Estupidez humana: mais uma!

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Pois é,

pedras.jpgNão conheço e nunca vi mais gordo ou mais magro. Ainda bem!

Antes, abro uma exceção para a possibilidade desse sujeito ter escrito isso de forma irônica, imbuído da vontade de "levantar" a lebre do assunto. Fora isso, não resta dúvida de que deveria ser banido do mundo. Mantido preso nessas prisões estelares das obras de ficção científica. Eternamente, para nunca mas  voltar a por os pés na Terra. Essa mesma Terra que ele acredita "gozar de plena saúde". E que leve junto uma assinatura, também eterna, do jornal que se digna a publicá-lo!

Por sorte, sei lá, o mesmo jornal, e talvez para não parecer que não é "democrático", publicou a réplica do Arnaldo Antunes.

Leiam os dois textos. E concluam por si mesmos.

"http://www1. folha.uol. com.br/fsp/ ilustrad/ fq0402200818. htm

São Paulo, segunda-feira, 04 de fevereiro de 2008
NELSON ASCHER

Quente ou frio?

O lobby mais poderoso e articulado é, sem dúvida, o dos verdes ou
ecologistas

QUANDO VIERAM atrás das lâmpadas incandescentes, não protestei porque já me
habituara a ler à luz de outras; quando baniram os bifes, não disse nada
porque podia comer pizzas; quando eliminaram os transgênicos, tampouco
reclamei, pois meu salário bastava para comprar alimentos orgânicos; quando
proscreveram os vôos internacionais, dei de ombros, pois já conhecia Paris,
Londres, Veneza; quando tornaram proibitivo o uso de automóveis, obrigando
todos a se aglomerarem em ônibus e metrôs, calei-me porque trabalhava em
casa; quando plastificaram as genitálias alheias para limitar a produção de
bebês, ri da história porque não me dizia respeito; quando criminalizaram a
sátira, os comentários politicamente incorretos, a obesidade, o fumo etc.,
aí, obviamente, já era tarde demais para abrir o bico.

Poucas décadas atrás, todas as proibições mencionadas teriam parecido
ridículas, quando não absurdas. Dependendo de onde a vítima viva, hoje a
maioria delas se tornou real demais. E muitas estão sendo impostas aos
cidadãos não por meio de mecanismos democráticos, como a discussão e o voto,
mas através de lobbies endinheirados que pressionam governos para que estes
imponham à sociedade as manias desta ou daquela minoria obsessiva.
O lobby mais poderoso e articulado é, sem dúvida, o dos verdes ou
ecologistas. Esse pessoal não apenas meteu na cabeça que, devido a algumas
variações de frações de graus nos últimos cem anos, o planeta está prestes a
se derreter, como se convenceram também de que nós, ou seja, os seres
humanos, é que somos a causa do suposto desastre. Gente como Al Gore, os
militantes do Greenpeace e os burocratas transnacionais da ONU selecionam a
dedo, entre inúmeras hipóteses contraditórias, as poucas que lhes confirmam
os preconceitos, obtêm apoio de alguns cientistas que acreditam nelas,
conseguem o silêncio de muitos outros e, valendo-se de modelos
computacionais às vezes duvidosos, muitas vezes discutíveis e discutidos,
transformam em verdade absoluta o que mal passa, no momento, de uma
especulação entre tantas, declarando, precipitada e acientificamente, que se
trata de consenso indiscutível. Para completar, demonizam ou isolam quem
quer que levante a menor objeção.

Mas, como não faltam mais aqueles que estão devidamente habituados a/e
vacinados contra seu terrorismo conceitual (e, não raro, seu terrorismo
propriamente dito), o fato é que, se submetidas aos processos decisórios
normais de uma democracia, as medidas que eles reivindicam para combater
tais males imaginários jamais seriam referendadas pelo grosso do eleitorado.
Aí entram milionários como George Soros, companhias preocupadas com o efeito
da propaganda negativa, firmas interessadas em vender produtos
ecologicamente corretos, economias estagnadas que vêem nessa medida uma
maneira de prejudicar as que andam a pleno vapor, países, ou antes, governos
e elites do Terceiro Mundo aos quais se promete certa vantagem financeira em
troca de apoio e assim por diante.

Um exemplo ajuda: pouco antes de deixar a presidência dos EUA para se tornar
uma presença requisitada em Davos e lobbista internacional, Bill Clinton
assinou o Protocolo de Kyoto. Por que é que só o fez então? Porque sabia que
o documento não tinha a menor chance de passar pelo Senado. Embora seu gesto
fosse, como tal, inútil, este aumentava sua popularidade entre o jet-set
internacional em detrimento, é claro, da imagem de seu país. E isso apesar
de sabermos que Kyoto era praticamente inútil, que as nações mais vocalmente
empenhadas em seu sucesso têm sido as que mais longe ficaram das metas
propostas.

A preocupação exacerbada com o clima e o meio ambiente, coisas cujo
funcionamento se conhece pouco e mal, já resultaria em problemas imediatos,
pois, para a parcela miserável da humanidade, dificulta cada vez mais a
superação de seu estado. O que a faz ainda pior é o fato de que seja usada
para encobrir ou eclipsar as questões verdadeiramente urgentes, os perigos
autênticos que nos rondam: fanatismo religioso e conflitos interétnicos,
terrorismo e banditismo internacionais, contrabando de armas e narcotráfico,
migrações descontroladas, ditaduras genocidas em vias de adquirir armamentos
nucleares. Nada disso, porém, desviará a atenção de milhares ou milhões de
militantes que, como os adeptos de qualquer seita, são movidos por dois
desejos prazerosos, a saber, o de policiar a vida alheia e o de punir o
sucesso de sociedades inteiras que não comungam de sua fé apocalíptica.

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http://www1. folha.uol. com.br/fsp/ ilustrad/ fq1702200819. htm

São Paulo, domingo, 17 de fevereiro de 2008

RÉPLICA

Uma piada de mau gosto

Em resposta a texto do colunista Nelson Ascher, o músico Arnaldo Antunes
destaca a urgência da questão ambiental

ARNALDO ANTUNES
ESPECIAL PARA A FOLHA

É DE derrubar o queixo o artigo de Nelson Ascher de 4 de fevereiro, nesta
Ilustrada, em que declara que "o lobby mais poderoso e articulado é, sem
dúvida, o dos verdes ou ecologistas" , que estaria impondo ao mundo inúmeras
restrições, baseado em "males imaginários".

Tendo em conta as enormes dificuldades para conseguir reduzir minimamente os
efeitos de uma situação planetária que vem se revelando muito mais alarmante
do que até então todos supúnhamos, tal afirmação do colunista parece uma
piada de mau gosto.

A urgência em se tratar da questão ambiental vem sendo comprovada por
inúmeras pesquisas científicas e evidências incontestáveis, a despeito das
já reportadas pressões que o governo americano vem exercendo sobre seus
cientistas para atenuarem, retardarem, alterarem ou excluírem suas
conclusões sobre o meio ambiente dos relatórios oficiais.

Nelson Ascher repete aqui a ladainha do "não é bem assim", que vem sendo
usada com freqüência pelos representantes dos interesses das indústrias
poluentes para tapar o sol com a peneira e não alterar suas condutas em
relação ao meio ambiente. Faz isso desde o título de seu texto ("Quente ou
frio?"), pondo em dúvida, não só o aquecimento global, como também a
responsabilidade humana sobre ele.

É claro que medidas ecológicas implicam diretamente reduções drásticas nos
lucros imediatos de determinados grupos empresariais, diante dos quais as
reivindicações dos ambientalistas (como reduções nas emissões de CO2,
tratamento adequado do lixo, descontaminaçã o das águas, restrição ao
desmatamento das florestas) ainda engatinham, contra muita resistência e
pouca consciência.

Metáforas medonhas
Ao mesmo tempo, não é de espantar a postura de Nelson Ascher, para quem já
vem acompanhando, em doses semanais, sua campanha a favor da desastrosa
política externa da administração Bush e de seus métodos para combater o
terrorismo internacional.

Nos primeiros momentos da invasão norte-americana no Iraque, Ascher
comemorou com entusiasmo a suposta vitória (com metáforas medonhas como as
de bombas caindo como pizzas "delivery"), sem perceber o quanto não se
tratava de um termo, e sim do início de um conflito armado que se estende
até hoje, sem uma solução à vista.

Dessa visada, seu artigo parece fazer sentido, pois serve bem ao que almeja
a nova ordem americana (marcada pela intolerância nas relações exteriores,
assim como pela recusa em aceitar as restrições internacionais para controle
do aquecimento global), contra o que já chamou, em outros artigos, de "velha
Europa".

Ainda, para Nelson Ascher, os defensores do meio ambiente seriam
responsáveis por uma série de "proibições" que, "poucas décadas atrás,
teriam parecido ridículas": "baniram os bifes", "eliminaram os
transgênicos" , "proscreveram os vôos internacionais" , "tornaram proibitivo o
uso de automóveis", "plastificaram as genitálias alheias para limitar a
produção de bebês", "criminalizaram a obesidade, o fumo etc.".

Um mínimo de sensatez basta para duvidar da maioria dessas colocações. O
culto à forma física e a proibição ao fumo têm origem mais ligada a questões
de saúde pública e conservadorismo moral do que à defesa do meio ambiente.
Por sua vez, o uso de preservativos -apesar de atualmente ter mais relação
direta com a ameaça da Aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis
do que com causas ecológicas, como o controle de natalidade- apresenta uma
alternativa libertária e necessária, contra a qual o puritanismo das forças
neoconservadoras (as mesmas que tentam substituir Darwin por Adão e Eva no
ensino primário) investe com a defesa das relações monogâmicas e do sexo
apenas com fins de procriação. Quanto às outras restrições, parecem
ilusórias ante a constatação da realidade cotidiana.

As ofertas para consumo de carne aumentaram em quantidade e variedade nas
últimas décadas, e não parece preciso lembrar aqui que parte da floresta
amazônica vem sendo devastada para se tornar pasto. Os preços das passagens
para vôos internacionais caíram consideravelmente. As facilidades de compra
parcelada de automóveis também aumentaram, ao ponto de o número de veículos
nas ruas levar a uma situação indomável, da qual nenhuma espécie de rodízio
parece dar conta.

Enfim, por mais que nos queira fazer crer no contrário o colunista, o fato é
que venceu a cultura do excesso, do desperdício e da irresponsabilidade em
relação a um futuro que não seja imediato.

É por isso que, a cada dia mais, temos que conviver com insanidades como,
para ficar em pequenos exemplos, guardanapos de papel embrulhados um a um em
embalagens plásticas, canudos de plástico revestidos um a um em embalagens
de papel, sachês de material plástico embalando pequenas porções de
mostarda, ketchup, azeite, maionese etc., que, numa estúpida assepsia (que
há poucas décadas, sim, pareceria ridícula), vêm, gota a gota, degradando o
planeta.

Era Bush
E, é claro, esse estado de coisas combina bem com a conjunção de
intransigências que marca a era Bush, apoiada principalmente pelos lobbies
das indústrias petrolífera e armamentista, não só imensamente mais poderosas
do que as que lutam pela preservação do meio ambiente, como também com
interesses antagônicos a elas.

Muito mais graves do que as "proibições" atribuídas por Ascher aos
ecologistas são as restrições à liberdade individual levadas a cabo pelo
governo americano em sua campanha antiterrorista -correspondências violadas,
prisões sem mandados ou advogados, perseguições a pessoas que se oponham à
guerra, cerceamento de manifestações de rua, restrições crescentes para
concessões de vistos a imigrantes.

Mas o que é mais inaceitável é a afirmação de que "a preocupação exacerbada
com o clima e o meio ambiente, coisas cujo funcionamento se conhece pouco e
mal, já resultaria em problemas imediatos, pois, para a parcela miserável da
humanidade, dificulta cada vez mais a superação de seu estado", ante a
evidência de que os mais desfavorecidos economicamente são também os que
mais sofrem as conseqüências das contaminações tóxicas e dos desvios
naturais decorrentes delas.

Além disso, Ascher ignora os inúmeros projetos de inclusão social
relacionados à coleta seletiva de lixo e reciclagem, por exemplo, entre
outras iniciativas ecológicas.

Quanto ao Protocolo de Kyoto (que os EUA não assinaram, apesar de serem os
maiores contaminantes) , cujas metas parecem hoje insuficientes diante dos
mais recentes relatórios sobre a situação ambiental, o articulista afirma
"sabermos que era praticamente inútil, que as nações mais vocalmente
empenhadas em seu sucesso têm sido as que mais longe ficaram das metas
propostas", como se uma lei devesse deixar de existir apenas pelo fato dela
não estar sendo devidamente cumprida.

Há pessoas que defendem esse estado de coisas dizendo: "poderia ser pior",
como no caso da ordem mundial ser tomada pelo fundamentalismo islâmico, em
que todos os considerados "infiéis" poderiam sofrer violência desmedida.
Eu acho que deveríamos pensar: "poderia ser melhor", se os Estados Unidos e
os países que os seguem assumissem seus compromissos com o controle de
abusos ambientais; se houvesse maior liberdade de trânsito entre as
fronteiras; se a intolerância desse lugar ao diálogo; se todos pensassem não
só nos seus filhos e netos, mas também nos tataranetos dos seus tataranetos.

ARNALDO ANTUNES é poeta, compositor e cantor"

Pensem a respeito...

6 Comments

Post muito bacana! Valeu por compartilhar... ainda não tinha lido isso! Vou te linkar no meu blog... abraço e viva o Arnaldo, genial como sempre!

Arnaldo Antunes adentra com dois pés no peito!

é como dizem, opinião e bunda, cada uma tem a sua. pois esse ascher. perdoe-me se sou muito agressiva, mas esse ascher não merece respeito algum e muito menos as palavras do arnaldo.

isso só fez crescer minha admiração pelo sujeito.

valeu por compartilhar afonso!
abraços,
agatha

Caramba! Cáspite! Argh! Quac! PQP! Arre! Eita! Que esta ´"síndrome de Ascher" não se torne epidemia.

Arnaldo Antunes deu uma resposta à altura. Quanta sandice desse Nelson em poucos parágrafos, darwin-do-céu!

com a corda toda, hein, Afonso? duas ótimas postagens. gostei!

um beijo.

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on fevereiro 21, 2008 12:01 AM.

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