Autobiografia de um ilustre desconhecido - II

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Pois é,

Afonso. Luiz Afonso. Nome de rua em Porto Alegre, cidade adotada por força de um pai militar que, ao morrer, deixou dois dos seus filhos morando nela. Pela vontade da mãe, teria retornado à terra natal, esse tal de rio que transborda em janeiro. E nome de numerosos reis de Portugal e Espanha, esse tal de Afonso. De um dizem até que foi Sábio; de outro dizem apenas que é um Chato. Já falei sobre isso. Somos reis por todos os lados. Pelos luizes somos os preferidos de França.

Geminiano da melhor estirpe, sou capaz de defender duas idéias absolutamente opostas como verdadeiras. Como a maioria das pessoas é plenamente incapaz de perceber a diferença, fica fácil. Tudo depende apenas da situação. Relatividade, já dizia aquele que um dia poderia ter sido meu ídolo. Felizmente não sou chegado em ídolos. Sequer me lembro de ter sido criado para ter um. Filho de militar e tendo estudado em Colégio MIlitar, tomei uma fartura de ídolos da pátria, a tal ponto que aprendi a não ter nenhum. Eles têm ídolos para tudo. O general peidou? Pronto, mais um ídolo; um exemplo a ser seguido. Vivemos bem sem ídolos, que não me ouça a indústria do entretenimento.

De símbolos já não posso dizer o mesmo. Dos símbolos da pátria, então, nem se fala. Esses são minha primeira lembrança. Em pleno jardim de infância já éramos obrigados a perfilar todas as manhãs para ouvir o hino nacional enquanto acompanhávamos o hasteamento da bandeira. Pudera, quem mandou ser fllho de milico, criança de cinco anos e morar na capital bem na época do golpe? Quando me perguntam o que é "ser puxa-saco", respondo: puxa-saco é diretora de escolinha que quer agradar os milicos, fazendo as crianças de palhacinhas.

E só podíamos entrar na aula depois que todos estivessem em posição de sentido e absolutamente imóveis. Foi daí que desenvolvi uma capacidade bárbara de me tornar "invisível". Quase sempre era o primeiro a ser liberado, pois aprendi a ficar tão imóvel, que qualquer mínimo movimento das outras crianças era notado. Mais tarde, essa capacidade em muito me ajudou nas bincadeiras de esconde-esconde e polícia e ladrão. Sempre fui o último a ser achado ou preso, quando era "bandido".

Mas isso tem seu lado ruim: somos ensinados desde pequenos a querer ser melhor que os outros. O ambiente militar tem disso: é um treino constante para ser o melhor. É assim na família e é assim no colégio. Não que ser bom seja ruim; o problema é a competição desenfreada e descarada a que nos submetem quando crianças e adolecentes. Na verdade, fui preparado para ser o substituto do meu pai, ou como diziam, para honrar o nome que ele construiu. Quando disse para a família que não queria ser milico, o mundo desabou.

3 Comments

engraçado! outro dia mesmo estava comentando com o meu "roommate" que é brasileiro e está por aqui temporariamente, que o que eu gostava mais da escola primária eram as aulas de Moral e Cívica (que isso?, Anita?). Explico: gostava de aprender todos os hinos: nacional, da bandeira, do soldado, da liberdade e etc e tal. Ainda os sei de cor, porque também éramos "obrigados" a cantá-los de vez em quando e o nacional todos os dias. Embora o clima ainda fosse o de repressão (mas já com o seu último representante), aquele sentimento patriótico, mesmo que imposto, não foi de todo ruim, penso hoje. Só nesse aspecto, claro. Que não me entendam mal!

Estou gostando de ler a sua biografia, Afonso!
bjs.

que bom que seguiste o teu coração. já imaginou que perigo de militar ias ser? :D

beijos para todos por aí!

PS: por sinal, acho que vou dar uma passada no mexicano no final de semana. me confirma teu endereço e telefone?

Vixe! Será que eles prefeririam que você fosse viado? Tipo:

- Ah, filho, tudo bem! Lá nas trincheiras a homarada se enrosca mesmo, é normal! Sem falar que homem de farda é um luxo!!

Competição. Pelo menos na vida profissional eu fujo dela. O que é ruim (em termos de ganhos financeiros). Mas esse "ruim" é altamente relativo, né mesmo?

Beijo!

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on dezembro 5, 2006 6:42 AM.

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