Overdose! - II

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Pois é,

- tem A Floresta, de Vinícius de Moraes, lá no Ambiarte

- tem Humanismo Ambiental, lá no Faça a sua parte

- tem Meu primeiro passeio ecológico, lá no As Aventuras da Condessa Clarissa

- continua a chamada para a blogagem coletiva contra o analfabetismo, lá no Lili faz a sua parte


e, não fosse pouco, segue um post sobre um comentário no post anterior:


Meu querido amigo Sem-Blog, Moses (e também, na mesma linha, a Georgia), abordam o "lado negro" do maio de 68 em seus comentários ao post anterior. Diz ele que "68 foi mágico, mas criou muita merda. A derrocada do 'pudor' como valor significou muito além da magnífica liberdade: significou, também, o não ter mais vergonha de esbaldar-se enquanto o outro morre de fome. A pregação do prazer individual e da felicidade qualquer custo foi a semente do vale-tudo que aí está. A redução da conduta de precisar justificar-se a mera 'velharia' consagrou a desconsideração pelo outro".


Devo confessar que me espanta, por vezes, o cartesianismo de certos pensamentos, que ignoram que, em se tratando de sociedade, não apenas uma única causa, mas causas e, dentre elas, algumas muito mais importantes para o "vale-tudo que aí está", mais ainda se pensarmos em um país periférico ao movimento, como o Brasil pós-68, e em plena vigência de uma ditadura que consagrou um modelo de educação e um modelo midiático que privilegiaram o desenvolvimento do "esbaldar-se enquanto o outro morre de fome", sem vergonha alguma disso.


Não foi o 68 que transformou guerrilheiros em políticos apenas interessados na satisfação individual. Não foi 68 que deu a Gl@b@ (e congêneres escritas, faladas e televisivas) o poder que teve de ignorantizar e alienar1 as pessoas e de torná-las individualistas, por meio de décadas de propaganda de ideais consumistas e de mostrar "mulher meio nua, de bunda prá cima e fazendo cara de piranha" como sendo "sensualidade".


Não foi o 68 que fez essa nação optar pelo modelo cultural norte-americano, esse sim, de viés absolutamente individualista, mas, sim, esse mesmo poder que tomou conta de nós por mais de 20 anos e que deixou raízes profundas, das quais ainda haveremos de levar várias gerações para nos livrar.


Não foi 68 que fez de nós um país com 74% de "alfabetizados funcionais", gente que, no máximo, "consegue ler um texto curto, localizando uma informação explícita ou que exija uma pequena inferência" (a bem da verdade, os que conseguem isso representam apenas 38%. Os demais, 36%, são de analfabetos ou de "alfabetizados nível rudimentar"). O que esperar dessa gente? Nada, a não ser que se atirem numa poltrona, todas as noites, e fiquem a ver telejornal e novela. Ou, como recente pesquisa realizada "pela Revista, de O Globo", que "mostrou que 55% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2007. Por quê? Nas classes A e B, 59% responderam 'não tenho o hábito' e 19% disseram 'não gosto'. Nas classes D e E os índices foram de 58% e 27%".


Eles não são produto de 68! Nós, os 26% que "consegue ler textos mais longos, localizar e relacionar mais de uma informação, comparar vários textos, identificar fontes" e que leu ao menos um livro em 2007, não somos produtos de 68, tão pouco! Ainda somos produtos de uma mescla de ver e de se preocupar com o mundo dos nossos pais com a nova forma originada em 68.


E foi uma forma, não preciso recordar tudo aqui, exatamente contrária ao individualismo e ao "vale-tudo que aí está".


1O conceito de alienação vem do seu significado jurídico - o de entregar a outro o que nos é próprio. Produzir um mundo em que não nos reconhecemos é um produto da alienação. Atribuir a seres que estão para além do mundo a responsabilidade e o poder sobre o mundo é assumir uma visão alienada. É alienar responsabilidade dos homens sobre o nosso mundo. O humanismo, ao contrário, busca compreender o mundo tal qual ele é a partir da ação - consciente ou não - dos próprios homens, como condição de sua liberdade e de sua responsabilidade.

Depois eu cito as fontes...

1 Comments

Afonso,

é claro que não defendo que 68 seja "o" responsável por tudo aquilo. Como tu, sei que a vida é complexa, no mais das vezes inexplicável, muito menos mediante uma única causa. Isso da monocausalidade, a bem da verdade, é fruto do século passado, da especialização das ciências, do fim do pensamento generalista, e pagamos caro por termos pensado assim por tanto tempo.

Inobstante isso, não retiro o papel contextualizador de 68. Não por que não identifique outras causas, como no caso do Brasil. (A propósito, veja Paris Hilton: não teve ditadura em NY). É que, mesmo sabendo que o grande diferencial foi a massificação proporcionada pela TV, como difusora de padrões de comportamento, fato é que houve um tipo de atitude que se prestou a servir como meio para a consolidação dos novos valores. E esse tipo de comportamento queiramos ou não foi aquele que eclodiu em 68 - na verdade, os "movimentos" anteriores, de Elvis, Beatles, já davam o tom. E não me acuse de ser anti-68, pois tu sabes que eu sou um fã incondicional de Pink Floyd, e queria ter nascido em 53, ao invés de 73, queria ter estado lá em Paris ou Londres naquela época. É que o "descompromisso" é produto de 68, mais outras causas como a TV, o capitalismo financeiro que obriga a resultados trimestrais e fomenta uma indústria de consumo, etc, etc.

Além disso, não podemos esquecer o papel que vem tendo a revolução feminina, muito mal estudada, aliás, quando se trata de entender o que houve de 70 para cá em todas as áreas. Particularmente, tenho muito pesar pela maneira como as mulheres fizeram sua "libertação" (tema loooooogo) e acho que 68 teve ligação direta com isso, pois ali não se procurou debater o que queriam ser, somente que queriam ser iguais aos homens, jogando no lixo todo um papel de estruturação social criado ao longo de milhares de anos a troco de quase nada.

Em suma, meu caro, não acho que seja só 68. Mas que ele tem seu papel, tem.

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on abril 7, 2008 12:33 AM.

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