Autobiografia: dezembro 2006 Archives

Pois é,

Quem nunca tomou um "pé-na-bunda"? Abrindo meus guardados secretos, encontro cartas do tempo do êpa! Sim, sim, sou maníaco por guardar coisas. Nunca joguei carta alguma fora. Sequer cartão de natal ou de aniversário. Tenho-os todos bem guardados.

Pois resolvi pegar um envelope aleatoriamente. Ah! Já sabia o que estava dentro. É de dezembro de 1973. Mais precisamente de 29 de dezembro. Fomos passar uma semana das ferias, eu e mais dois amigos, na casa de um deles, numa cidadezinha do interior chamada Santiago. O pai dele era o comandante da guarnição local, um regimento de cavalaria. Mordomias à vista, nos fomos de trem para lá.

Ainda existiam trens de passageiros naquela época. Três adolescentes - eu tinha dezesseis anos - por dezoito horas dentro de um trem. Isso merece um capítulo à parte, tanto quanto outras ocorrências nessa que foi uma das semanas mais bem aproveitadas da vida.

Já no segundo dia estava de namorada. Como já disse, era uma época em que não se podia perder tempo. Lendo a carta vejo que não me recordo de quase nada do que aconteceu e o que nela está narrado. Sequer da imagem da menina lembro. Resta, apenas, uma lembrança de uma paixão fulminante.

Pois ao pé-na-bunda, então ( a grafia é original):

"Santiago, 29 de dezembro de 1973.

Tudo bom? Fizestes uma boa viagem? Bem Luis Afonso acho bom ir direto no assunto. Tu sabes como sou, gosto de tudo claro e sincero. E não vejo motivo de fazer gre-gre para dizer gregório.

Pois o qu quero dizer é que não vejo motivo para nós continuarmos a namorar já que está tudo avacalhado conforme tu mesmo o disse, acho melhor acabarmos com tudo de uma vez e definitivamente.

O que não impede que fiquemos bons amigos. Espero que não fiques chateado. Pois embora eu sendo um pouco maluca como tu falastes, eu não gosto de enganar ninguém. Espero que tenhas passado um Feliz Natal. Da tua amiga, ...."

Um fora por carta! Uma experiência certamente traumatizante para um adolescente. "Deve ter sido", pois encontro, no mesmo envelope, uma outra carta, datada de 7 de janeiro de 1974, dez dias depois, de uma outra menina reclamando que eu não havia respondio a uma carta anterior.

Confesso que não lembro dessa outra. Mas a carta existe, logo ela também. E certamente algum namoro. E pelo visto foi ao mesmo tempo que o outro. Eu não devia prestar naquela época. Vai ver foi por isso que disse que estava "tudo avacalhado", sei lá. Coisas de um adolescente tinhoso...

Pois é,

O tempo passa depressa para quem não tem tempo para sentir o tempo passar.

Desconheço se alguém já escreveu essa frase. Evoco o artigo 4°, seus incisos e parágrafos, do Código do Chato.

Fatos, por vezes os mais banais, fazem o tempo congelar. E o tempo congelado nos permite ver o quanto ele passou. E pensamos, puxa, quanta coisa eu fiz nesses ultimos 20 anos, ou qualquer número de anos que o tal fato sugerir.

Pois ontem, retornando de uma viagem que fiz para Caxias do Sul, e ao passar pelo metrô, perguntei para a colega que me acompanhava: já andaste de metrô? Ao que ela respondeu: nasci no ano em que inauguraram o trem. Foi o que bastou para congelar tempo e me lembrar que havia trabalhado na construção do metrô de Porto Alegre.

Vinte e um anos se passaram de lá para cá. Três casamentos, duas filhas, um monte de namoradas entre os casamentos, três faculdades, um monte de empregos, quatro negócios próprios - uma lavanderia, uma confeitaria, uma consultoria, uma distribuidora (atacado).

E as memórias foram passando tanto quanto passavam os quilômetros. E foi pouca distância para tanta memória. Vou programar uma viagem de uns mil km da próxima vez. Assim terei duas mil memórias para recordar, enquanto vou e venho...

Pois é,

Afonso. Luiz Afonso. Nome de rua em Porto Alegre, cidade adotada por força de um pai militar que, ao morrer, deixou dois dos seus filhos morando nela. Pela vontade da mãe, teria retornado à terra natal, esse tal de rio que transborda em janeiro. E nome de numerosos reis de Portugal e Espanha, esse tal de Afonso. De um dizem até que foi Sábio; de outro dizem apenas que é um Chato. Já falei sobre isso. Somos reis por todos os lados. Pelos luizes somos os preferidos de França.

Geminiano da melhor estirpe, sou capaz de defender duas idéias absolutamente opostas como verdadeiras. Como a maioria das pessoas é plenamente incapaz de perceber a diferença, fica fácil. Tudo depende apenas da situação. Relatividade, já dizia aquele que um dia poderia ter sido meu ídolo. Felizmente não sou chegado em ídolos. Sequer me lembro de ter sido criado para ter um. Filho de militar e tendo estudado em Colégio MIlitar, tomei uma fartura de ídolos da pátria, a tal ponto que aprendi a não ter nenhum. Eles têm ídolos para tudo. O general peidou? Pronto, mais um ídolo; um exemplo a ser seguido. Vivemos bem sem ídolos, que não me ouça a indústria do entretenimento.

De símbolos já não posso dizer o mesmo. Dos símbolos da pátria, então, nem se fala. Esses são minha primeira lembrança. Em pleno jardim de infância já éramos obrigados a perfilar todas as manhãs para ouvir o hino nacional enquanto acompanhávamos o hasteamento da bandeira. Pudera, quem mandou ser fllho de milico, criança de cinco anos e morar na capital bem na época do golpe? Quando me perguntam o que é "ser puxa-saco", respondo: puxa-saco é diretora de escolinha que quer agradar os milicos, fazendo as crianças de palhacinhas.

E só podíamos entrar na aula depois que todos estivessem em posição de sentido e absolutamente imóveis. Foi daí que desenvolvi uma capacidade bárbara de me tornar "invisível". Quase sempre era o primeiro a ser liberado, pois aprendi a ficar tão imóvel, que qualquer mínimo movimento das outras crianças era notado. Mais tarde, essa capacidade em muito me ajudou nas bincadeiras de esconde-esconde e polícia e ladrão. Sempre fui o último a ser achado ou preso, quando era "bandido".

Mas isso tem seu lado ruim: somos ensinados desde pequenos a querer ser melhor que os outros. O ambiente militar tem disso: é um treino constante para ser o melhor. É assim na família e é assim no colégio. Não que ser bom seja ruim; o problema é a competição desenfreada e descarada a que nos submetem quando crianças e adolecentes. Na verdade, fui preparado para ser o substituto do meu pai, ou como diziam, para honrar o nome que ele construiu. Quando disse para a família que não queria ser milico, o mundo desabou.

Pois é,

Não imagino o que a autobiografia de um ilustre desconhecido como eu poderia despertar interesse em alguém. Talvez a razão esteja na mesma proporção do interesse por biografias de gente que a única coisa que fez na vida tenha sido herdar a fortuna amealhada pelo trabalho dos avós e pais e, como soe acontecer, nada mais faz do que aparecer por aí.

Começo mal, pelo jeito! Maltrato-me ao fazer uma comparação com gente que considero absolutamente inútil. Não que por vezes não tenha me sentido qual um desses, mas é que há momentos em que nos sentimos assim, perfeitos nadas. É difícil a tarefa de avaliar nossa contribuição para a vida. Há quem busque na fama a razão da sua contribuição.

Lembro-me que certa vez - ao tempo da primeira faculdade, Física -, e já adiantando um pouco a história, encontrei, na fila da matrícula, uma caloura interessante. Como vivia no período da vida em que não podemos perder oportunidades, aproximei-me dela e "puxei um papo", como se dizia então. No meio da conversa, perguntei para a moça o que ela pretendia da vida estudando Física. Ela respondeu sem hesitar: - quero ganhar o Prêmio Nobel! Apesar de já estar fazendo mestrado em Astrofísica, foi ali mesmo que desisti. A fama e o reconhecimento, naquele momento, não eram objetivos para mim.

A fama já me incomodava no âmbito familiar. Era difícil conviver com a pecha de "geninho"só porque estudava Física e sabia tudo - ou imaginava saber quase tudo - sobre as estrelas. E não adiantava eu dizer que era o "mais burro" da minha turma. As pessoas criam esteriótipos e vão vivendo e julgando as pessoas com eles. Rótulos. É disso que vivemos.

Claro que havia uma certa vantagem: as mulheres adoravam me ouvir falar de estrelas e outras cositas. Havia sempre uma aura de "ser diferente", o que era um atrativo natural. Como nunca fui um estudante ortodoxo no respeito a aceitar apenas o método científico como única forma de obter conhecimento, admitia conhecer as outras formas de ver o universo. Assim, dedicava-me a estudar mitologia e a representação das constelações; estudava astrologia e a representação da influência dos astros na vida das pessoas. Um sucesso, poderia dizer. Não há nada de mais romântico do que uma noite de céu estrelado acompanhado de histórias sobre personagens e suas estrelas.

- Olha lá, meu anjo, estás vendo aquelas três estrelas, uma ao lado da outra? Pois bem, elas formam o cinturão de Órion. Órion era um caçador... E assim contava como Órion e Escorpião, por castigo de Zeus, jamais se encontrariam no céu. Quando um estivesse nascendo, o outro estaria no seu poente.

Ante a possiblidade de ser "famoso", decidi ser um ilustre desconhecido. E ainda hoje sigo me perguntando: o que fiz de útil para a vida, além de colocar duas lindas mulheres no mundo?

Será interessante para quem ler? Não sei. Talvez alguns momentos possam despertar sentimentos de aproximação, pelo relato de experiências similares; em outros, de afastamento, pela total inutilidade da leitura. No mais das vezes, creio, há de despertar indiferença. Indiferença que uma vida desconhecida, e quiçá inútil, costuma despertar em nós.

Qual o fio condutor da história? O tempo cronológico, quando nasci, onde morei, o que fiz? Eventos marcantes de cada fase? Apenas situações importantes? Nada disso. Será o caminho do conhecimento e da experiência. O caminho que me fez partir das estrelas até chegar no homem. E, quem sabe, do homem à humanidade, nos próximos 30 anos que espero que me restem.

Há, implícito, na história toda desse desconhecido, um caminho de descoberta que se inicia no macrocosmo e termina na finalidade da vida, o ser humano, que é quem é, ao final das contas, o único que percebe a vida tal qual ela é: eu!

Alguém poderá dizer: - mas, Afonso, a vida existe e continua mesmo que tenhas morrido!

Será? E o que dizer das estrelas que vemos no céu, que nada mais são do que imagens de algo que já "morreu" há muito tempo? E, no entanto, a elas damos vida como se vida tivessem?

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