Pois é,
Quem nunca tomou um "pé-na-bunda"? Abrindo meus guardados secretos, encontro cartas do tempo do êpa! Sim, sim, sou maníaco por guardar coisas. Nunca joguei carta alguma fora. Sequer cartão de natal ou de aniversário. Tenho-os todos bem guardados.
Pois resolvi pegar um envelope aleatoriamente. Ah! Já sabia o que estava dentro. É de dezembro de 1973. Mais precisamente de 29 de dezembro. Fomos passar uma semana das ferias, eu e mais dois amigos, na casa de um deles, numa cidadezinha do interior chamada Santiago. O pai dele era o comandante da guarnição local, um regimento de cavalaria. Mordomias à vista, nos fomos de trem para lá.
Ainda existiam trens de passageiros naquela época. Três adolescentes - eu tinha dezesseis anos - por dezoito horas dentro de um trem. Isso merece um capítulo à parte, tanto quanto outras ocorrências nessa que foi uma das semanas mais bem aproveitadas da vida.
Já no segundo dia estava de namorada. Como já disse, era uma época em que não se podia perder tempo. Lendo a carta vejo que não me recordo de quase nada do que aconteceu e o que nela está narrado. Sequer da imagem da menina lembro. Resta, apenas, uma lembrança de uma paixão fulminante.
Pois ao pé-na-bunda, então ( a grafia é original):
"Santiago, 29 de dezembro de 1973.Tudo bom? Fizestes uma boa viagem? Bem Luis Afonso acho bom ir direto no assunto. Tu sabes como sou, gosto de tudo claro e sincero. E não vejo motivo de fazer gre-gre para dizer gregório.
Pois o qu quero dizer é que não vejo motivo para nós continuarmos a namorar já que está tudo avacalhado conforme tu mesmo o disse, acho melhor acabarmos com tudo de uma vez e definitivamente.
O que não impede que fiquemos bons amigos. Espero que não fiques chateado. Pois embora eu sendo um pouco maluca como tu falastes, eu não gosto de enganar ninguém. Espero que tenhas passado um Feliz Natal. Da tua amiga, ...."
Um fora por carta! Uma experiência certamente traumatizante para um adolescente. "Deve ter sido", pois encontro, no mesmo envelope, uma outra carta, datada de 7 de janeiro de 1974, dez dias depois, de uma outra menina reclamando que eu não havia respondio a uma carta anterior.
Confesso que não lembro dessa outra. Mas a carta existe, logo ela também. E certamente algum namoro. E pelo visto foi ao mesmo tempo que o outro. Eu não devia prestar naquela época. Vai ver foi por isso que disse que estava "tudo avacalhado", sei lá. Coisas de um adolescente tinhoso...
O tempo passa depressa para quem não tem tempo para sentir o tempo passar.
Afonso. Luiz Afonso. Nome de rua em Porto Alegre, cidade adotada por força de um pai militar que, ao morrer, deixou dois dos seus filhos morando nela. Pela vontade da mãe, teria retornado à terra natal, esse tal de rio que transborda em janeiro. E nome de numerosos reis de Portugal e Espanha, esse tal de Afonso. De um dizem até que foi Sábio; de outro dizem apenas que é um Chato. Já falei sobre isso. Somos reis por todos os lados. Pelos luizes somos os preferidos de França.
Não imagino o que a autobiografia de um ilustre desconhecido como eu poderia despertar interesse em alguém. Talvez a razão esteja na mesma proporção do interesse por biografias de gente que a única coisa que fez na vida tenha sido herdar a fortuna amealhada pelo trabalho dos avós e pais e, como soe acontecer, nada mais faz do que aparecer por aí.








































