Cidadania sustentável - III: A vida pode acabar num simples pouso...

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Pois é,


Crudelitas (crueldade), Proditio (traição) e Fraus (maldade).
Detalhe do quadro Alegoria do Mau Governo. Ambrogio Lorenzetti (c. 1290-c. 1348).

Inevitável pensar na fragilidade da vida, diante de fatalidades como esses acidentes de avião. Deveria ser inevitável diante de qualquer dos outros milhares de mortes que acontecem no trânsito, nos homicídios, pelas doenças e, mesmo, para acidentes de avião em outros países. Mas para essas estamos amortecidos e tão pouco são manchetes vendáveis.

Ontem morreu o T@ninho. Que Deus o tenha, como ser humano, e que o Diabo o receba pela vida pública que teve. Fez, pintou e bordou nesse país por mais de 50 anos. Pra quê? Morreu como morre qualquer indigente por aí: sozinho. Sem carregar nada do que angariou a vida toda. E não foi pouco. Sua vida, certamente, foi causa da morte de milhares de pessoas. Terá pensado nisso nos derradeiros segundos de consciência? Terá pensado na inutilidade que foi sua vida?

Terão pensado na vida os passageiros deste último acidente, quando perceberam - e não teria como não perceber - que estavam prestes a saltar dessa para outra e não apenas sobre a avenida? Terão deixado para fazer isso somente naqueles últimos segundos antes do choque com o prédio?

Infelizmente fomos aculturados para isso. Ensinados para isso. Deixar para pensar na vida somente após a morte. Afinal, Deus está aí para nos salvar. Alá nos receberá e nos dará setenta virgens. Esse é um valor que nos diz: faça o que bem entender nessa vida, pois somente daremos explicações ao todo poderoso. E ele é tão bom, que nos manda para outra sem que tenhamos lembrança do que fizemos nas passadas. A questão se resolve apenas pelo tempo, isto é, pelo número de reencarnações que teremos para saldar a dívida. Mas sempre saldaremos. Os mais apressadinhos pagam numa e viram santos. Assim não precisam mais voltar.

E sempre, e acima de tudo, resta a dúvida que alimenta a todos nós (acho que mesmo o Papa deve ter essa duvida): e se essa história de Deus for realmente historinha pra boi dormir? Afinal, de verdade mesmo, ele nunca apareceu pra ninguém e tão pouco quem foi lá voltou para contar se ele existe. Então, pelo sim, pelo não, vou dirigir minha vida pelo meu umbigo.

Recuperamos, finalmente, após séculos de tentativas de demonstrar que o ser humano é bom por natureza, nosso maior valor: a maldade.

Maldade é o agir deliberado no sentido de destruir. Isso nos diferencia do resto dos animais (à exceção dos primatas, parentes próximos): eles destroem apenas o necessário para sobreviver e não o fazem de forma deliberada. O que distingue a maldade de outros atos humanos é justamente ser esta deliberada, consciente.

Para controlar essa natureza, os seres humanos desenvolveram, também de forma deliberada, um conjunto de regras, as quais deu-se o nome genéirco de "valores". Até agora, tudo conhecido de todos. Não digo nada de novo. Apenas ressalto que esses valores são artificiais, criados por necessidade. Não pertencem a natureza humana.

"Ama teu próximo como a ti mesmo" é uma regra artificial que contraria a regra fundamental da natureza humana: "destrói teu próximo antes que ele te destrua!"

O que está acontecendo nos dias de hoje? Nada mais, nada menos, que a prevalência da regra da natureza sobre a regra artificial.

Segue...

Imagem, via Google, daqui: http://www.ricardocosta.com/pub/lorenzetti.htm

Atualização 1:

Em vista do comentário do Cláudio Costa:

"Realmente o ser humano não nasce bom nem mau. Nasce bicho, simplesmente. Aí, em contato com a cultura e tendo um cérebro preparado para aprender rapidamente a linguagem, entra no mundo da cultura, que é o contraponto ao mundo "natural", da natureza. Aliás, educar, aculturar, é exatamente "retirar da natureza" (ex-ducera = conduzir para fora)."

atualizo o post com algumas considerações. Deliberadamente, meu caro Cláudio, evitei falar em "bom ou mal", adjetivos que são (a referência feita diz respeito ao pensamento reinante). Preferi referir-me aos atos humanos, às ações que realmente podem provocar alterações no mundo: bondade e maldade. E por uma razão muito simples: seres humanos, ditos maus, podem cometer bondades. Mas isso é pouco diante da maioria, dos ditos bons, que cometem maldades. Ser bom ou mau não importa; importa, sempre, o ato que cometemos, pois este é que causa efeitos nos outros seres humanos e na natureza.

Há que deixar bem claro, apesar de parecer didático e, portanto, chato, que bondade e maldade não têm nada a ver com ser bom ou mau.

A diferença é importante para a questão da cidadania (tema central dessa série de posts), pois esta, assim como a bondade e a maldade, é um agir humano, diferente do que muitos parecem estar pensando. Cidadania não é um estado, como bom ou mau, e, sim, um ato como maldade ou bondade. Mas já estou adiantando tema do próximo post...

Atualização 2

Apesar de parecer fora do tema, não é. E é notícia que dve ser alardeada:

"Macalão admite revenda de selos
Em depoimento espontâneo na madrugada de ontem à PF, o ex-diretor da Casa disse que faturava entre R$ 2,5 mil e R$ 3 mil por semana
ADRIANA IRION

Ubir@jara Ama@ral Mac@lão, ex-diretor do Departamento de Serviços Administrativos da Assembléia Legislativa, confessou à Polícia Federal que revendia selos comprados com verba da Casa. Também admitiu ter enterrado no pátio da casa da praia, há uma semana, os 232,7 mil selos encontrados pela PF durante buscas na quinta-feira em Rainha do Mar, balneário pertencente a Xangri-lá.

Mac@lão, que recebia salário em torno de R$ 17 mil da Assembléia, faturava entre R$ 2,5 mil e R$ 3 mil por semana com a revenda de selos.

O dinheiro, segundo ele, era convertido em dólares. Os selos, afirmou, eram revendidos a terceiros a R$ 0,16 abaixo do preço de mercado. O esquema de revenda estaria ocorrendo desde 2005. A confissão ocorreu na madrugada de sexta-feira, quando Mac@lão compareceu de forma espontânea à sede da PF, horas depois de ter avisado que só voltaria a falar em juízo." (daqui: http://www.clicrbs.com.br/

O que explica alguém que ganha R$17mil fazer isso?

10 Comments

Não julgo a natureza humana porque ela se molda conforme as nossas experiências, como sabiamente disse o Cláudio. A criança torna-se adolescente quando toma consciência de sim mesma e o adolescente torna-se adulto quando toma consciência da humanidade.
Esses mauzinhos espalhados por aí, são crianças birrentas.
Toda a psicologia dinâmica moderna e todo o Evangelho nos afirmam que há duas grandes forças opostas que solicitam o homem:
- uma força de expansão e de relação que se chama "Amor", e que impele o homem a sair de si para construir comunidades desde a família até a humanidade;
- uma força de regressão e de isolamento que se chama "egoísmo" e que impele ao fechamento sobre si, na falaciosa e eterna ilusão de uma realização. Corriqueiramente, vemos os povos correndo atrás do dinheiro. E toda a maldade do mundo se concentra em ter mais, possuir mais.
E por vezes, a sensibilidade inquieta esse homem egoista e ele pensa mesmo que está sendo tocado por "Deus".
A sensibilidade e inteligência devem ser duas amigas que caminham juntas, para proporcionar-se reciprocamente a profundidade e a retidão que lhes faltariam se trabalhassem sozinhas. O mauzinho não trabalha essas duas capacidades juntas.
Sobre a pessoa ser boa ou má, ou ser as duas coisas, há uma única diferença; em como ela consegue desconfiar da sensibilidade que sente. E se brutalizá-la, ela passará a agir clandestinamente, mas não renunciará a ação.

Afonso, poderia falar muito sobre esse seu post, mas estou fazendo as malas. Corrija-me se estiver errada. Até breve! Beijus, Luma

Essa história toda me motivou a refletir sobre nosso sofrimento egoísta diante da morte (dos outros). Falei sobre lá no blog.

Esse negócio todo é muita filosofia ... mas é bom pra caramba pensar nisso.

Grande abraço.

dom afonso, essa cronica foi a Aninha , filha do Claudio quem me enviou ontem... acho que tem tudo a ver com seu post...è do Afonso Romano....Espero que vc não fique bravo....ela é um pouco longa,mas vale a pena ler...
Um abração!

"guerra dos maus e dos bons"

"O bem não pode, não deve, está eticamente impedido de usar as armas do mal. Se o bem usar as armas do mal, transforma-se em mal"
santanna@novanet.com.br


Por que será que o mal vence (ou parece vencer) o bem?

Se o bem é tão bom, por que o mal, que é mau, vive acuando o bem?

Se o bem causa prazer e o mal causa dor, ansiedade, pânico, horror e morte, por que os seres humanos não derrotam o mal com o bem?

Lembro-me de ter lido, há muito, um texto de Bertrand Russel sobre o mal que os bons fazem. Era algo intrigante e me assustei quando li isso a primeira vez. Então, alguém com as melhores intenções pode desencadear dramas e tragédias? O inferno está mesmo cheio de boas intenções?

Quando foi que o bem ganhou uma guerra?

Essa já é uma pergunta insidiosa, pois quem se mete numa guerra para lutar tem que sangrar e matar, e isso é o mal em sua forma mais dura. Foi assim nas Cruzadas, foi assim na Inquisição, foi assim nas guerras de independência, foi assim nos conflitos contra o nazismo e outros totalitarismos. O guerrilheiro vem com aquele papo de Guevara, de que tem que matar sem perder a ternura; tem gente que acha isso bonito, desde que seja ele a exercer essa "ternura" sobre outros.

Sim, tem o caso de Gandhi, que moveu guerra pacífica contra o violento e opressor império britânico e ganhou. Isso nos dá algum alento. Mas por que será que o mal vence (ou parece vencer), como atestam diariamente os jornais?

Cabisbaixo, sussurro para mim mesmo: essa é uma luta desigual.

É aí a raiz do problema. A luta entre bem e mal é uma luta desigual, repito. O bem não pode, não deve, está eticamente impedido de usar as armas do mal. Se o bem usar as armas do mal, transforma-se em mal. Sim, há o caso da "legítima defesa", a hora em que o instinto de vida se sobrepõe ao instinto de morte. Isso tanto no plano pessoal quanto nas guerras de resistência. Mas, aí, o mal e o bem de novo se misturaram.

E como se misturam! Então, não há uma porção de registros históricos da luta entre o bem e o bem? Um bem que se julga mais bem que o outro bem e que se julga tão mais bem que o outro bem que, para ele, o outro bem é o mal.

Salomão asseverou e Freud confirmou: "O homem é mau desde a sua meninice". Que fazer? Ambos eram sábios. E nós?

Há males que vêm para o bem? Há. Dizem. Então, nesse caso o mal é um bem, logo o mal não é tão mau assim.

Posso combater o mal só com as armas do bem?

Se subirmos os morros e conversarmos franciscanamente com o tráfico, como vai ser? Talvez facilite se eu subir o morro levando saúde, escolas, moradia e outras formas de bem. Acredito até que a maioria da população agradeça, feliz, e volte a acreditar no bem. Mas haverá sempre alguém, um núcleo que faz do mal o seu modo de vida. Talvez não somente porque tais pessoas são de natureza perversa, mas porque o mal produz resultados mais rápidos. Na corrida entre o bem e o mal, o bem é a tartaruga e o mal é Aquiles. Mas, quem sabe, há alguma esperança, já que na Grécia um filósofo andou dizendo que Aquiles não alcançará jamais a tartaruga...

É uma aposta ou um simples paradoxo de Zenão?

O que é o mal para mim é o mal para você? Bem ou mal, somos todos bons e maus.

Bem, não sei se fiz bem em começar este texto. E como não há mal que sempre dure, fico por aqui.

Ainda bem.

"Se Deus existe? Claro que existe. Fomos nós quem o inventamos, mas que ele existe, ele existe". (um personagem de João Ubaldo Ribeiro).

cada dia que envelheço, menos entendo. Acho isso bom e às vezes apavorante. ;-)

bjs.

Gosto de acreditar em Deus e em reencarnação porque me parece mais lógico. Mas não acho imprescindível nem uma coisa nem outra para justificar (ou não) meu comportamento nesta vida. Por isso mesmo eu volta e meia me pego a pensar: que diabos estou fazendo com meus anos? Sobre-vivendo. Parece pouco.

Dom afonso...
nada mudou de terça feira para o dia de hoje.
ninguem descobriu que voltou a ser bom ou a ser mau.
acredito na falta de limites, logo, acredito em rousseau...
sem contradições, meras confirmações.
e dai?
o cara faz chap, chap, chap na tv, pede desculpas por escrito, eu compro passagem para minha filha ir para a frança na TAM, e vamos vivendo...
é cool...
o mundo é cool, é metrosexual, é minimalista...
freud diz que devemos nos esforçar para sermos bom?
ah...eu sou boa por natureza...
toninho malvadeza( é com z ou com s?)
no dia que esse cara apoiou o tancredo, deixei de respeitá-lo como um bom inimigo...passou a ser mais um cretino e não demorou pra demonstrar isso...
que deus o tenha, porque Deus existe...
sartre teve que acreditar, pois pensava nisso cada vez que a simone trocava as fraldas dele...
adoro suas filosofias. parece que estou fazendo mais um trabalho pro welber, meu professor de antropologia , anos atrás....
vou procurar meu livro do fucô...rsss
abraços

Continuas a filosofar, no bom sentido! Realmente o ser humano não nasce bom nem mau. Nasce bicho, simplesmente. Aí, em contato com a cultura e tendo um cérebro preparado para aprender rapidamente a linguagem, entra no mundo da cultura, que é o contraponto ao mundo "natural", da natureza. Aliás, educar, aculturar, é exatamente "retirar da natureza" (ex-ducera = conduzir para fora).
É claro que, na hora do vamos ver, a natureza grita e se impõe. Cabe lutar constante e firmemente "contra natura", esforçar-se para ser bom, como diz Freud. Esforçar-se? ora... deixa pra depois.

Não me imagino sem crença, sem fé em algo maior, que possa explicar tantas diferenças...

Agora...
1) O capeta alegre com o cara?? Ele está é apavorado porque sabe que o cara vai querer seu lugar. O de chefe!

2) Se eu morrer antes de você, se prepara! Venho te falar como é do outro lado. hahahahahahahaha

Beijos

Afonso, eu não saberia o que fazer da vida se algum dia eu descobrir que Deus não existe. Prefiro continuar como sou, ainda que eu busque respostas para certas inquietações minhas.
Beijocas

Don Afonso,
salutar introspecção a que vc propõe. Busca-te a tí mesmo, diz o aforismo.
De onde vim, para onde vamos?
Muitas perguntas que só são respondidas no decorrer de nossa existência. Algumas levamos conosco para o desconhecido, que é para onde marchamos relutantes ou não.
Continuo a minha busca, solitária.
Boa busca prá tí.
Grande abraço

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on julho 21, 2007 12:05 AM.

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