Abobrinhas: outubro 2006 Archives

Tom - III

| | Comments (4)

Pois é,


Se me fosse dado o direito de sentir saudades lá do outro lado, e se me perguntassem do que eu sentiria saudade, responderia, sem dúvida alguma, da música.

Certo, certo. Não resisti e acabei escutando a Nona Sinfonia do Dvorak. Mais precisamente o segundo movimento, um "largo".

Precisava dessa paz.

É de se ouvir de olhos fechados e no escuro. É um misto de sentimentos. Melancolia, saudade, elevação, alegria, medo, perplexidade diante do novo, de um novo mundo que se abre diante dos nossos olhos, como que a pedir para ser arriscado, aventurado, provado.

Há um breve trecho que faz sentir como se estivéssemos numa transposição. No exato momento em que descobrimos o fim da juventude. Um momento de súplia. de súplica por um fim bem sucedido para nossa viagem. Imagino que Dvorak tenha se lembrado, ao escrevê-lo, do momento exato em que, no mar, percebeu que a viagem não teria mais volta. Não, ao menos, naquele momento.

E ao mesmo tempo que desperta o medo, desperta o desejo de seguir em frente. E há outro trecho que expressa júbilo. Alegria pela chegada próxima. Expectativa diante da grandeza do destino que nos espera, ou pensamos nos esperar.

Enfim, é o movimento da juventude. Da juventude íntima que todos tivemos - e que deveríamos ter ainda. Não da juventude expressa, exterior; daquela juventude do rock, da pauleira, da balada, da inconseqüência; mas da juventude que sofre, que tem medo, que deseja mas não pode; que se vê forçada a crescer e a se tornar adulta; que finalmente descobriu que ser adulto é abandonar a paz. Da juventude que por fim descobre que viver é um sempre lidar com frustrações, com desilusões. Que viver é um sempre procurar nas pequenas realizações a grande razão de viver.

E isso dói. E temos medo da dor! E temos medo de ter medo. Mas somos adultos, e adultos não devem sentir medo. Não é isso que nos ensinam e que ensinamos para nossos filhos? Nos ensinam que a juventude é uma fase que deve ser passada o mais rápido possível e com o menor trauma, pois nosso objetivo na vida é sermos adultos. E adultos suportam a dor e enfrentam seus medos.

Dvorak trouxe - ao menos para mim - nesse movimento, a paz necessária para a juventude. E vez por outra é necessário escutá-lo. Fechar os olhos e mergulhar na ilusão de que podemos dominar esse novo mundo, de que podemos dominar nossos medos e, finalmente, ter paz.

Por isso sentiria saudades da música, pois é na música que encontramos a vida!

Uma pequena lágrima escorreu. E foi o que deixei acontecer dessa vez. Não por falta de vontade; não por medo. Mas por pura falta de coragem de sentir paz.

Tom - II

| | Comments (9)

Pois é,

Não recordo se já escrevi isso por aqui - e tão pouco vou reler meus arquivos -, mas um dos meu hobbies preferidos é a culinária, ou gastronomia, segundo os politicamente corretos.

Coleciono, ao longo desses mais de 40 anos, receitas de tudo quanto é tipo de publicação. Compro livros de culinária. Devo ter algo como cinco mil receitas. Um dia ainda me aposento e organizo tudo. Me aguardem!!!

Mas se há algo que me falta é tempo para cozinhar. Já fui doceiro, pasmem! (tem dias que mesmo eu fico pasmo com essa experiência). Fazia sobremesas para eventos, restaurantes e festas. Por quase dois anos vivi disso.

Tive até a receita de um doce meu publicada1 no "Caderno de Gastronomia" da Zero Hora (infelizmente o jornal do RS mais conhecido). Chamei-o de "Taças Ale", em homenagem a uma namorada (de apelido era Ale), que sujeriu a mistura de alguns ingredientes. E é, até hoje, minha sobremesa de maior sucesso nas festas.

Queria ter mais tempo para recuperar o meu tom culinário. Cozinhar, seja doce ou salgado, é, das manifestações humanas - e segundo o meu entendimento, que me permitam deixar isso bem claro -, uma arte.

Não é para menos que o slogan da minha empresa era "Doce Arte. Arte em Doce!", e chamava-se "Mozart". O logotipo é o da figura que inicia este post2 Eu mesmo o fiz. Cordas de violino sobre um ovo. O simbolismo do ovo como início de tudo; o simbolismo da vida como cordas que pulsam. A representação, melhor dizendo, a transformação do início no eterno pulsar que é a vida. Porque a vida há de ser eterna.

Captar a essência da natureza num doce. Esse era o meu propósito. Ter a capacidade de transmitir, para quem estivesse saboreando - PRAZER.

E há algo que até hoje guardo como aprendizado dessa época: prazer só se transmite com prazer. E comida é algo perfeito para isso. De todos os doces (e quando falo em doces, entenda-se comida em geral), o aparentemente simples e prosaico "creme" foi o que mais me ensinou a arte da transmissão.

Fazer um creme requer mais do que mão; é necessário carinho e paciência. É no mexer constante que transmitimos o que somos. Estamos ali, sozinhos, nós e a panela. O que pensamos e sentimos transmite-se para nossa mão; da nossa mão para o creme; do creme para a boca de alguém. E aqui entra o famoso "ponto".

Este "pensar" é de fundamental importância para o "ponto". Se aproveitar a ocasião para pensar nos meus problemas, estarei transmitindo "problemas" para quem comerá o doce.

Doces, mais que salgados, transmitem a alma de quem os faz. E por quê? Porque nos salgados temos, em certa medida, como resolver. Nos doces não!

Não é por outra razão que as pessoas terminam suas refeições com doces, com "sobremesas". E sobremesas eram a minha especialidade. Peça para alguém definir um restaurante. Há de dizer: "comida maravilhosa, mas a sobremesa...". Conforme o que ela disser, terá voltado ou não; recomendará ou não o tal de restaurante.

Uma confissão:

Não como doces! Nada que tenha açucar. Doces me dão azia!!!

- Mas, Afonso, que história é essa de dizer que faz doces e não come doces? Como é que pode alguém que detesta doces fazer doces?

Explico! Minha experiência mais dolorosa foi com um musse de café com amêndoas. Detesto café. Adoro o cheiro do café. Sempre pensei que a alma do café estava no cheiro e não no sabor.

E com licença: cheiro e sabor nem sempre são a mesma coisa! Embora um nos diga muito sobre o outro.

Pois bem, um belo dia resolvi me aventurar na alquimia do musse de café. E por falar em alquimia, talvez esteja aí a grande transformação buscada pelos alquimistas: o ouro do paladar!

Mas voltando, deparei-me com a aventura de provar o que acabara de fazer. Primeira - e psicológica - sensação: vou vomitar essa porcaria!

Foi nesse momento que se consolidou a experiência: "ora, eu fiz com carinho; logo, por mais que eu deteste café, o que esse doce vai me transmitir só pode ser carinho!" E não deu outra. Virei fâ do meu próprio musse de café, apesar de continuar a detestar café e de adorar o cheiro de café.

1Ainda não achei o jornal para copiar.
2Ainda não achei o logo para copiar.

Tom

| | Comments (4)

Pois é,


"modo pessoal, singular de realizar ou executar algo; estilo, caráter" (Houaiss)

Por vezes perdemos o tom. Ou pensamos ter perdido, pois o normal é acharmos que temos um.

Um dos grandes efeitos da mudança foi ter perdido o que eu achava ser o "meu tom". Talvez esteja em meio ao monte de coisas que ainda falta arrumar. Ando parecendo com o quadro aí de acima.

Resolvi escutar Rachmaninoff enquanto escrevo. Concertos nos. 2 e 3 para piano e orquestra. E acabo de me lembrar, ou sentir, melhor dizendo, que fazia algo como cinco anos que não os escutava. Pra não dizer que estou falando a verdade cem por cento, dia desses escutei trechos do terceiro concerto ao rever "Bird".

O piano sempre foi meu instrumento predileto. Vou carregar para o outro lado a mágoa de não saber tocá-lo. Não devo ter sido um adolescente muito normal, pois gastava minha mesada em discos. Clássicos e rock. De canto gregoriano a Led Zeppelin, passando por toda a escala da época, final dos 60 e 70.

Quando as grandes bandas de rock começaram a se dissolver, continuei apenas nos clássicos e jazz/blues e, nestes, pricipalmente os piano trios, e solistas tipo Oscar Peterson, de quem tenho todos os LPs e recentemetente adquiri uma coleção de quatro CDs.

Por que falo isso? É a tal da falta de tom. Pensei em falar de política. Mas, adiantaria? Melhor transformar o blog num confessionário.

O primeiro Lp que comprei foi a nona sinfonia do Dvorak, nominada "Do Novo Mundo". E por uma estranha coincidência eu me encontrava em um novo mundo. Estava em Montevideo na minha primeira viagem internacional.

Fui de trem de Porto Alegre a Montevideo, passando por Santana do Livramento, cidade das minhas famílias, de pai e mãe.

Trens me fascinam. Chego a sonhar com eles. E sempre viajei de trem. Nunca me incomodei em levar quase três vezes o tempo que um ônibus levava. E viajava sozinho. Reservava uma cabine inteira só para mim (pagava duas passagens) no carro leito.

Tudo era perfeito naquela viagem. O trem em um país novo. A aproximação de uma cidade nova para rever a recém conquistada namorada uruguaia, que morava em Montevideo. O mundo cheio de expectativas para a realização de um quase final de adolescência.

Época de crer que era possível. Qualquer coisa.

A chegada do trem na estação de Montevideo é uma das recordações que tenho certeza levarei para o outro lado. Ao tom do amanhecer, uma construção no estilo das estações européias, um verdadeiro novo mundo. Foi assim que me senti. E foi assim que continuei a me sentir naquela que diziam ser a "suiça" latino-americana. Uma cidade sem par; um povo sem par.

Foi quando, passeando por uma das tantas galerias, ouvi uma música que simplesmente vestiu-se em mim como minha pele me veste. Senti como se eu tivesse criado aquilo. Era o segundo movimento da sinfonia.

Entrei e comprei meu primeiro LP. Dvorak, Montevideo e eu viramos sinônimos. Sinônimos de um "Novo Mundo"; de um mundo que se iniciava para mim.

Por vezes sinto saudades. Saudades de um novo mundo. Saudades de um tempo que havia tom no mundo. De um tempo em que eu tinha tom. Saudades de sentir saudade.

Que emoções esse mundo nos oferece? Se eu chegar aos oitenta, que escreverei sobre os cinqüenta, assim como escrevo sobre os vinte?

Não há mais trens; não há mais novo mundo, não há mais sentimentos. Temos apenas que sobreviver. Não percebo mais o tempo como percebia naquela época. Aliás, o tempo se foi.

Não vou escutar Dvorak. Certamente vou chorar.

Pensando bem, talvez devesse fazer ambos. Escutar e chorar. Quem sabe não encontro meu tom?

About this Archive

This page is a archive of entries in the Abobrinhas category from outubro 2006.

Abobrinhas: setembro 2006 is the previous archive.

Abobrinhas: novembro 2006 is the next archive.

Find recent content on the main index or look in the archives to find all content.