88 - Chimarrão II

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Pois é,

Seguimos com nosso "Verdadeiro e Único Manual Ilustrado e Poético do Chato para Iniciantes no Chimarrão".

Se o vivente seguiu direitinho as instruções para curtir a cuia, deve estar pronto para começar a preparar seu primeiro chimarrão. Um "antes, porém," - porque, afinal, eu sou Chato e Chato que se preze, e eu me prezo, não é Chato se não escrever um "antes, porém," - antes, porém, o vivente deve levar em conta o seguinte: preparar um chimarrão é um ritual e, como todo ritual, requer paciência e crença. E por falar em crença:

"A ORAÇÃO DO POSTEIRO1

De tarde... Boleio a perma
e maneio o redomão,
- no portão do cemitério,
(Tauras... Santas... e gaudérios...
tudo em baixo deste chão!)
- É aqui... A cruz... Pé de flor...
Me ajoelho... E, a voz num temblor,
rezo uma pobre oração:

Mãe-velha! Aqui está o teu piá,
meio estropiado do mundo!
Com o meu recuerdo mais fundo
te juro por esta luz:
- Mãe-velha! pela saudade
da tua antiga bondade,
eu vim te ver na cruz.

Tua benção venho buscar
para os vareios da vida.
Trago espichada e estendida
minha esperança de pobre.
Com medo que ela arrebente,
venho te ver novamente
sobre este chão que te encobre.

Mãe-velha! Não fui maleva!
Eu nunca te contrariei.
E, se um dia te magoei,
logo pedi o teu perdão!
Como quando tu vivias,
no meu jardim de alegrias
derrama teu coração.

Escuta! Santa Mãe-velha:
- Pede a Deus junto de ti,
que, a estes teus netos-guris
faça uns gaúchos de alma reta
na conduta sem desmancho.
E à neta... orgulho do rancho!
(porque inté é linda a tua neta.)

Me ajuda a ver se dou jeito
que eles aprendam a ler,
para o mundo compreender,
sem gritos, ralhos, nem relhos.
Por mim ensino o que posso:
- já les dei o Padre-Nosso
e um pouco de teus conselhos.

Que eles, sendo moços feitos,
se por outros pagos cruzem,
buenos e leais, não abusem
da força que os tauras têm.
Faa, que o destino confirme,
tua neta - a gauchita firme!
que nunca engane a ninguém.

E se um dia estale a guerra,
que encarem o sol de frente!
com essa bondade valente
que, Mãe-velha, de ti.
e honrem a marca da herança
dos que empunharam com a lança
esta fronteira até aqui!

Que a mãe deles seja sempre
a boa e fiel companheira
a quem pobreza e canseira
é um galardão de Jesús.
Quando a encontrei (comparando...)
fui como um cego sarando!
- bobo de encontro com a luz.

Que eu tenha força nos braços,
coragem no coração,
para agüentar o tirão,
e a minha gente conduzir.
E me dê sorte e bom vento
para eu ganhar o sustento
e os trapos para eles vestir.

Que a saúde não me deixe!
para eu criar a ninhada
sem andar esparramada
como filhos de avestruz.
E com partões mais humanos
possa eu viver muitos anos
para enfeitar a tua cruz!

Bueno... Mãe-velha... Vou indo...
E ao tranco... Tenho a alma inteira
presa na estrela boieira,
que me olha, no céu parada,
também tão longe e solita...
- Como se o olhar da velhita
me acompanhasse na estrada!"

Chorou? Não? Pois devia. Eu choro cada vez que leio ou escuto.

O vivente não vai à missa todo domingo e fica lá por uma hora sem reclamar? Pois então! Aqui é a mesma coisa.O vivente não toma vinho e fica cheio de frescura tentando "sentir" os aromas e sabores que o vinho tem? Pois então! Aqui é a mesma coisa. Chimarrão tem aromas e sabores também. E para sentí-los, há que despertá-los.

IV - A Cevadura

A cevadura (favor não confundir com picadura ou com cerveja congelada) é o segredo que nos permite extrair da erva todos os aromas e sabores que ela contém. Pra dizer a verdade, o chimarrão depende de uma boa cevadura. Por sinal, trate bem a erva, pois sua árvore é símbolo oficial do Estado do Rio Grande do Sul (Lei 7.439/80).

Cevar é engordar. Cevar o porco é engordá-lo. Porco cevado é porco gordo, no ponto para o abate! O mesmo se dá com a erva: erva pronta pra ser tomada é erva "gorda", cevada. No caso, "inchada".

A cevadura compreende três etapas (olha nas fotos. E olha mesmo, vivente, pois deu um enorme trabalhão tirar essas fotos sozinho...):

1. despeja erva na cuia até atingir a "dobra", ou "pescoço". Para quem tem cuia "reta", mede algo como dois terços da cuia (e não me pergunta se a cuia está dois terços cheia ou um terço vazia. Isso é falta de joelhaço!). Dependendo do lado que o vivente estiver olhando, bota erva até dois dedos antes da borda.

(um parênteses, porque Chato que é Chato sempre faz parênteses: a "regra dos dois dedos" é universal, vale pra tudo: pra fazer arroz, pra esquentar a mulher...)

Continuando...

2. Agora é que são elas, como dizem por aí! Vamos formar o "morrinho", a "coxilha". E vamos deixar de frescura! Bota a mão direto. Sem essa de pegar uma "latinha", uma "tampa" (tem gente que usa "bolacha de chopp" pra isso). Vai virando a cuia enquanto forma a mão em concha e coloca sobre a cuia. Vai virando a cuia e sacudindo devagarzito até que comece a formar um "montinho" na tua mão. (diriam os cientistas que deves fazer isso até que a cuia esteja a 90° em relação à perpendicular, isto é ao Zênite. Ainda bem que cientista quando toma chimarrão esquece que é um...) Sinta a erva na mão. Faça com que ela se conforme a ti. Depois, tira a mão. Um pouco sempre cai. Põe de volta na cuia com todo cuidado.

É a tua mão que será passada "de mão em mão". A lo más, terás o prazer de ver que o morrinho ficou como tu querias e não com a cara de uma bolacha. Reto que nem defunto em caixão!

Olha só que bonito que fica:

Por isso que usar outros "materiais" é frescura. Coisa de gente que diz: "ai, sujou minha mão!". Larga de ser fresco(a) e passa uma água na mão depois.

Feito isso, vais observar que apareceu um "buraco" dentro da cuia. Tá fazendo o quê, que ainda não botou água nele? Tá perdendo tempo me lendo? Ainda bem que estás lendo, pois senão estarias fazendo besteira!

3. A água. Motivo da terceira guerra mundial, dizem por aí. Tás a ver como esse item é importante, bagual! Aqui temos a Alquimia, tão sonhada pelos nerds da Idade Média. Os quatro elementos se unem para te dar a essência da vida:

o fogo que aquece a água; a água quente que molha a terra; e, juntos - fogo, água e terra -, exalam o aroma.

Tomar chimarrão é se entreverar com a natureza. (anota essa. Um dia vai ser famosa e sair na "Caras". Pode ser reproduzida desde que citado o autor).

Atenção!

Existem três tipos de água: fria, morna e quente. A água quente está para o chimarrão assim como a era industrial está para a natureza: destrói! NUNCA UTILIZE ÁGUA QUENTE PARA CEVAR O CHIMARRÃO!'

Utilize apenas água fria ou morna. A diferença está no amargo. A água fria produz um chimarrão mais forte, mais amargo. Em compensação, dura mais. A água morna produz um chimarrão mais suave ao paladar, principalmente das moçoilas e chinocas e de alguns guapos ainda não acostumados...

Com a cuia ainda inclinada, despeja a água até que ela atinja a borda do morrinho.

Pára! Pára! Assim vai derramar! Calma, tchê! Vai devagar, sentindo o aroma que se despreende.

(Pode ocorrer, nesse momento, um fenômeno:: ao colocar a água, ela começa a "vazar" por baixo do morrinho. Isso se deve a dois fatores, que podem atuar separados ou concomitantemente: a qualidade da erva e à rapidez com que a água é colocada. Para evitar quaisquer dos dois, é bom colocar a água bem devagarzinho...)

Apoia a cuia no avio próprio e espera de três a cinco minutos, que é o tempo que a erva vai levar pra "chupar" essa água e "inchar", isto é, cevar, ficar "gorda".

E, bueno, amanhã continuamos com outra etapa: como colocar a bomba. Não percam essa, pois não há pior coisa do que chimarrão entupido porque o guasca não soube colocar a bomba. De mais a mais, tô subindo pra Caxias do Sul. Vou fazer uma mateada com os gringos.

1. Poesia de Aureliano de Figueiredo Pinto.

5 Comments

Afonso de Deus, nunca vou aprender a fazer isso assim!!É muito difícil!!!Tô me sentindo uma negação como pretensa gaúcha. Também não vou a igreja aos domingos...

Bom, mas chorei com a oração. Acha q eu tenho alguma chance? Sou nova, ainda posso evoluir...

Roberta, fica tranqüila. É apenas uma questão de prática. Só não pode desistir. Os primeiros saem errado. Com o tempo vais pegando o jeitinho. bjs

E a cevadura com cachaça?
Tem uma regra que é bem chata, sempre tem gente mais chata que o chato.
Seguidamente cevo o mate com aguardente. Não embebeda pois a água quente a seguir volatiliza o alcool. Vale a pena provar.
Explicações científicas? Tem, mas antes disto melhor experimentar.

Tchê, conheço a cevadura com cachaça, mas esse é "um curso básico". Essa aí eu tava deixando pro mestrado, hehehe abs

Ah, então dá pra tomar o trem frio? Pensava que era quente, que nem chazinho... :-) E lá vou eu procurar "avio" no dicionário...

Edu, não, não dá pra tomar frio. Chimarrão é quente. Não confundir a água para cevar com a água para tomar. "Chimarrão" frio é o que se chama de TERERÊ. Vou comentar sobre isso também. Avios são os apetrechos utilizados para tomar o chimarrão: a bomba, o suporte para a cuia, o termo (expressão gaúcha - da fronteira - para garrafa térmica), etc.abs

Afonso, eu já havia pedido para uma amiga blogueira aí dessas bandas me ensinar o preparo. Porém o meu chimarrão não fica bom; vem sempre aquele pózinho junto quando é puxado. Acho que a maneira de colocar a bomba e não poder deslocá-la! Vou esperar as suas explicações. Beijus

Luma, Depende da erva também. Nem sempre ter "pózinho" significa que está ruim. Aguarda, hehehe bjs

Don Afonso, concordo contigo: a regra dos dois dedos é realmente universal. Todos entendem ou deveriam. Agora esse negócio de queimar a língua ao tomar chimarrão, não está com nada. Falando assim, acho que vas pensar que sou afrescalhado e não é nada disso. Mas acho que deve ser só uma questão de técnica. Há quem tem alíngua sapecada ao tomar café também.
Bom, vou esperar para ver como se dá o entrevero com a bomba.
Abraço, tchê!

Valter, é mesmo ruim queimar a língua, seja com o que for... MAis ainda se lembrarmos que a língua é a parte do corpo humano que agüenta as mais altas temperaturas. abs

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on março 6, 2007 7:12 AM.

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