Autobiografia de um ilustre desconhecido - I

| | Comments (4)

Pois é,

Não imagino o que a autobiografia de um ilustre desconhecido como eu poderia despertar interesse em alguém. Talvez a razão esteja na mesma proporção do interesse por biografias de gente que a única coisa que fez na vida tenha sido herdar a fortuna amealhada pelo trabalho dos avós e pais e, como soe acontecer, nada mais faz do que aparecer por aí.

Começo mal, pelo jeito! Maltrato-me ao fazer uma comparação com gente que considero absolutamente inútil. Não que por vezes não tenha me sentido qual um desses, mas é que há momentos em que nos sentimos assim, perfeitos nadas. É difícil a tarefa de avaliar nossa contribuição para a vida. Há quem busque na fama a razão da sua contribuição.

Lembro-me que certa vez - ao tempo da primeira faculdade, Física -, e já adiantando um pouco a história, encontrei, na fila da matrícula, uma caloura interessante. Como vivia no período da vida em que não podemos perder oportunidades, aproximei-me dela e "puxei um papo", como se dizia então. No meio da conversa, perguntei para a moça o que ela pretendia da vida estudando Física. Ela respondeu sem hesitar: - quero ganhar o Prêmio Nobel! Apesar de já estar fazendo mestrado em Astrofísica, foi ali mesmo que desisti. A fama e o reconhecimento, naquele momento, não eram objetivos para mim.

A fama já me incomodava no âmbito familiar. Era difícil conviver com a pecha de "geninho"só porque estudava Física e sabia tudo - ou imaginava saber quase tudo - sobre as estrelas. E não adiantava eu dizer que era o "mais burro" da minha turma. As pessoas criam esteriótipos e vão vivendo e julgando as pessoas com eles. Rótulos. É disso que vivemos.

Claro que havia uma certa vantagem: as mulheres adoravam me ouvir falar de estrelas e outras cositas. Havia sempre uma aura de "ser diferente", o que era um atrativo natural. Como nunca fui um estudante ortodoxo no respeito a aceitar apenas o método científico como única forma de obter conhecimento, admitia conhecer as outras formas de ver o universo. Assim, dedicava-me a estudar mitologia e a representação das constelações; estudava astrologia e a representação da influência dos astros na vida das pessoas. Um sucesso, poderia dizer. Não há nada de mais romântico do que uma noite de céu estrelado acompanhado de histórias sobre personagens e suas estrelas.

- Olha lá, meu anjo, estás vendo aquelas três estrelas, uma ao lado da outra? Pois bem, elas formam o cinturão de Órion. Órion era um caçador... E assim contava como Órion e Escorpião, por castigo de Zeus, jamais se encontrariam no céu. Quando um estivesse nascendo, o outro estaria no seu poente.

Ante a possiblidade de ser "famoso", decidi ser um ilustre desconhecido. E ainda hoje sigo me perguntando: o que fiz de útil para a vida, além de colocar duas lindas mulheres no mundo?

Será interessante para quem ler? Não sei. Talvez alguns momentos possam despertar sentimentos de aproximação, pelo relato de experiências similares; em outros, de afastamento, pela total inutilidade da leitura. No mais das vezes, creio, há de despertar indiferença. Indiferença que uma vida desconhecida, e quiçá inútil, costuma despertar em nós.

Qual o fio condutor da história? O tempo cronológico, quando nasci, onde morei, o que fiz? Eventos marcantes de cada fase? Apenas situações importantes? Nada disso. Será o caminho do conhecimento e da experiência. O caminho que me fez partir das estrelas até chegar no homem. E, quem sabe, do homem à humanidade, nos próximos 30 anos que espero que me restem.

Há, implícito, na história toda desse desconhecido, um caminho de descoberta que se inicia no macrocosmo e termina na finalidade da vida, o ser humano, que é quem é, ao final das contas, o único que percebe a vida tal qual ela é: eu!

Alguém poderá dizer: - mas, Afonso, a vida existe e continua mesmo que tenhas morrido!

Será? E o que dizer das estrelas que vemos no céu, que nada mais são do que imagens de algo que já "morreu" há muito tempo? E, no entanto, a elas damos vida como se vida tivessem?

4 Comments

"Ora direis, ouvir estrelas!"
Não havia pensado nesse lado romântico dos físicos, he he. Tal qual o parnasiano Bilac, tens seus momentos de lirismo exacerbado!
abraço, garoto

Puxa!, astronomia? Que chic!

Ah, acho que foi o Saramago quem disse que tudo é biografia. Todos nós devíamos mesmo era escrever as nossas biografias.

Bem, não me lembro da citação ao certo. Vou procurar, e se a encontrar, compartilho.

Escreva sim.

Beijos

Pois eu espero participar dessa biografia em algum tempo desses próximos 30 anos, experimentando uma das suas comidinhas e dando uns agarrões nas moças dessa casa!

Enquanto isso, ler a biografia será supimpa!!

Afonso, você me fez sentir "nada". Eu não existo e se morrer, vou virar estrelinha.
Boa semana! Beijus

Leave a comment


Type the characters you see in the picture above.

About this Entry

This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on dezembro 4, 2006 12:02 AM.

Empreitada was the previous entry in this blog.

Autobiografia de um ilustre desconhecido - II is the next entry in this blog.

Find recent content on the main index or look in the archives to find all content.