Pois é,
Meia-noite e vinte e dois minutos. Chove. Uma chuva suave numa noite quente de verão, depois de um temporal que alagou a cidade. Parece frase pronta, mas qualquer outra que escrevesse soaria falsa. Desejamos noites assim, chuvosas e quentes. Convidativas. Eu, pelo menos, sempre desejei. E sempre que elas acontecem fico acordado. Daqui do escritório, na cobertura, mal e mal ouço algum carro passar. O Mimoso, um dos gatos da casa, vez por outra resolve lembrar, apesar de castrado, que poderia estar fazendo coisa melhor do que ficar olhando o dono sentado na frente do computador fazendo um barulhino que ele não entende o que é, e solta uns miados desesperados. Não adianta mandar calar a boca. Ele me olha e segue miando. Será que gatos também ficam melancólicos com noites chuvosas?
Pego no colo e faço carinho. Tento escrever ao mesmo tempo e ele percebe. Desce rapidamente e segue miando, como a me dizer "ou eu ou o computador!". Não adianta, gatos jamais entenderão. Mas, se fossem apenas os gatos, ainda vá lá. Difícil é tentar entender que existam humanos que não entendem a necessidade de escrever. Ou de pintar, de compor, de falar...
As meninas dormem a sono solto! Agarradinhas. Atravessadas na cama de tal forma, que se quisesse deitar agora teria que cometer um crime: acordá-las.
Equilíbrio. uma chuva suave numa noite quente de verão e mãe e filha dormindo abraçadas (se esse gato não parar de miar, ainda vai acordar as meninas. Daqui a pouco quem vai perder o equilíbrio sou eu!).
- Vai dormir, gato de merda! Pronto, foi-se! Melhor olhar para o teto. Não, não é teto.
É telhado. Forro, sei lá. É todo de madeira (vigas e forro) e a viga central fica a quatro metros e meio do piso(sim, sim, já me dei ao trabalho de medir!). Essa é saudade que sinto, ficar olhando para o "teto" da cobertura. Convidadtivo! A vida anda tão na correria que sequer consigo apreciar minha própria casa. Ando por ela com o piloto automático ligado. Tanto trabalho e incomodação para fazê-la e hoje sequer paro para apreciá-la.
Nem as paredes do banheiro, feitas "a gosto" (todo o banheiro e o resto, diga-se de passagem) eu olho, pois sempre levo uma revista...
Falta equilíbrio.
Ufa! O gato parou de miar!
Maldita necessidade de estar atualizado. Estou quase a ponto de saber tudo sobre o mundo e quase nada sobre minha própria casa. Sabemos tudo sobre as fofocas dos artistas e sobre as novelas, mas quase nada sobre a nossa casa, a natureza.
E natureza é equilíbrio.
Não estamos atingindo a natureza. Estamos atingindo a nós mesmos. Andamos, todos, desequilibrados. Sabemos disso e, mesmo assim, não fazemos nada. Não é a natureza que sofre. Nós sofremos. Estamos desesperançosos e é mais fácil jogar a culpa em outras coisas, ou nos outros... E se falo "nós" não é por querer ser dono da verdade, mas pelo que tenho lido e conversado com as pessoas. O desencanto parece ser geral, por mais que queiramos parecer "otimistas".
É mais fácil jogar a culpa na sociedade, na comunidade, no grupo, n@ companheir@, do que olhar para o próprio umbigo e ver que ele é tão feio quanto qualquer umbigo o é. E por quê? Porque eu olho para uma chuva suave numa noite quente de verão e para mãe e filha dormindo abraçadas e me esqueço do quanto isso é tão simples, tão equilibrado.
Começa a chover forte com vento forte. São duas horas. Observo um fenômeno: a chuva mudou de direção. É a natureza avisando que a estação vai mudar. Vivaldi tão bem expressou isso na sua música! Falta é sono! E querem saber? Tem uma teclinha aqui chamada "Delete" piscando pra mim. Serão três a dormir atravessados na cama. Agarradinhos ouvindo a chuva!
Equilíbrio.









































Exatamente isso!! Lutemos pelo nosso próprio equilíbrio!
Lendo o post recordei-me imediatamente de Herman Hesse e Sidarta. Leituras de um tempo distante e que fizeram muito sentido então. Equilíbrio ou o caminho do meio.
Grande abraço.
vixe, também tenho essa mania de ficar atualizada. Precisamos de terapia ;-)
o post estava bem pessoal - gostei bastante!
bjs.
Pois é, Afonso, acho que insônia é coisa que dá em velho... He he...
A crônica ficou muito boa, um pouco melancólica e ao mesmo tempo cheia de equilíbrio. gosthei!
abraço, garoto
Antes de mais nada: fiquei emocionado com suas reflexões na penumbra úmida dessa noite chuvosa! Quantas e quantas vezes vaguei pelos cômodos silenciosos refletindo sobre a vida, meus amores dormindo logo ali, no quarto ao lado... Off topic: grato pelos bons votos de aniversário, tchê!
Don Afonso, espero que tenhas conseguido aninhar-se nos braços de Orfeu uma vez que esposa e filha dormiam agarradinhas e tenho certeza que não ousaste acordá-las.
Belas palavras e nobres sentimentos. É na solidão da madrugada insone que nossos melhores sentimentos afloram. A madrugada tem uma essência própria que não ousamos desvendar. Érico Verissimo dedicou muitas palavras às madrugadas elembro-me que falava que a morte, soturna sempre se manifesta nas madrugadas, os doentes pioram, dores aumentam e a solidão se abate sobre os insones. Mas é também a madrugada o prenúncio de um novo dia que se aproxima, novas promessas de vida e alívio aos enfêrmos.
E madrugada com chuva então? Mexe mesmo com nossa pequenez de grão de poeira nesse universo.
Grande abraço