30h às 08:50h

Transito de volta pra casa, coloco o carro na garagem e vou caminhar na praça da Encol, que fica a quatro quadras aqui de casa.

- 08:50h às 09:20h

Caminhada.

- 09:20h às 10:00h

Descanso, tomo um chimarrão e fumo um cigarro, enquanto leio alguns blogs e eventualmente comento, sites de notícias, verifico os compromissos do dia.

- 10:00h às 10:30h

- Faço a barba, tomo um banho e rme arrumo para o trabalho. Tomo um chimarrão e fumo um cigarro.

- 10:30h às 10:50h

Trânsito para o trabalho.

- 10:50h às 11:00h

Deixo o carro na garagem, percorro as duas quadras que faltam até o trabalho, subo um andar de escadas, ligo o computador e desço novamente para fumar um cigarro.

- 11:00h às 11:45h

Organizo minhas atividades, leio os mails do trabalho, faço alguma tarefa.

- 11:45h às 12:15h

Fumo um cigarro,almoço, fumo um cigarro e volto para o trabalho.

- 12:15h às 18:00h

Trabalho e fumo vários cigarros.

- 18:10h às 18:20h

Trânsito para buscar as meninas.

- 18:20h às 18:35h

Brinco com a Condessa até que a Kaya chegue.

- 18:35h às 19:00h (quando não tem supermercado, pois quando tem chegamos em casa às 20:00h. Aí toda a programação seguinte fica atrasada também )

Trânsito de volta para casa.

- 19:00h às 20:00h

Chegar em casa, abrir a garagem, guardar o carro, fechar a garagem, pegar as sacolas da Condessa e minha pasta e levar tudo para dentro de casa. Subo, ligo o computador e essa joça leva mais de 15 minutos pra ficar pronto. Estou falando do computador. Até porque eu levo mais de meia hora... E não sou joça! Enquanto essa carroça esquenta, fumo um cigarro. Entro o blog para ver se tem comentários. Tento ler e comentar mais alguns blogs, carrego o Thunderbird e leio os e-mails que faltaram mais os que vieram à tarde.

- 20:00h às 21:00h

Desço e fico com a Condessa.

- 21:00h às 22:30h

Volto pro computador e tento escrever o post do dia segunite (o que estou fazendo nesse exato instante). Ainda tento ler mais alguns blogs, sites, pesquisa de alguma coisa relacionada ao trabalho ou alguma leitura de um livro técnico. Ah! Fumo vários cigarros.

- 10:30h às 11:00h

Desligo o computador, faço minha janta, como, fumo um cigarro, escovo os dentes, pego um copo d'água e me deito.

A partir daí costumo não lembrar de mais nada, pois simplesmente capoto! Via de regra encostado na guarda da cama com um livro na mão.

Nas quintas à noite é pior, pois são dois posts para escrever: aqui e no Faça a sua parte. E deve ficar ainda pior, pois agora começo a escrever, também, no blog do Greenpeace.

Algo vai mal. Acho que estou dormindo muito...

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