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Pois é,

Seria muito comum dizer apenas que "abriu mais um restaurante em Porto Alegre", pois não é disso que se trata. Mais correto seria dizer que "abre as portas o primeiro restaurante fechado de Porto Alegre". Estaríamos sendo mais coerentes com a proposta, apesar do paradoxo. Como assim? Perguntariam vocês! Como é possível abrir algo que será fechado? Não é novidade no mundo, por certo. E quiçá mesmo aqui em Porto Alegre. Afinal, há mais restaurantes entre o céu e a terra do que ousa sonhar meu pobre e esfomeado estômago.

Don Afonso só receberá amigos. Só. Convites especiais. Personalizados. Com tudo pago antecipadamente.

Moras em São Paulo, Rio, Madri, EUA, Itália, seja lá onde for? És amigo? Terás um dia só teu no Don Afonso. Vinte pessoas da tua livre escolha que serão trazidas e levadas. Venham de onde vierem, voltem para onde quiserem. Tudo pago. Apenas uma noite no Don Afonso.

Cardápio? Exclusivo! Um a cada noite do ano. Apenas 365.

Preparado pessoalmente por mim.

Se eu ganhar na mega-sena, claro!!!

Essa seria uma das coisas que faria se ganhasse na mega-sena. Cozinhar!

- Afonso?
- Quié, Chato? Pensei que estavas aproveitando o feriado para dormir!
- Bem que tento, mas essa tuas bobagens me acordam!
- Não enche o saco!
- Encho, sim! Com tanta coisa bonita para conhecer no mundo, vais querer ficar nessa cidadezinha provinciana, quase do interior, cozinhando? E pros outros? E ainda vais gastar teu dinheiro para trazer gente de lá do fim do mundo só para comer tuas gororobas? Era só o que me faltava! Qualquer dia desses te abandono de vez...
- Não entendes nada da vida, Chato.
- Mais que tu!
- Cala boca e vai dormir! Sabes por que és chato? Porque não te dás o direito de sonhar, de querer coisas, mesmo que não estejam, no momento, ao teu alcance. Já fiz as contas. Vinte pessoas, trazidas e levadas, de qualquer parte do mundo, custariam, no máximo, R$ 40.000,00. O que isso significa para quem ganhou 40 mihões? Só com os juros de um mês da poupança daria para pagar 7 noitadas. Ao final de um ano ainda teria lucro! E o prazer? Cozinhar e receber os amigos? Isso não há o que pague! Não há Paris no mundo que substitua um abraço, um beijo!
- Posso te dar uma outra idéia?
- Pensei que já estavas dormindo! Pode, vá lá!
- Quem sabe se, em vez de ficar em Porto Alegre, fazes um restaurante itinerante?
- Como assim?
- Em vez de trazeres as pessoas pra cá, vais até onde elas moram. E levas junto os convidados dela. Assim aproveitas para conhecer as cidades e para fazer as tuas gororobas!
- Taí, não tinha pensado nisso. Boa idéia. Finalmente mostras que serves para alguma coisa, Chato! Vou pensar nisso!



75 - Domingo

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Pois é,


Algo me diz que o frio se aproxima. Se o Joseph resolveu dormir em cima do pelego, é porque vem coisa ruim por aí. Enfim, quem manda morar por aqui...

E para aproveitar o domingo, de temperatura ainda amena, resolvi ir para a cozinha. "Resolvi" não deixa de ser uma licença poética, pois os domingos são sempre meus, na cozinha. E de serviço completo, viu meninas?, incluindo lavar a louça, antes, durante e depois. Pois ontem "resolvi" inventar. Fiz uns medalhões de lombo de porco acompanhado de talharim ao alho e óleo. Aos fatos, então. E fotos, claro!

Não é nada que mereça um prêmio. Apenas uma comidinha simples, rápida, mas saborosa.

Ingredientes:

- 1 lombo de porco, óbvio;
- 1 copo de vinho branco seco;
- 4 dentes de alho (se gostar mais forte, uns seis);
- 1 colher de sopa de shoyo;
- 1 limão;
- pimenta calabresa;
- sal;
- azeite de oliva;
- 500 g de talharim ou ou massa qualquer;

Pra modis de poder comer:

Prepare um "molho" para deixar a carne temperando: coloque o suco do limão (guarde o limão, pois será necessário), o vinho, o shoyo, a pimenta e o sal a gosto:


Corte o lombo em fatias de um centímetro aproximadamente:


e coloque dentro do molho. Deixe descansar por uma hora, virando as fatias uma vez:


Corte os dentes de alho em rodelas:


- Mas, Chato?
- Quié dessa vez?
- Eu não gosto de cortar alho. Deixa um cheiro horrivel nos meus dedos. Não tem outro jeito não?
- Ter, tem! Vai no super e compra aqueles potinhos com alho picado pronto. Mas convenhamos, não vai ter graça nenhuma, né? Quem sabe tu pedes um prato de teleentrega. Assim não tens trabalho algum.
- Ah! Mas eu queria tanto fazer assim como tu fazes...
- Então o Chato vai te contar um segredo: lembra que eu disse pra guardar o limão depois de espremê-lo? Pois é, lava as mãos, depois de cortar o alho, e esfrega o limão nos dedos. É tiro é queda. Não fica um cheirinho de alho.
- É mesmo, Chato? Não sei o que faria sem ti. Vou já fazer essa receita, agora que não tenho mais nojo de alho!

(Ufa!) Coloque azeite numa frigideira de ferro e, depois de quente, coloque os medalhões para fritar:


Como vai soltar o caldo, os medalhões não ficarão tostados. Coloque numa frigideira comum, sem azeite (como se fosse uma chapa) e deixe-os dourar.


Coloque mais azeite na frigideira de ferro, junto ao molho que lá ficou. Coloque o alho para fritar e acrecente mais uma duas colheres do molho onde estavam os medalhões. Deixe fritar bem fritinho (depende do gosto. aqui gostamos bem frito).


Despeje sobre a massa (que, claro, você já havia cozinhado, né?) e misture bem. Por cima, coloque os medalhões.


O sabor da massa fica suave e é complementado pelo sabor da carne e do alho que vai ficando na boca. Tudo misturado, levemente, com o sabor do vinho e dos temperos. Da próxima vez vou colocar mais pimenta.



pois é,

Qual o melhor prato do mundo? (depois do prato cheio, é claro). Pra mim é esse:


esta bela lazanha que fiz domingo retrasado e ainda não tinha mostrado. Por mim, comeria lazanha todos os dias...



Pois é,

Pessoal,

O Alexandre Mansur, editor de Ciência & Tecnologia da revista Época, fez a gentileza de me entrevistar para o blog de ecologia da revista, o Blog do Planeta. Vão lá, vão lá, hehehe

Mail do dia

Hoje vamos responder aos mails enviados pelos nossos queridos leitores. O primeiro é um jovem chamado Aloysio, morador de Tucuruçu do Oeste:

"Caro Chato,

Tenho lido todos os teus posts sobre culinária e hoje criei coragem pra te escrever. Vou fazer dezoito anos agora em março e ouvi dizer que homens prendem as mulheres pelo estômago. Tenho tentado aprender a cozinhar, mas ainda tenho algumas dúvidas. Por exemplo, quanto é, mesmo, uma pitada de sal? E fogo brando? Qual a diferença, se meto a mão em qualquer deles e sempre acabo me queimando?

Responda, por favor, pois quero muito arranjar uma namorada!"

Querido consulente! Devo te dizer, de início, e talvez para tua decepção, que as mulheres, em geral, são presas pelo bolso e não pelo estômago. Não que o estômago não faça diferença, mas essa diferença só conta em restaurantes finos, que é onde elas sempre querem que a gente as leve. E aí vais ter que usar o bolso. E não te iludas quando elas sugerirem que adorariam provar da tua comida. É só para não precisarem ir para a cozinha. Depois que elas decobrirem que sabes cozinhar, nunca mais terás os teus domingos livres (não esquecendo que a maioria irá exigir, inclusive, que laves a louça, dizendo "deixa tudo direitinho como eu sempre faço!").

Para a tua outra colocação, devo te dizer que és o reflexo da educação que dão nas escolas brasileiras. Se tivessem te ensinado, nas aulas de história, o que realmente interessa, saberias que a "pitada de sal" e o "fogo brando" foram invenções das mulheres da idade média, mais precisamente das bruxas. Essa, inclusive, era uma das mais fortes razões pelas quais elas eram queimadas. As bruxas que, mesmo depois de torturadas, não confessavam o quanto era uma pitada de sal, acabavam na fogueira. Foi aí, também, que nasceu fogo brando.

O pessoal da idade média não tinha muita experiência com queimar pessoas. As primeiras bruxas que foram queimadas gritavam desesperadas "o fogo tá brando, o fogo tá brando", querendo dizer, com isso, que estavam demorando muito para morrer. A expressão "fogo brando" acabou sendo utilizada para referir-se àquele fogo que cozinha a comida devagar. Pelos século seguintes, os cientistas tentaram desenvolver um método para medir exatamente a temperatura do famoso fogo brando das bruxas. Sem sucesso, é claro, pois havia uma dificuldade inerente: nenhuma delas jamais voltou para dizer como era o tal fogo brando.

Foi aí que um cientista americano do século passado, de saco cheio com essa história toda, inventou uma escala para o fogo: baixo, médio e alto. Segundo os originais do trabalho desse cientista, nem mesmo ele conseguiu definir onde ficava o fogo brando nessa escala. Há uma nota de rodapé, na página 357, onde ele sugere que o fogo brando fica entre o baixo e o médio.

Até hoje, também, a pitada de sal permanece um segredo das bruxas, ou sogras, como são conhecidas atualmente, pois nenhuma bruxa jamais voltou para dizer quanto era a tal da pitada de sal. E sogra que se preze não entrega o ouro pro bandido.

Foi aí que um cientista americano do século passado, de saco cheio com essa história toda, inventou um saquinho com três gramas de sal e as pessoas usam como se fosse uma pitada de sal. Não é, pois há uma dificuldade inerente: americano não entende nada de comida, só de fast food.

Um conselho para terminar, querido consulente: arranja uma namorada que goste de McD@nal... Dá menos trabalho!

Receitinha do dia

Sou dos que não sentem gosto em macarrão. O gosto será sempre do molho. Confiando nisso, resolvi comprar um macarrão que dizia ter gosto de salmão. Esse da foto lá em cima, importado do Uruguai. Como macarrão não tem gosto, repito, fiz um molho de galinha e mandei ver. Resultado: não é que o tal do macarrão tem mesmo gosto de peixe? E forte.

Eca! Estragou meu molho!

Pra quem gosta até é uma boa pedida. Mas façam com um molho de camarão, por exemplo.

Tão bonito que ficou...



Pois é,

- Ecochato?
- Sim, Chato?
- Eu se fosse tu não lia esse post...
- Por quê?
- Porque ele é um post cheio de metano!
- Como assim, "cheio de metano"?
- É que eu aproveitei o carnaval para fazer algumas comidinhas com ingredientes que poluem o meio ambiente.
- E não teve sequer uma saladinha? Uma folhinha de alface que seja?
- Não, nada. Só derivados da vaca. E como bem sabes, já que és um ecochato, as vacas produzem muito metano.
- Pô Chato, quando é que vais aproveitar aquele baita terraço e plantar umas verdurinhas?
- Tô pensando, tô pensando. Enquanto isso, deixa eu te dizer uma coisa.
- O quê?
- Embora os entendidos digam que a verdade é uma coisa que não existe, vou te dizer três verdades a respeito do churrasco.
- Churrasco, Chato! Não vai me dizer que fizeste outro churrasco...
- Não só um churrasco. Um churrasco, um carreteiro e uma lazanha! Farta comilança no carnaval.
- Eca! Tens razão. Tudo isso só leva carne e derivados da vaca. E ainda por cima arroz, que também ajuda no aquecimento global. Como dizemos por aqui, Chato, "toma tento, guri"! Tá na hora de botar uns verdinhos nesse corpo. Mais tarde vais sentir falta...E quais são as verdades sobre o churrasco?
- A primeira delas é que, embora cariocas e paulistas pensem que sabem fazer churrasco, só gaúcho mesmo é que sabe fazer.
- Tá comprando briga, Chato. Depois ninguém aparece por aqui e vais ficar triste.
- A verdade dói, meu caro!
- Dor eu já estou sentindo no estômago, só de imaginar tanta carne em tão pouco tempo... E a segunda?
- A segunda é o seguinte: mulher não sabe fazer churrasco!
- Perdeste metade do teu eleitorado com essa!
- A verdade dói, meu caro. Em cinqüenta anos nunca vi uma mulher fazendo churrasco. Ora, é uma questão de lógica. Veja: se em 50 anos nunca vi uma mulher fazendo churrasco, segue que elas não fazem por que não sabem. Caso contrário, eu já teria visto alguma fazer, não concordas?
- Sei não. Dá uma vasculhada aí pela net. Vai que encontras alguma que faça! E a terceira grande verdade?
- Bom, excluídas as mulheres e as crianças, só nos resta algo como uns três milhões de homens adultos no Rio Grande do Sul. Desses, metade só sabe dar palpite no churrasco dos outros. E não tem coisa pior do que fazer um churrasco com peru do lado.
- Pelo que eu tô vendo, Chato, não vai sobrar muita gente...
- É mesmo. Mas o mais importante, é que todos esses um milhão e meio de churrasqueiros pensam que sabem fazer um churrasco. E sabes como a gente sabe que fez um bom churrasco?
- Diz logo, pô!
- Existem milhares de formas diferentes de fazer um churrasco, uma para cada um desses um milhão e meio. Pesquisa que vais ver. Cada um faz o melhor churrasco. Há a turma que defende o sal antes; a turma que defende o sal depois. Tem a turma que usa salmoura e até a turma do sal um pouco antes de servir. Tem de tudo por aí. Tem, ainda, os "especialistas" em cortes. Te dão mil e uma aulas sobre como escolher a "melhor" carne para o churrasco. A verdade é que só existe um "melhor churrasco" e esse é sempre o segundo churrasco!
- Não tô entedeeeennnndo!
- Olha aqui, Ecochato de merda! Se vais falar com sotaque por aqui, o post está encerrado!
- Nem uma chiadinha, Chato?
- Pior ainda!
- Bueno, que seja! Mas continuo sem entender!
- Além de Ecochato, é ignorante o bagual!
- Sem ofensa!
- E quer saber? Enchi o saco! Cansei! Quem sabe amanhã eu termino.
- Puta sacanagem! Vais me deixar curioso?
- Vou!



Pois é,

Antes de continuar, se existem três coisas pelas quais ainda vale a pena manter a esperança no mundo, ei-las:



Dezesseis anos as separam. Mera questão de idade, pois sabemos que serão adultas no mesmo mundo e tempo. Tempo e mundo que já não me pertencem. Na verdade, ambos nunca me pertenceram. Mas foi domingo, e domingo é dia consagrado. Poucas vezes tenho conseguido fazer isso. Pai e filhas. A Fernanda não mora comigo, e, infelizmente, ambas, Kaya e Fernanda, mantêm uma relação, no máximo, social e de respeito. Elas querem assim e só me resta respeitá-las. Aos poucos tento buscar uma maior convivência, mas é difícil.

Ao menos temos algo em comum: uma bela picanha mal passada, assada por este que vos escreve. Daí a pensar é um pulo: se não sou capaz de resolver um problema caseiro, aparentemente de fácil solução, como enfrentar problemas da humanidade?




Clique na foto para vê-la em tamanho natural.

Pois é,

O Chato parece que vai longe. Depois da publicação da minha receita de arroz de carreteito no blog da Roberta Malta, foi a vez do Luiz Minduim Vasconcellos. Minduim publica, há mais de 10 anos, uma coluna sobre gastronomia no Diário Popular, jornal da cidade de Pelotas. A foto é da publicação e a receita foi copiada do blog da Roberta. .

De quebra, ele me envia uma receita de bacalhau que vou publcar aqui, com as fotos, quando a fizer. O que espero seja em breve, pois adoro bacalhau.



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