Pois é,
A Roberta Malta ganhou de presente uns mimos aqui da terrinha pampeana. Junto, algumas instruções sobre como preparar essa que é a bebida símbolo do gaúcho e que tanta estranheza causa nos demais povos.
Este Chato que vos escreve, no entanto, e no uso das suas atribuições de melhor representante do gênero, resolveu dar uns pitacos no blog da moça e acabou por dexá-la ainda mais confusa. Como o Chato pode ser qualquer coisa, menos um causador de males pra outros viventes, resolveu escrever aqui o "Verdadeiro e Único Manual Ilustrado e Poético do Chato para Iniciantes no Chimarrão", que por hora dou a público, para deleite de tantos quantos queiram experimentar a "velha infusão gauchesca".
I - Introdução
Manual que se preze tem que ter introdução. Pois este também tem.
Chimarrão não é coisa que se estude desgarrada das tradições. Tomar chimarrão não é como beber um cafezinho, que se faz rapidinho numa esquina de balcão. Requer certa reverência. E pra começar, então, há que se ler Jayme Caetano Braun, como forma de preparar o espírito para a aventura:
"AMARGO!
Velha infusão gauchesca
De topete levantado
O porongo requeimado
Que te serve de vazilha
Tem o feitio da coxilha
Por onde o guasca domina,
E esse gosto de resina
Que não é amargo nem doce
É o beijo que desgarrou-se
Dos lábios de alguma china!
A velha bomba prateada
Que atrás do cerro desponta
Como uma lança de ponta
Encravada no repecho
Assim jogada ao deleixo
Até parece que espera
O retorno de algum cuera
Esparramado do bando
Que decerto anda peleando
Nalgum rincão de tapera!
Velho mate-chimarrão
Ás vezes quando te chupo
Eu sinto que me engarupo
Bem sobre a anca da história,
E repassando a memória
Vejo tropilhas de um pêlo
Selvagens em atropelo
Entreverados na orgia
Dos passes de bruxaria
Quando o feiticeiro inculto
Rezava o primeiro culto
Da pampeana liturgia!
Nessa lagoa parada
Cheia de paus e espuma
Vão cruzando uma, por uma,
Antepassadas visões
Fandangos e marcações
Entreveros e bochinchos
Clarinadas e relinchos
Por descampados e grotas,
E quando tu te alvorotas
No teu rancor anunciador
Escuto ao longe o rumor
De uma cordeona floreando
E o vento norte assobiando
Nos flecos do tirador!
Sangue verde do meu pago
Quando o teu gosto me invade
Eu sinto necessidade
De ver céu e campo aberto
É algum mistério por certo
Que arrebentando maneias
Te faz corcovear nas veias
Como se o sangue encarnado
Verde tivesse voltado
Do curador das peleias!
Gaudéria essência charrua
Do Rio Grande primitivo
Chupo mais um pra o estrivo
E campo a fora me largo,
Levando o teu gosto amargo
Gravado em todo o meu ser,
E um dia quando morrer,
Deus me conceda esta graça
De expirar entre a fumaça
Do meu chimarrão querido
Porque então irei ungido
Com água benta da raça!!!"
Bueno, bueno, vivente. Se não terminaste a leitura arrepiado é pouco provável que gostes do chimarrão. Em todos os causos, vamos aos preparativos.
II - A cuia
Pra quem tá começando de cuia nova é muito importante prepará-la antes de começar a tomar chimarrão. E te segura que ainda vais ficar uns dois dias sem poder tomar. E por quê? Porque é um bom tempo pra deixar a cuia no ponto, curada, como se diz por aqui.
- Tá, Chato! Ninguém me disse isso e eu já saí tomando. Como é que eu faço para preparar a cuia?
- Olha, tchê, tomar até que dá, mas se preparar antes, teus mates ficarão supimpas! Vamos lá. Enche a cuia de erva (não precisa ser até a borda) e coloca água quente até a erva ficar bem molhada. Deixa assim por uns dois dias, colocando mais água de quando em vez, só pra manter a umidade.
Isso faz com que as paredes da cuia absorvam o mate e ela (a cuia, vivente) fique curtida. Depois, retira a erva e lava a cuia com água quente e deixa secar, antes de preparar o teu primeiro chimarrão. Só assim poderás sentir...
"Cuia morena queimada
confeccionada a lo bruto,
rude cálice matuto
de amarguentas comunhões;
na tradição campechana
serves o vinho que irmana
dono de estância e peões.
Velho utensilho crioulo
da utilidade nativa,
que misturando saliva
no ritual dos chimarrões,
estarrece gente estranha
que não sabe que a campanha
não conhece convenções.
Quando em teu bojo recebes
a erva pro chimarrão,
e da tua carnação
verde o sangue se desata,
me entristeço, imaginando,
que és um coração sangrando
por uma artéria de prata!"1
Te arrepiaste de novo? Viste pra que serve preparar a cuia? Outra coisa: existem tantas formas de cuias quantas são as estrelas do céu. O Chato prefere cuias tipo essa da foto. Cada uma prepara um tipo diferente de chimarrão.
E vamos pro mais importante, que é a erva. Afinal, se faltar cuia até em copo se faz.
III - A erva
Olha aqui o vivente, se tu chegou aqui procurando aquela outra erva, te arranca!
Já foi? Bueno, então continuamos...
A erva-mate, ou ervateira, é a planta (árvore) de onde sai a erva pro chimarrão. Tu imaginavas o quê, o bagual? Que era de um pezinho de verde qualquer? Toma tento, tchê, pois o Chato sabe ser
"... duro sem ser maleva,
quem me pisa o troco leva
e às vezes mais da quantia.
Respeito farda e batina,
criança e choro de china,
Jesus e a Virgem Maria.
Prezo muito a liberdade,
sou sacudido e mui macho!
Pra china nunca me agacho,
isto nunca aconteceu!
Fui assim desde menino:
- em mim quem manda é o destino,
nelas quem manda sou eu!"2
Agora sim ficaste arrepiada! Confessa!
Existem, basicamente, dois tipos de erva pra chimarrão: a pura folha e a barbaquá. A pura folha, como o nome já diz, é feita apenas com a folha da ervateira. A barbaquá aproveita os talos, também chamados de "pauzinhos" da erva. Cada uma produz um tipo de chimarrão; e cada uma exige uma técnica diferente para o seu preparo. Entre elas há modelitos também, dependendo do tipo de trituração utilizado na fabricação.
Meu conselho, e esse vai de graça, é experimentar todos os tipos e marcas, até descobrir qual o mais adequado pro gosto. O Chato, em casa, só toma a pura folha. Há ervas fortes e fracas. As puras folhas com trituração mais "fina" são mais suaves que as de trituração "grossa". As barbaquá de pó "fino" são mais faceis de entupir a bomba que as de pó "grosso".
- Pára de reclamar e experimenta, ora!
E por falar em experimentar, vou lá tomar meu chimarrão. Continuamos na terça-feira.
1. Cuia. Aparício Silva Rillo.
2. Trechos de Gaudério. Aparício Silva Rillo.









































Prezado Senhor,
Há mais de 5 anos que tento encontrar a poesia , da qual eu só lembrava um verso "sou duro sem ser maleva....". Mais não sabia, nem mesmo o autor. Hoje mais uma vez tentando na internet, apareceu seu blog que me deu a direção a seguir "Gaúdério" do Aparicio Silva Rillo.)
Melhor que isso, somente se o senhor se dispor a postá-la na integra´.
Atenciosamente
Gelmir Reche
Bom dia Afonso,
estou impressionada! Pensei que a cerimónia do chã japonesa fosse única no mundo, para descobrir agora que afinal tem rival! Kakakaka...
Boa semana!
Bjs.
Fernanda, e bota rival nisso, hehehe bjs
O livro "Cevando Mate", material de brinde/propaganda do antigo Banco Habitasul é um aita manual para as lides do mate. Mostra origem, explica os aveios e, principalmente, ensina a cevar o um mate.
Como o Chato gosta de ir e vir pelo RS, gostaria de indicar o paradouro junto a fábrica de Erva Mate Elacy, no município de Venâncio Aires. Na beira da estrada um recanto para compra de erva recem embalada. Com direito a visita na fábrica. Até pouco tempo atrás o atendimento era dado por um clone do Paixão Cortes, identico, daqueles que tu imagina que é um irm~]ao gêmeo roubado na maternidade, mas não há vinculos familiares.
Sugiro a compra da Elacy Premium, R$ 2,90 o pacote.
Tem erva melhor, especialmente algumas caseirsa orgânicas, mas esta comercial é das minhas preferidas.
PS>: Sugiro uma troca de livros: Rede(WWA) X o de restauração de livros. Só precisamos marcar data e local.
Muito já estive por ali, meu caro, nas minhas idas a Venâncio. Na próxima sexta devo passar ali por perto, pois vou a Taquari. Quanto aos livros, o REDES eu já baixei. Trabalho no centro. É só dizer o dia e a hora. abs
Bah! mas foste ao âmago. Gosto de textos assim. Completinhos, detalhados e com poesias. Hey gaúcho da fronteira só na terça?
Enquanto isso vou de cafezinho mesmo.
Sente o aroma. Vai dizer?
Abraço forte
Taí um dos "vícios" que não tenho: cafezinho. O chimarrão já tem cafeína de sobra, hehehe abs
Não acredito q vc parou no auge??? Tava acompanhando tão bem!!
Eu gostei da sem talinhos e mais suave. Mas eu preciso saber como se prepara, pelamordedeus!!
Eu ganhei tb um filtro pra cuia, mas as meninas disseram q gaúcho macho não usa aquilo. beijo. Continua logo!
Roberta, esse é o tempo que vais levar curtindo a tua cuia, se é que estás seguindo, hehehe Vou falar do filtro, não te preocupa! bjs
Só vou saber na terça?? Ahhh...
Chimarrão e paciÊncia andam juntos, heheh abs