Cidadania sustentável - II

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Pois é,

Valores e limites. Tudo tem a ver com a resposta para a seguinte pergunta:

Qual o meu limite?

Convém, para prosseguir, lembrar um pouco de Rousseau (1712-1778) (aqui, aqui, aqui):

(antes, uma observação: não concordo com a premissa básica do Rousseau, de que o homem é bom por natureza, mas concordo com a sua crítica à propriedade privada com fator essencial da transformação ocorrida com o homem)

"'Cada um de nós coloca em comum a sua pessoa e todo o seu poder sob a suprema direção da vontade geral, e nós recebemos em corpo cada membro como parte indivisível do todo'. Significa isto que cada associado se aliena totalmente e sem reserva, com todos os seus direitos, à comunidade. Assim, a condição é igual para todos. Cada um se compromete para com todos. Cada um, dando-se a todos, a ninguém se dá. Cada um adquire, sobre qualquer outro, exatamente o mesmo direito que lhe cede sobre si mesmo. Cada um ganha, pois, o equivalente de tudo quanto perde, e mais força para conservar o que possui." (Chevallier. Jean-Jacques. As grandes obras políticas: de Maquiavel a nossos dias. 4ª ed., Rio de Janeiro: Agir. 1989. p.163.)

O que falta em Rousseau? Limites. A "alienação" é total e sem reservas. A vontade geral representada pela lei.

Aproveitem para atualizar a leitura de Charles-Louis de Secondat, senhor de La Brède e Barão de Montesquieu (1689-1755), John Locke (1632-1704) e toda a turminha que há duzentos anos manda no mundo (Google neles, please...)

- Porra, Chato! Uma coisa é ser chato, outra é ficar pentelhando com essa gente e querendo se meter a besta!

Pois é, mas até hoje é das idéias dessa gente que nós sobrevivemos. Devo ser mais chato ainda, pois há uma diferença entre "achar" e "pensar".

Achar qualquer um acha; pensar exige conhecimento! Uma das razões pelas quais tem sido possível fazer qualquer coisa nesse país, é que a primeira classe, a que me referi, sabe bem que a maioria das pessoas vive de "achar", isto é , ninguém "pensa".

"Eu acho isso, eu acho aquilo", é só o que se ouve. Quando alguém pressiona por um pouco mais de fundamento, pronto, virou um chato!

Somemos ao que disse a turminha citada, esses parágrafos:

"Toda a organização social se concretiza através da formação da tessitura de inter-relações humanas, o que é viabilizado pela objetivação de valores, ideais e pensamentos através da linguagem, da comunicação.

Como a existência do homem, que ocorre nesse espaço social, encontra-se originalmente vinculado a uma escassez de bens em face das necessidades que se apresentam, a conseqüência é o surgimento de conflitos, vivendo a liberdade humana o paradoxo de ter que se limitar para poder existir (1). Tal fato somente se torna possível através da deliberação e do acordo acerca dos valores envolvidos.

O resultado desse processo é um conjunto de noções éticas que pressupõem uma idéia de correção na opção do agir em face dos fins eleitos (de forma apriorística o convício social), sendo essa possibilidade de escolha ponto distintivo entre os homens e os demais animais que se encontram manietados ao instinto. Ao complexo desses padrões podemos denominar, num sentido bem largo, de moralidade.

Moral, ético, portanto, é o que não infringe os valores reinantes em um determinado contexto social e histórico, é o que não vai de encontro ao senso comum arraigado no corpo social. Nisso, a atividade humana rege-se, num primeiro e geral momento, por este sentido de moral, que é histórico: o que é de acordo com a moral em um determinado momento poderá não sê-lo em outro." (apesar de um texto essencialmente jurídico, relembra conceitos importantes. Autor: Lino Osvaldo Serra Sousa Segundo. Aqui)

Vão pensando, vão pensando... Ou, quem quiser, que continue achando...

Imagem do Rousseau, via Wikipedia

6 Comments

Sobre merecimentos e valores, entendi perfeitamente o seu comentário. Mas não fechei a questão em definitivo, ainda estou tentando achar menos e pensar mais a respeito. Em outras palavras, o que eu disse no post é mais uma idéia que "está" do que "é". Continuo aguardando seus posts para me embasar melhor! :-)

Acho que és chato mesmo! Rapaz, que dureza! É por isso que nosso povo é tão manipulável. O discurso do poder é ininteligível até mesmo para os próprios governantes. Agora, cá pra nós, exercitar o conhecimento é tarefa dfícil. O achismo é muito mais conveniente.
abraço, garoto

Filosofar é isso: buscar o conhecimento, desejá-lo,cortejá-lo, no cotidiano e não nas núvens. O Filósofo pode é "chato" exatamente porque questiona a mesmice, a repetição, o mimetismo... até quando "dogmatiza" (exagero que derruba qualquer teoria filosófica) pode fazer-nos pensar por mobilizar resistência e rupturas. Pois seus últimos posts provocam isto: fazer pensar e, para seus leitores, fazer falar na caixa de comentários. Assim crescemos.

Eu acho que você é ótimo! E esse tio do Renato Russo acertou na batata com a história da moral histórica. Continue, por favor.

Caro Don Afonso,
folgo em encontrá-lo lépido e fagueiro a citar JJ.Rousseau. Sinal de vida, sempre bom. Preocupei-me com os amigos do sul, ontem.
Nesses tempos em que usa-se a palavra ÉTICA desmesuradamente, é muito bom que nos debrucemos sim, sobre o que disseram os pensadores. Sócrates, Platão, Rousseau, Kant e demais, antes que ultrapassados, são mais que necessários.
Tristes tempos em que filósofos são considerados chatos. Chata e vazia é a vida sem valores e princípios.
Grande abraço, tchê!

DOM aFONSO, QUE AULA...
Começando do final, é por isso que temos entre os principios basilares do direito , os usos e costumes e a analogia.
então lhe pergunto: - como fazer valer tais principios quando os usos e costumes descambam ??/ que analogia há para se fazer? então, dá-se a anarquia? nem isso...é o caos total.
Mas , sou renitente... sempre acredito.
vou citar alguem aqui, pode?

"Kant encarna a razão ilustrada. Expressa com clareza e exactidão o carácter autónomo da razão tal como a concebem os iluministas. O iluminismo é o facto que leva o homem a deixar a menoridade; menoridade de que ele mesmo é culpado. A referida menoridade consiste na incapacidade para se servir do próprio entendimento sem a direcção de outro. A própria pessoa é culpada dessa menoridade se a causa da mesma não reside num defeito do entendimento, mas na falta de ânimo e de decisão para se servir dele com independência, sem a condução de outro. Sapere aude, «atreve-te a servir-te do teu próprio entendimento»: tal é a divisa do iluminismo"

Por tudo isso??? Por que sou renitente e acredito, combinado????
beijos

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on julho 19, 2007 12:19 AM.

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