Pois é,
As meninas dormem. O Afonso também. E cá estou eu aproveitando esta tranqüilidade, este um pouco de paz, sem que ele, o Afonso, fique incomodando. Sim, sim. Não pensem vocês que ele é tudo isso que às vezes pinta por aqui. Não esqueçam que ele tem a pintura por passatempo (ou tinha até pouco tempo) e quem pinta está acostumado a colocar cores diferentes das cores da realidade. Aos artistas é permitido, em nome da arte, criar uma realidade que parece ser mais linda que a verdadeira realidade.
Não, não vou dar uma de Afonso agora e questionar se existe uma verdade ou uma realidade. Isso são os ares de pseudo intectualóide que ele tem. E vejam: intectualóide já á algo ruim; pseudo, então... Mas vamos deixar o Afonso dormir em paz e falar um pouco de mim. A noite está propícia. Chove!
Segundo dizem, já nasci Chato. Mas não um chato comum, desses que incomodam por qualquer bobagem. Daí que, para diferenciar entre uns e outros que andam à solta por ai, é que me referiro, a mim, como Chato, com "C" maiúsculo. O resto é o resto. Amadores, apenas!
Chega um dia, no entanto, que devemos reciclar. Palavrinha da moda, quando se trata de meio ambiente, mas muito pouco lembrada quando tratamos de nós mesmos. É um fenômeno que os psi explicam (D. Cláudio que o diga): preferimos olhar a bunda alheia do que a própria, mesmo que essa bunda seja o meio ambiente.
Mas em verdade vos digo: não recicla o lixo da casa quem não recicla o lixo da própria vida. (favor citar a fonte em caso de reprodução)
Alías, não citem fonte alguma. Essa é a primeira reciclagem a ser feita: a da propriedade. De bens materiais e de idéias. Nada há nada nesse mundo que nos pertença, pela simples razão de que, assim como viemos a ele, vamos embora dele, isto é, sem nada! Deixamos apenas o que causamos nas pessoas: alegrias ou tristezas e dor. E é disso que devemos nos ocupar. Não de frases ou de obras, mas dos sentimentos que deixamos.
Reciclar o lixo da propriedade. De bens materiais apenas o necessário para uma vida digna. O resto vai pro lixo. A propriedade de conhecimentos inúteis, que só servem para demonstração, perante pares, de que somos "o cara", vai pro lixo! A crítica ao outro, pelo simples fato de pensar diferente de nós, vai pro lixo!
O que mais? É um exercício - sem dúvida difícil - que deve ser feito. E é isso que me faz ser um Chato.
Em meio a um mundo que privilegia a futilidade, os B_B_Bs da vida e tantas outras coisas inúteis, quem, deliberadamente, não se orienta por tudo isso, só pode ser Chato.
Na última sessão de terapia da filha mais velha do Afonso, a psicóloga propôs a eles um pequeno exercício: "imaginem que vocês tenham apenas mais uma semana de vida. O que vocês fariam? Daqui a uma semana, no próximo encontro, me contem o que vocês fizeram!".
Ja se foram dois dias e talvez o Afonso não tenha feito nada. É provável, se bem o conheço, que ele esteja esperando que eu faça alguma coisa. Que o incomode; que o faça sair da mesmice que anda a vida dele. Mas dessa vez não vou fazer. Ele que se vire!
Ele que entenda que essa é a segunda reciclagem que devemos fazer: a reciclagem das nossas relações. Entender que o que está ao nosso alcance não é o exigir das pessoas, mas exigir de si mesmo. É o abrir mão da propriedade da razão.
Ninguém tem o direito de fazer outro sofrer por pensar que é dono da razão. Amanhã, quando o Afonso ler isso, certamente vai ficar furioso comigo. Mais uma vez vai tentar acabar comigo. Mas tenho que dizer: o verdadeiro mundo, Afonso, não é o mundo da razão.
Olha teus gatos, Afonso. Eles pensam como nós? Não. Mas sentem como nós! Lembra que a cada vez que um deles fica doente, o quanto os outros demonstram tristeza, ficam quietos. Se aconchegam.
Olha tuas plantas. Afonso. Elas pensam como nós? Não. Mas sentem como nós. Lembra que dizes que tens "mão" para plantas? E sabes por quê? Porque conversas com elas; tocas com carinho em cada folha. E elas te retribuem crescendo, verdejantes, não porque te entendam, mas porque sentem a tua energia, a tua alegria em vê-las bonitas.
Há que reciclar a vida, como se dela restasse apenas uma semana. Ou menos! Por isso sou Chato.
Taquari é uma cidadezinha, com seus trinta e poucos mil habitantes, às margens do rio que lhe empresta o nome: o Rio Taquari. De origem indígena, inicialmente, e portuguesa (açoriana), posteriormente. Apegada a tradições, é conhecida por seu "Natal Açoriano". Já foi um porto próspero, antes de que alguns brasileiros vendessem nosso sistema de transporte aos americanos e transformássemos tudo em estradas asfaltadas.
Munido do espírito caminheiro que insiste tomar conta do meu ser, recusei carona e, pasmem, deixei meu carro estacionado exatamente no local onde o havia deixado quando lá cheguei. Fui a pé! Andando. Isso mesmo, podem acreditar! Um calor desgraçado, diga-se de passagem. Tão quente que o céu desabou lá pelas três da tarde.
Chamou-me a atenção, nos comentários ao post de ontem, que a maioria referiu-se ao fato de eu ter uma "vida regrada" Do cigarro nem vou falar.
A pilha de livros se acumula tanto quanto aquela dos que queria ler e sequer comprei, por óbvias razões.
Levanto e vou direto ligar o computador. Essa joça anda levando mais de 15 minutos pra ficar pronto. Estou falando do computador. Até porque eu levo mais de meia hora... E não sou joça! Desço e coloco a água do chimarrão pra esquentar. Mijadinha básica e conformes. Faço o chimarrão, tomo um, acendo o primeiro cigarro e venho pro computador. Até as sete e trinta reviso o post do dia, tomo um chimarrão e fumo um cigarro, publico, respondo aos comentários da noite, tomo um chimarrão e fumo um cigarro, carrego o Thunderbird e leio os e-mails (alguns, pois recebo mais de 70 por dia), tomo um chimarrão e fumo um cigarro.
Trânsito para o trabalho.
Chegar em casa, abrir a garagem, guardar o carro, fechar a garagem, pegar as sacolas da Condessa e minha pasta e levar tudo para dentro de casa. Subo, ligo o computador e essa joça leva mais de 15 minutos pra ficar pronto. Estou falando do computador. Até porque eu levo mais de meia hora... E não sou joça! Enquanto essa carroça esquenta, fumo um cigarro. Entro o blog para ver se tem comentários. Tento ler e comentar mais alguns blogs, carrego o Thunderbird e leio os e-mails que faltaram mais os que vieram à tarde.
Volto pro computador e tento escrever o post do dia segunite (o que estou fazendo nesse exato instante). Ainda tento ler mais alguns blogs, sites, pesquisa de alguma coisa relacionada ao trabalho ou alguma leitura de um livro técnico. Ah! Fumo vários cigarros.







































