Pois é,
Se me fosse dado o direito de sentir saudades lá do outro lado, e se me perguntassem do que eu sentiria saudade, responderia, sem dúvida alguma, da música.
Certo, certo. Não resisti e acabei escutando a Nona Sinfonia do Dvorak. Mais precisamente o segundo movimento, um "largo".
Precisava dessa paz.
É de se ouvir de olhos fechados e no escuro. É um misto de sentimentos. Melancolia, saudade, elevação, alegria, medo, perplexidade diante do novo, de um novo mundo que se abre diante dos nossos olhos, como que a pedir para ser arriscado, aventurado, provado.
Há um breve trecho que faz sentir como se estivéssemos numa transposição. No exato momento em que descobrimos o fim da juventude. Um momento de súplia. de súplica por um fim bem sucedido para nossa viagem. Imagino que Dvorak tenha se lembrado, ao escrevê-lo, do momento exato em que, no mar, percebeu que a viagem não teria mais volta. Não, ao menos, naquele momento.
E ao mesmo tempo que desperta o medo, desperta o desejo de seguir em frente. E há outro trecho que expressa júbilo. Alegria pela chegada próxima. Expectativa diante da grandeza do destino que nos espera, ou pensamos nos esperar.
Enfim, é o movimento da juventude. Da juventude íntima que todos tivemos - e que deveríamos ter ainda. Não da juventude expressa, exterior; daquela juventude do rock, da pauleira, da balada, da inconseqüência; mas da juventude que sofre, que tem medo, que deseja mas não pode; que se vê forçada a crescer e a se tornar adulta; que finalmente descobriu que ser adulto é abandonar a paz. Da juventude que por fim descobre que viver é um sempre lidar com frustrações, com desilusões. Que viver é um sempre procurar nas pequenas realizações a grande razão de viver.
E isso dói. E temos medo da dor! E temos medo de ter medo. Mas somos adultos, e adultos não devem sentir medo. Não é isso que nos ensinam e que ensinamos para nossos filhos? Nos ensinam que a juventude é uma fase que deve ser passada o mais rápido possível e com o menor trauma, pois nosso objetivo na vida é sermos adultos. E adultos suportam a dor e enfrentam seus medos.
Dvorak trouxe - ao menos para mim - nesse movimento, a paz necessária para a juventude. E vez por outra é necessário escutá-lo. Fechar os olhos e mergulhar na ilusão de que podemos dominar esse novo mundo, de que podemos dominar nossos medos e, finalmente, ter paz.
Por isso sentiria saudades da música, pois é na música que encontramos a vida!
Uma pequena lágrima escorreu. E foi o que deixei acontecer dessa vez. Não por falta de vontade; não por medo. Mas por pura falta de coragem de sentir paz.








































