79 - Triste sina II

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Pois é,

As investigações iniciais apontavam para uma situação bastante grave quanto ao tratamento que era dado aos idosos do asilo. Denúncias, inclusive, de abuso sexual contra idosas incapacitadas e trabalho escravo, pois os próprios internos seriam obrigados a trabalhar nas plantações e com o gado sem que, para isso, tivessem a contrapartida financeira. Ao contrário, uma das denúncias era de que o benefício daqueles internos que recebiam da previdência era todo tomado pela instituição, sem que nada ficasse de posse das pessoas. O Estatuto do Idoso prevê que as instituições podem ficar com o máximo de 70%.

Diante de um quadro desses, formou-se uma equipe multidisciplinar composta por dez profissionais: 1 administrador, 1 médico clínico, 1 médico psiquiatra, 1 psicólogo, 2 enfermeiros, 2 assistentes sociais, 1 engenheiro sanitarista e 1 arquiteto. Cada um atuaria na especificidade da sua área. A mim, coube a análise das questões ligadas à gestão do asilo.

A visão que tivemos ao entrar no asilo começou a mudar nosso pré conceito. A área mais de acesso público é muito bem cuidada. Linda até, diria. O local é uma fazenda com seus quase 900 hectares. Mas não é disso que vou falar hoje e, sim, de um fato ocorrido na hora de ir embora.

Sexta-feira é dia de distribuição de erva-mate, fumo e balas para aqueles que não ganham (da familia ou da prefeitura da cidade que os mandou para lá) ou que não tem como comprar (muitos, por lá, são sustentados exclusivamente pelo asilo, segundo informação do Diretor). A distribuição incia por volta das 16:00h. Os velhinhos, no entanto, começam a chegar no local a partir das duas e meia, mais ou menos. Vi porque nessa hora estava lá conversando com o Diretor. Um por um, os velhinhos iam chegando, com suas latinhas e potes, e sentando nos bancos para esperar. Alguns fumando um palheiro, feito, talvez, com o último fumo que lhes restava naquela semana.

Conversa vai, conversa vem (na realidade, quase um interrogatório que eu fazia, como parte da investigação) e começamos a tomar chimarrão. Nisso se aproxima um velhinho numa cadeira de rodas (ele não tinha uma das pernas) e começa a falar em alemão como Diretor. Claro que não entendi patavinas, mas logo percebi o que ele queria: estava com uma fotografia antiga na mão e queria que eu visse. Assim que o Diretor traduziu, peguei a foto para olhar. Enquanto olhava o alemão falava e o Diretor ia traduzindo.

Resumindo: ele queria me mostrar a foto da família e que era uma foto do tempo em que ele ainda tinha as duas pernas. Ficamos ali, eu sentado na mureta, o Diretor em pé servindo o chimarrão e o velhinho com a foto, que vez por outra me alcançava e contava tudo de novo. Carregava sempre aquela foto, não importava onde fosse.

Logo, aproxima-se de nós uma - já não digo velhinha, pois não aparentava - senhora, com visíveis ares de demência, passando a mão na barriga como se estivesse grávida. Pediu que eu passasse a mão também. Passei. E ficamos os quatro ali, vendo a foto, a outra passando a mão na barriga e falando coisas evidentemente desconexas e o Diretor, servindo chimarrão para todos, numa bela roda de chimarrão, tal qual descrevi na série anterior.

Pois bem, chegada a hora de ir embora, fui para a van e sentei no banco da porta. Deixei aberta porque ainda faltava chegar um dos colegas. Foi quando a senhora da barriga veio correndo emminha direção e, de surpresa, pegou minha mão e começou a beijar. E dizia: obrigado, obrigado...

Um tanto quanto constrangido, peguei a mão dela e coloquei entre as minhas, apertando e fazendo sinal de despedida. O colega chegou e saimos.

Mesmo que com alguns problemas (de caráter mais organizacional do que que humanos), os velhinhos estão fisicamente amparados. Tem teto, comida, assistência médica, televisão, fumo, chimarrão, balas.

Mas não tiveram, quem sabe, o mais importante: o amparo de simples gestos por parte da família. A Fernanda fez um post (que eu recomendo a leitura), onde ela, lá pelas tantas, coloca:

"Poderia até ser que ele não me reconhecesse, não me visse, nem me ouvisse, nem me respondesse, mas quem garante que ele não iria sentir a minha mão a acariciar a dele? O meu beijo na testa?"

Abandonados como se fossem mais do que dementes; como se fossem além disso, insensíveis! E nos é cômodo, como diz a Fernanda, querer que as coisas sejam assim. Já somos assim com os "sãos" que nos rodeiam diariamente - e que muitas vezes apenas nos cobram um beijo, um toque - mais fácil ainda com quem pensamos que nada sente.

Aquela senhora mostrou que um simples beijo na mão pode ser a representação de toda uma carência de vida. E se ela deu, é porque certamente sente. O insensivel ali talvez fosse eu!

9 Comments

Olá Afonso,
você está a destruir a ideia do técnico frio e racional que eu tinha ( não a seu respeito mas sobre essa classe) e ainda bem!
Obrigada pelo link; parece que agora trocamos galhardetes regularmente, rsss.
Beijos!

hehehe, bonita palavra essa, galhardetes. Felizmente nem tudo que é técnico é necessariamente desprovido de amor e carinho. bjs

Afonso, penso num futuro próximo integrar um trabalho que faço com crianças à um projeto intitulado "Vovós de aluguel" estou caminhando pra isso. Quero realizar! Algo que as faça esquecer por alguns minutos dos filhos ingratos.

O cigarro e chimarrão anda lhe acalmando muito, isso atrapalha o tempo!
Não parou com o cigarro, né danado!

Beijus

Engraçado, por coincidência eu tenho um amigo cujo pai está num asilo na Bolívia e andei pensando sobre o assunto esses dias. Pensando o quanto a realidade dessas pessoas que, eu acho, poderia ser feliz , acaba sendo muito triste. Triste pela solidão,pelo abandono ou pelas condições muitas vezes precárias, como vc já disse. Mas será que um asilo não pode ser uma grande família de velhinhos, amigos, q vivem em paz? Eu quero ir pra um assim e tomar chimarrão com amiguinhos da minha idade. Você me visita?

é triste demais a condição humana, principalmente do idoso. Por quê?

Afonso, não tenho condições de comentar nada. Beijocas

Ah, eu já fiz parte de um grupo que cantava num asilo, aqui na França. É uma lição de vida, viu?

Don Afonso, acho que o Criador está colocando uma missão nas tuas mãos. Êsse teu trabalho reflete na melhoria de vida dos velhinhos, pois a instituição sente-se vigiada e ainda tem o cnontato humano que vc trava com êles.
Quero ficar velho não. Chato do jeito que sou acho que nem você teria paciência em me escutar.
Abraço forte, tchê!

Pois é, e hoje fala-se tanto cuidar da sua criança,para que ela não tenha problemas futuros de convivência e engajamento na sociedade, enfim uma série de problemas psicológicos, que a falta de amor poderá acarretar.
Agora se hoje, eu, você, e outras pessoas "ditas" normais temos consciência disso, jamais poderíamos esquecer, que esse indivíduo deve essa formação, àqueles velhinhos abandonados em qualquer asilo, muitas vezes até sem condições humanas de vida.
Tenha certeza que hoje prá eles, um pouco de fumo, balas, etc.. é suficiente, eles precisam e querem pouco, das coisas materiais, agora o que eles mais queriam, tenha certeza, não têm.
Um pouco de carinho, um toque, um olhar nos olhos, porque com toda sabedoria adquirida, sabe ler no fundo dos seus olhos, qualquer expressão de amor ou desamor.
Um abraço

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on março 15, 2007 7:01 AM.

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