A culinária do Chato: janeiro 2006 Archives

Pois é,

O Chato, lembrando dos seus tempos de solteiro, morando sozinho, e preocupado com tantos quantos vivem essa situação (vide Sêo Síndico e El Rey) resolve lançar a série "Gororobas que solteiros, que moram sozinhos, devem saber fazer".

Papai e mamãe - ou seria mamãe e papai? - depende de quem fica por cima, né? - foram os únicos que acreditaram na sua porralouquice de querer mostrar independência. Até te perguntaram qual o nome da guria, mas tu, como bom vivente, negou dizendo que era muito importante para a formação da tua psiquê e coisa e tal.

Mas bem, mamãe, penalizada com a penúria da geladeira do teu cafôfo (que ela viu com os próprios olhos da última vez que te visitou), convenceu teu pai a fazer um churrasco no domingo e a te convidar. Não sem antes escutar diversos imprompérios daqueles que jamais tinhas visto teu pai proferir. Coisas do tipo "aquele piá de merda que se vire! Não quer bancar o machinho? Pois que coma o pão que o diabo amassou! E por aí vai.

Bem sabemos nós como são as mães. A todos - e a tudo - demovem para cuidar dos filhotes. Tu vais, meio a contra-gosto, mas vai. Afinal, mamãe não merece desfeita. Por outro lado, vá que ela resolva cortar aquele dinheirinho que te dá "por fora", sem que teu pai saiba... Mãe é mãe, também sabe chantagear.

Ao chegares, e depois de dizer um "oi velho" e de receber um grunhido que só teus ouvidos escutaram, notas que há, na churrasqueira, um lombinho de porco de tamanho suficiente para alimentar seis pessoas. Mas vocês são apenas três: papai, mamãe (ou será mamãe e....) e tu.

É nessas horas que o universo parece conspirar a teu favor (ou terá sido mamãe?). Mais estranho ainda parece aquele lombinho, pois teu pai é judeu quase ortodoxo. Só não come porco. Dividido por dois, tua imaginação (e a fome durante a semana) começa a viajar na maionese que, por sinal, estava lá, bem servida e com alface decorando.

Nem pensa na cerveja, filho ingrato! A vigança do teu pai foi comprar apenas Coca Light Lemon. Toma uma pra não fazer desfeita pro velho.

Depois de agüentar uma tarde inteira ouvindo teu pai dizer que fugiu da guerra e que fez a vida sozinho num país estranho, olha bem na cara dele e diz que és diferente dele, que não estás fugindo dessa guerra pós-moderna e globalizada que é viver no mundo atual. Que és um corajoso ao enfrentar chegar em casa de madrugada e bêbado, correndo o risco de ser assaltado, quase todos os dias.

Na hora de ir embora, não olhe e nem pergunte o que é que aquele saquinho de supermercado faz no banco de trás do teu carro. Dê beijinhos na mamãe e vá direto para casa. Guarde o saquinho na geladeira (o do super, sua anta!). Durma, pois hoje comeste do bom e do melhor.

No outro dia, à noite, abra a geladeira e verifique o conteúdo do saquinho. Surpresa! É o lombinho de porco que sobrou e que mamãe amorosamente guardou pra ti. Mas eis que bate o desespero: o que fazer com o lombinho?

À moda econatureba não dá. Primeiro, porque não és eco, muito menos natureba (solteiros que moram sozinhos, por definição, não podem ser econaturebas). Segundo, porque econaturebas não comem carne (pelo menos é o que eles dizem. Quem garante que sozinhos em casa não comam?). Terceiro, pra isso existe a Culinária do Chato, pra te ensinar maneiras gostosas de preparar sobras de churrasco.

Todo solteiro que mora sozinho deve saber fazer um bom carreteiro de churrasco. É fácil, qualquer um pode fazer. Mas, atenção: as quantidades indicadas, se levadas ao pé da letra, resultarão em um carreteiro para:

(1) dez pessoas acostumadas a restaurantes caros, daqueles que servem 50 gramas de carne e uma folha de alface por R$150,00, dizendo que vêm com a assinatura de um grande "chef";
(2) oito pessoas acostumadas a serem educadas e que se dizem satisfeitas, embora quisessem comer mais;
(3) seis pessoas normais;
(4) quatro pessoas sem muita cerimônia;
(5) duas pessoas, como eu e a Kaya por exemplo, que comem, cada uma, por duas;
(6) uma pessoa, desde que classificada na categoria dos "obesos em geral".

Corta o lombinho em fatias de aproximadamente três quartos de um dedo indicador médio. Após, corta cada fatia em cinco tirinhas de aproximadamente um dedo mindinho médio. Novamente, corta cada tirinha em cubinhos de aproximandamente uma unha de um dedão médio.

Coloca três colheres de azeite de oliva para esquentar numa panela de ferro. Certo, tu és um solteiro que mora sozinho e certamente não tens panela de ferro. Um conselho: guarda um pouco daquele dinheirinho que mamãe te dá escondido e vê se compra uma caçarola de ferro. Dessa vez passa.

Corta bem picadinho três dentes, médios, de alho e coloque para fritar, depois que o óleo estiver quente. Como saber se o óleo já está quente? Não vá enfiar o dedo que queima! Joga um pequeno pedacinho e veja se saltou na tua cara. Se sim, o óleo está no ponto; se não, espera mais um pouco e joga outro pedacinho. Se sim... Quando o alho estiver fritinho (acostume-se! Solteiros que moram sozinhos de quando em vez soltam esse tipo de expressão, principalmente depois de uma semana sem comer ninguém), coloque o lombinho para fritar também.

Pica (não confunda. Essa é do verbo picar) uma cebola média bem picadinha e jogue na panela. Mistura bem e deixa fritar mais um pouco. Quanto? O suficiente para tomar uns goles daquela Coca light lemon que teu pai escondeu no teu carro e que tu, muito safado, resolveste guardar. Coloca um punhado médio de orégano e outro, médio, de pimenta do reino.

Encha uma xícara média de arroz. Agora aguarda a publicação do próximo post onde vamos discorrer sobre: "Vantagens e desvantagens de se lavar o arroz antes de fazê-lo", "Fritar ou não fritar o arroz, eis a questão" e "Água quente ou água fria para cozinhar o arroz? Oh Dúvida!".



Pois é,


A salada que vamos apresentar hoje pode ser feita de três maneiras:

(1) à moda econatureba;
(2) à moda preguiçoso;
(3) à moda "meu pai".

Os ingredientes são os mesmos, o que muda é o tempo de preparo.

A maneira econatureba é a mais demorada e depende de algumas situações particulares. Aviso: nem todos poderão fazê-la dessa maneira, como veremos. Fazê-la como fazem os preguiçosos, como o nome já dá a antever, é a maneira mais fácil e rápida. Não que o sabor seja diferente, mas perde, em muito, aquele prazer de "meter a mão na massa", que as outras maneiras têm. A forma como "meu pai" fazia, além de ser a mais gostosa, é diferente. Enfim, vamos ao que interessa. Antes, porém, outro pequeno aviso: as quantidades indicadas, se levadas ao pé da letra, resultarão em uma salada para:

(1) dez pessoas acostumadas a restaurantes caros, daqueles que servem 50 gramas de carne e uma folha de alface por R$150,00, dizendo que vêm com a assinatura de um grande "chef";
(2) oito pessoas acostumadas a serem educadas e que se dizem satisfeitas, embora quisessem comer mais;
(3) seis pessoas normais;
(4) quatro pessoas sem muita cerimônia;
(5) duas pessoas, como eu e a Kaya por exemplo, que comem, cada uma, por duas;
(6) uma pessoa, desde que classificada na categoria dos "obesos em geral".

1. Preparo à moda econatureba.

1.1 Ingredientes

Atenção: não vale "roubar" os ingredientes dos vizinhos. Lembre-se, a filosofia do econatureba é o "fazer com as próprias mãos" ou, como diriam os mais religiosos, "comer o pão feito com o suor do próprio rosto". E, nesse caso, você vai suar muito.

Primeiro - e mais importante de tudo - plante. Plantar resolve todos os problemas, além de economizar na consulta ao psicólogo, que será desnecessária.

Um terceiro aviso importante: não use sementes transgênicas. Além de não comprovados os malefícios que podem causar, você estará apenas contribuindo para aumentar a riqueza dos donos e investidores da Monsanto. Enquanto você permanece um econatureba pobre.

Plante uma oliveira, uma macieira, uma batateira, um pé de alface e uma ceboleira. Desnecessário dizer que a oliveira deverá ser plantada em primeiro lugar. Depois a macieira. Esse é o segredo da receita, que só Chato revela pra você! Em nenhum outro site gastronômico vão te contar isso.

Sente e espere. Esperar o quê? Que uma conjunção estelar faça com que todas elas dêem resultados ao mesmo tempo. Caso contrário você terá que comprar alguns dos ingredientes no supermercado. Aí, você só poderá fazer a receita à moda preguiçoso.

Se você não tem um galinheiro em casa está em maus lençóis, pois irá precisar de ovos para a maionese e para a decoração. Em todos os casos, ainda há tempo de resolver esse pequeno probleminha. Corte uma árvore e dela faça diversas tábuas para construir um galinheiro. Reserve um pouco da madeira para o fogo. Arranje uma galinha (não vale "roubar" dos vizinhos) e faça-a colocar vários ovos, desde que na época da floração (obs.: não vale dar ração escondido para a galinha).

Calcule o tempo de floração. Quando chegar nessa época, chame seu melhor amigo e parceiro e saiam para uma pescaria no mar. Escolham, para começar, um local em que possam coletar sal. Bastante sal. E marinho. Sal de saquinho e iodatado é coisa de preguiçoso. E essa veremos depois.

Vocês irão pescar atum. Não confundam, por favor, atum com sardinha. Sardinha vem em latas e você acha no corredor próximo ao local dos hortifrutigranjeiros. Por quê? Porque pesquisas recentes apontaram que pessoas que compram sardinhas em lata também compram mamão, giló, pimentão amarelo e lava-louças sabor côco.

A pesca de atum é feita em alto mar e é perigosa. Lembre-se de levar o EPI. Contate o IBAMA e obtenha, antes, a LI e a LO. Um quarto aviso importante: o IBAMA exige carteira de identidade e o comprovante de votação no plebiscito sobre o desarmamento. Ouvi dizer - e é só fococa - que se você votou no não, eles complicam (dito de outra forma, aqueles pilas reservados para a faculdade da sua filha vão dançar). Seja um econatureba responsável. Pense nas gerações futuras. Pegue apenas um atum. Você só vai precisar de umas 240 gramas dele (não esqueça de ralar. O atum, sua besta!). O que fazer com o resto?

Devolva para o seu amigo e parceiro. Lembre-se que você é um econatureba e, portanto, não tem carro, não tem barco, não tem EPI e, se não fosse por seu amigo e parceiro capitalista, não teria a salada também. Nada mais justo, então, que ele fique com os lucros da pescaria ou, como se diz modernamente, com os lucros de ter nascido um empreendedor. Ou, mais pós-modernamente ainda, um facilitador, que são aquelas pessoas que têm tudo o que tu não tens e que te facilitam realizar aquilo tudo que eles nem imaginam fazer com todo o dinheiro que tem. Mas cobram. E caro.

Colha as batatas, a cebola e maçã. Não esqueça de pegar os ovos no galinheiro. Colha, também, 352 azeitonas, esprema e delas faça 10 colheres de azeite de oliva.

- Mas, Chato?
- Sim?
- E qual a diferença entre virgem e extra-virgem?
- Essa é fácil. A virgem deixa bolinar mas não deixa meter.
- E a extra-virgem?
- Essa nem bolinar deixa!

Parece que já temos todos os ingredientes econaturebas:

- 1500 g de batatas, colhidas e descascadas com as próprias mãos;
- 1 cebola, colhida e descascada com as próprias mãos;
- 1 maçã, tirada ao pé com a própria mão (basta uma para pegar uma maça);
- 240 g de atum, ralado (é o atum que vai ser ralado, não as gramas) com as próprias mãos;
- 3 ovos, retirados do galinheiro com as próprias mãos;
- 10 colheres de sopa de azeite de oliva, espremidos com as próprias mãos;
- sal a gosto (o que sobrou na palma da mão, após passá-la no mar);
- suor do próprio rosto (sem ele os mais religiosos não podem fazer a receita).

Atenção: na foto acima pode-se vislumbrar a coxinha da galinha que foi assada. Não recomendamos aos econaturebas que matem sua galinha. Poderão ficar sem seus ovos (os da galinha, sua besta!).

A seguir: 2. Preparo à moda preguiçoso



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