dezembro 2006 Archives

Pois é,

Enfim, acabou. Ou acabará à meia-noite de hoje, para ser mais exato (e chato!).

Foi, sem dúvida, igual aos anteriores; e será, certamente, igual aos que ainda porventura virão.

Vai ano e entra ano e continuamos a nos iludir que cada novo ano será diferente - de preferência melhor - que os anos anteriores. Besteira, sabemos! Mas mesmo assim gostamos dessa ilusão. Mesmo eu, que penso ter chegado ao limite do meu descrédito com o mundo, mantenho uma pontinha de ilusão.

Atravesso o final de ano ainda montado no pangaré (alusão ao Don Quixote) que me propus a abandonar no final de 2005. Desacreditar totalmente é uma tarefa difícil. Estamos rodeados de gente pelas quais nutrimos um sentimento de responsabildade. Por elas é que mantemos um pouquinho de esperança.

O ano termina com o assasinato oficial - de estado - do Saddam. Com ele vai-se, também, um pouco daquilo que chamamos certeza. Termino o ano em dúvida. Se, por um lado, reconheço que as atrocidades por ele cometidas mereciam castigo de igual monta, por outro, penso que matá-lo resolve apenas o problema de quem deseja vingança. Teria sido melhor cortar-lhe as mãos e os pés e deixar que sofresse pelo resto da vida a consciência de que isto foi feito em razão dos crimes cometidos.

A morte acaba com tudo, menos com o prazer dos que continuam vivos.

E os outros líderes mundiais, RESPONSÁVEIS PELA MORTE DE MILHARES DE INOCENTES, será que terão o mesmo destino?

- Afonso?
- Quié, Chato?
- Já não disseste que não acreditas mais em Papai Noel?
- Sim, mas o que isso tem a ver com o post?
- Tudo! Pensar que um dos maiores genocídas da humanidade - o tal de B@sh- poderia ser enforcado é a mesma coisa que acreditar em Papai Noel!
- Queres saber, Chato?
- O quê?
- Já não acredito em mais nada, essa é que é a verdade. De Clin..aos B#shs, os americanos já mataram - direta ou indiretamente - mais inocentes que muito ditador pelo mundo afora!
- Isso significa, então, Afonso, que a tua listinha de 10 coisas nas quais não acrefitas mais deverá aumentar?
- Antes fosse assim, Chato! O problema é o velho pangaré que sempre me acompanha.
- E o que vais fazer em 2007?
- Ja disse que em 2006 se esgotou meu estoque de certezas. Entro em 2007 com pelo menos três caminhos a seguir: ou largo tudo de mão e vou procurar a tal da paz de espírito, ou me revolto definitivamente e "pego em armas", ou abro uma Skol. Que te parece?
- Abre uma Skol!!!
- Quem dera a vida decesse tão redondinha feito uma Skol, Chato! Quem dera eu não tivesse esse pingo de consciência que tenho! Quem dera tivesse faltado alimento na minha infância e meus neurônios não fossem capazes de perceber e pensar o mundo! Quem dera eu não precisasse me incomodar com o mundo!
- Posso fazer uma perguntinha íntima, Afonso?
- Poder, pode. Mas quem pergunta o quer quer, pode ouvir o que não quer!
- Precisas mesmo te incomodar com o mundo?
- Porra, meu! Já não te disse que termino o ano e entro noutro somente com dúvidas?
- Caraca! Tô vendo que em 2007 vais incomodar no blog!
- E daí, Chato? Pra que serve um blog, afinal? E não te esqueças que ainda não terminei aquela história sobre teres me prendido no castelo. Lembra? As Aventuras da Condessa Clarissa? Pois é, fica quieto que qualquer dia desses resolvo liquidar contigo.
- Hehehe, isso é uma característica tua, Afonso. Começa e não termina!
- Tá, chega de papo! Passaste o ano inteiro me enchendo saco e agora não me deixa escrever um post de final de ano decente!
- E se puder não vou deixar, ora! Um post todo desanimado? Era só o que me faltava!
- Conta, então, o que pode ter sido animador em 2006?
- Compraste uma cobertura.
- Só deu trabalho!
- Tens emprego.
- Só deu trabalho!
- Chato!?
- Quié?
- Cala a boca e deixa eu terminar o post.
- Mas o que mais queres dizer que possa interessar a alguém?
- Sei lá, algo do gênero "sejam felizes em 2007"?
- Ah tá! Palhaçada, agora!? Desde quando acreditas nisso?
- Nunca é tarde!
- Conta outra!
- Que seja. Não quero que as pessoas sejam felizes em 2007. Quero apenas que possam realizar, cotidianamente, a vida. Seja ela qual for. Feliz ou triste, fácil ou difícil. Que morram se tiverem que morrer; que vivam se tiverem que viver. Façam tudo que a vida e a morte nos permitem fazer. Mas façam, também, uma coisa diferente, pra variar:

façam algo diferente! Não esperem morrer para se arrependerem daqulio que não fizeram. A vida começa ali e acaba logo ali, sem avisar. Numa esquina, num tiro, num câncer que mata em dois meses, num ônibus incendiado! Esqueçam a religião. Mas não esqueçam da maior lei da vida: não faças aos outros aquilo que não queres que façam a ti!

- Meu desejo para 2007, Chato, é que a vida e a morte continuem!

"- Severino, retirante,

deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.


E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."

(Morte e Vida Severina, João Cabral de Mello Neto)

Pois é,

O Chato, traindo sua própria filosofia de jamais fazer listas (Código do Chato, arts. 6° e 8°), resolve terminar o ano com suas listinhas de "10 Mais".

1. Dez coisas nas quais não acredito mais
2. Dez coisas nas quais ainda, e por enquanto, acredito
3. Dez coisas nas quais acredito piamente
4. Dez coisas que ainda não fiz e pretendo não fazer
5. Dez coisas que ainda não fiz e pretendo fazer
6. Dez coisas que já fiz e pretendo voltar a fazer
7. Dez coisas que me incomodam
8. Dez coisas que não me incomodam
9. Dez coisas que não precisavam existir
10. Dez coisas que precisavam existir

A começar, então, pela primeira. Antes, porém, um conceito, a título de introdução.

A vida tem dois princípios: sobrevivência e altruísmo. Somos uma composição quali-quantitativa dos dois. Vamos de um extremo ao outro na escala da sobrevivência (quantidade). O que nos move nessa escala é o quanto usamos do altruísmo (qualidade).

Pretendo desenvolver o tema de ser o homem intrínsicamente bom ou mau quando detalhar a terceira lista, das coisas nas quais acredito piamente. Por ora, fiquemos com uma definição: a maldade humana é a proporção (razão) entre a sobrevivência e o altruísmo. Como nascemos com uma quantidade constante do instinto de sobrevivência, a maldade varia na razão inversa da quantidade de altruísmo com o qual "maneiramos" nosso instinto de sobrevivência. Quanto mais egoístas somos, maior nossa maldade, tendendo ao infinito para os casos de altruísmo = 0, isto é, em pessoas que só pensam e se movem para si mesmas. O outro lado também é verdadeiro: pessoas dotadas de um alto grau de altruísmo possuem uma maldade que tende a zero.

O que diferencia uma pessoa da outra é que cada um tem uma proporção entre sobrevivência e altruísmo, isto é, de maldade, particular, que nunca é igual a outra. Com isso em mente, seguimos. Ao longo dos textos esse conceito ficará mais claro e, espero, melhor desenvolvido.

1. Dez coisas nas quais não acredito mais

1.1 Políticos e dirigentes públicos em geral

Não se trata de pensar que sejam todos desonestos. Não! Se a questão se resumisse à honestidade, a não roubar, tudo seria mais fácil. O problema é a CRENÇA que move os políticos e dirigentes públicos em geral. Em todos, o princípio de maior peso é sempre o da sobrevivência. E talvez por isso fiquemos decepcionados. Somos educados a acreditar que fazer política e cuidar da coisa pública é fazer pelos outros, pelo povo, pela sociedade.

Mentira. Essa gente só quer saber de si, de alimentar o seu ego e manter um belo status sócio-econômico para sua família. Em alguns ainda existe um certo grau de altruísmo, mas além de serem poucos, é em um grau muito baixo, o suficiente para que eles pensem de si mesmos não estarem cometendo nenhum crime. Mas cometem.

Crime é algo ficto, definido pelas sociedades conforme a época. Tanto é assim, que o Código define que não há crime sem lei que o defina anteriormente. Uma convenção apenas. E uma convenção utilizada pelos políticos e dirigentes públicos em geral para se julgarem inocentes. Incocentes do crime que cometem ao deixarem milhares de pessoas sem a mínima condição de vida e sem dignidade humana. Os políticos não fazem as leis para definir isso como crime e os dirigentes públicos não fazem nada para mudar a condição social do país.

Todos criminosos, com ou sem crime definido. É um grupo de pessoas cuja maldade é extremamente alta. Altamente egoístas que só pensam no "seu". Pensem bem: o que de fato todo o dinheiro que é gasto no Congresso e no Executivo realmente tem resultado em melhorias para o povo? QUASE NADA! E para eles? Nem precisa dizer! São máquinas que existem e se movem para si mesmas.

Por isso, e por muito mais, é que não acredito mais nessa gente.

1.2 Natal

Talvez a humanidade fosse mais feliz se parasse de enganar com essa data. Admitir que virou comércio e pronto. Mas aí aparecem os psi e dizem que é importante para o desenvolvimento da criança, etc., etc., etc., acreditar em papai noel, no espírito de bondade e fraternidade entre gente que passou o ano inteiro "se aturando"... O princípio da sobrevivência sempre falará mais alto. Daí que, para disfarçar, uma vez por ano fingimos pensar nos outros mandando mensagens cheias de bons sentimentos e damos presentinhos e etc., etc., etc. E ficamos enternecidos ao ver uma criança recebendo presentes de Natal. Está na hora de algum psi inventar outra teoria para explicar o desenvolvimento humano. Sem Papai Noel e Natal.

Por isso, e por muito mais, é que não acredito mais em Natal.

1.3 Bondade humana

Essa já é clássica por aqui. Por tudo que já escrevi acima, dá pra ver que não creio na bondade humana. Alías, ler o item 3, nos próximos posts, pois acredito piamente na maldade humana e não na bondade.

1.4 Humanidade

A humanidade, se é que é alguma experiência, é uma experiência que não deu certo. Aliás, o que é mesmo "humanidade"? Estamos falando do conjunto dos seres humanos? Enquanto um quinto se move pelo princípio da sobrevivência, os quatro quintos restantes morrem à míngua por falta de condições de sobrevivência. Falta essa, a bem bem da verdade, proporcionada pelo quinto que tudo tem e pode. E que está se lixando para o resto. Os seres humanos nunca foram e nunca serão unidos a ponto de serem humanidade. Podendo, uns sempre destruirão os outros. A maldade do quinto que tudo tem e pode é muito grande.

Por isso, e por muito mais, é que não acredito mais na Humanidade.

Segue...

2006 - Natal

| | Comments (4)

Pois é,

FELIZ NATAL, então!


Sem muito saco esse ano...

2006 - II

| | Comments (7)

Pois é,

Em fevereiro deste ano compramos a cobertura e junto com ela uma enormidade de problemas. Não os compramos, mas vieram junto com a reforma. Uma aventura, diga-se, que deixou marcas sentidas ainda hoje. No cansaço ainda não recuperado e no bolso, que dói todo final de mês. O cansaço as férias poderão ajudar a compensar; já o bolso... esse levará mais tempo!

Um dia ainda me candidato a deputado e resolvo todos os meus problemas. Garanto aos meus fiéis seis leitores dar um jeitinho na vida deles também. Alguém aí quer um CC de assessor parlamentar em Brasília? É fácil, basta votar em mim.

Enquanto isso, no País das Maravilhas, a taxa de juros cai para 6,5% e o governo corrige a tabela do IR em 4,5%. Assim vou acabar acreditando em Papai Noel.

Ontem assisti a uma palestra do Lama Padma Samten. Ele foi meu professor na Faculdade de Física. Física Nuclear, Quântica e otras cositas modernas. Hoje é um Lama. É de se pensar: estivemos juntos na Física, ele como mestre e eu como aluno. Será que não está na hora de voltar a ser um discípulo dele? E assim voltar ao início de um ciclo começado há quase trinta anos e abandonado por esses caminhos da vida?

Aniversário!

| | Comments (7)

Pois é,

Melhor do que cinco dias seguidos com temperatura acima dos 35° será mais dias assim durante as nossas férias, em janeiro. A Kaya também sai de férias. Trinta dias para "botar as fofocas em dia".

Se, por um lado, a situação financeira - em função da compra da cobertura e da reforma que fizemos - não nos permite viajar; por outro, vai permitir que finalmente fiquemos curtindo a nossa casa. Definitivamente tomar posse. Claro que isso significa trabalhar, e talvez mais do que trabalho normalmente.

Mulher de férias em casa nova é phoda! Vai inventar de tudo.

- Afonso? (berra ela lá de baixo)
- Quié, Kaya?!! Não tá vendo que eu tô tentando botar a leitura dos blogs em dia? Dá pra dar um tempo? Desde que a gente se mudou que eu não consigo ler e comentar nos blogs dos amigos. Agora que eu tenho tempo queres que eu faça outras coisas!??
- Tempo já te dei de sobra durante o ano e não fizeste nada, sempre dizendo que farias durante as férias!

Maldita hora em que as mulheres resolveram acreditar em nós. Em cinco anos será a primeira vez que passeremos as férias juntos em casa. Juntos sempre passamos, mas sempre demos um jeito de viajar.

A Kaya tem uma característica: manda uma vez; manda a segunda; na terceira, se eu não fizer, ela me manda embora. Uau! Há que se cuidar. Os "olhos que brilham" também sabem soltar labaredas de fogo! E queimam!!!

Tá certo! Eu sei que tem trocentas coisas por fazer. Algumas fui eu mesmo que inventei (e ela gostou e agora me cobra...), mas justo nas minhas férias? Bons tempos, aqueles dos faraós. Pegavam uns eunucos pro serviço pesado e ficavam livres pro "bem bom". Garanto que ela vai reclamar.

- Afonso, seu viado!?
- Quié, dessa vez, Kaya?
- Porra, agora que a gente tem tempo tu não dá no couro?
- Quié que tu querias? Olha o tamanho da "listinha" de coisas que me destes para fazer! Me deixa dormir que amanhã tem mais!!! Ronc, ronc, eu vou fazer, isso sim!

De qualquer forma, hoje, 20 de dezembro, comemoramos três anos de casados. Casados de papel passado, como manda o figurino. Aconteça o que acontecer durante as férias; faça eu as besteiras que fizer, algo a vida não há de me tirar e levarei, seja para o inferno ou para o paraíso (acho difícil...):


"Os Olhos que Brilham"

Clique na foto para vê-la em tamanho natural.

Pois é,

O Chato parece que vai longe. Depois da publicação da minha receita de arroz de carreteito no blog da Roberta Malta, foi a vez do Luiz Minduim Vasconcellos. Minduim publica, há mais de 10 anos, uma coluna sobre gastronomia no Diário Popular, jornal da cidade de Pelotas. A foto é da publicação e a receita foi copiada do blog da Roberta. .

De quebra, ele me envia uma receita de bacalhau que vou publcar aqui, com as fotos, quando a fizer. O que espero seja em breve, pois adoro bacalhau.

Pois é,

(pra quem já leu, tem atualização no final)

Dediquei boa parte de 2006 a procurar respostas para diversas perguntas. De todas, sobraram dez, para as quais não encontro. Se alguém puder me ajudar. Aí vão:

1. Por que a lata de extrato de tomate CAJAMAR é toda ondulada?
2. Por que o gás sempre acaba na hora do banho e nunca quando estamos apenas cozinhando ou lavando as mãos?
3. Por que um vídeo da Cic@rell@ trepando na praia dá mais notícia do que as milhares de crianças que morrem de fome diariamente?
4. O que, afinal de contas, esses deputados, senadores, magistrados e otras cositas más, pensam que nós somos?
5. A qual reino pertence a pimenta do reino?
6. Quando o relógio aponta meio-dia, ele faz "tic" ou faz "tac"?
7. Por que os livros são tão caros no Brasil?
8. Qual é a diferença entre uma besta quadrada e um imbecil esférico?
9. Em que dia, mês e ano alguém decidiu que a sexualidade humana seria um tabu?
10. VETADO. (Código do Chato, art. 8°).
11. Por que vocês passaram o ano inteiro lendo essa droga de blog?


Atualização:

Não vou ser hipócrita a ponto de dizer que torci pelo Internacional apenas porque "representava o Brasil". É duro agüentar o Gavião falando isso o tempo todo. Palhaçada. O Brasil não existe! A imprensa carioca e paulista passa o ano interiro literalmente igonorando os times gaúchos e, como não tem mais como faturar em cima dos seus próprios times, "elevam" os gaúchos a "representantes do Brasil". HIPOCRISIA PURA!

Noventa e nove por cento do meu ser torceu contra. O um por cento restante levou em consideração que, quer goste ou não, o Internacional é um time gaúcho. Um por cento, é o que basta. De resto, quis mais é tomassem uma goleada do Barcelona, de preferência com uns dois gols do gremista Ronaldinho (que quase os fez, embora "quase" não ganhe jogo!).

Flauta os colorados não podem nos tocar. Não é essa a questão. Afinal, temos duas Libertadores, um Mundial, um vice-Mundial e muito mais na frente deles. O difícil, em tese, e agüentar a Kaya querendo cooptar a Condessa para ser colorada.

Isso me faz lembrar da razão pela qual me tornei gremista. Em 1965 meu pai foi transferido para Porto Alegre. MOrávamos em Brasília e a "gloriosa" comemorava seu primeiro aninho. Naquele ano o Grêmio foi mais uma vez campão estadual (pela quarta vez consecutiva). E assim seria por mais três anos. Hepta-campeão. Seqüência só interrompida em 1969, quando o Internacional inaugurou o conhecido "Chiqueirão" (para os íntimos).

Com oito anos e descobrindo o mundo, descobri que queria ser vencedor. Então, só poderia ser gremista. Meu pai e meus irmãos eram colorados. Perdedores. Teriam sido um péssimo exemplo. Por isso não me preocupo muito com a insitência da Kaya em que a Condessa se torrne colorada. Há tempo...De qualquer forma, a Fernanda é gremista. Isso é o que chamo de "influência paterna benigna". Quando ela fez um ano, dei uma camiseta do Grêmio de presente. Esse ano já dei duas outras (ela me pediu três, dizendo que a culpa era minha...) Já dei um uniforme para a Condessa, mas tenho cá comigo que a Kaya já deve ter jogado fora. Um crime, diga-se de passagem.

De qualquer forma, e mesmo tendo que agüentar os colorados, parabéns pela conquista. Talvez agora eles saibam como é sentir-se como nos sentimos. Sempre houve uma tristeza muito grande entre os gremistas: os colorados nunca nos entenderam. Jamais souberam compartilhar o nosso sentimento. Pois agora poderão!

E digo mais, homenagem maior esses colorados não poderiam ter: coloquei o símbolo deles aqui no Chato!

Pois é,

Levei um susto ontem! Casualmente voltei mais cedo do trabalho e estava em casa quando batem na porta anunciando uma encomenda para a Clarissa. Putz,vai ver é um assalto. Desde quando um bebê recebe encomenda? Só pode ser gente que anda controlando o movimeno da casa e sabia que naquela hora só estava a empregada. Para uma empregada seria a coisa mais natural do mundo abrir a porta para receber uma encomenda para alguém da casa.

E de fato ela já estava abrindo a porta quando resolvi perguntar para ela quem era. "Encomenda pra Clarissa, seu Afonso". Fui eu mesmo até a garagem (o portão é vazado) e tentei identificar o entregador. Bom, pelo menos o entregador era sério. Peguei a tal encomenda, uma caixa da Submarino, muito suspeita por sinal.

Nova dúvida: e quam poderia ter mandado um presente comprado pela internet para a Clarissa? Só uma pessoa, na blogosfera, sabe meu endereço novo e ela não teria porque mandar presentes pela internet, pois poderia vir pessoalmente aqui.

Liguei para a Kaya e relatei o ocorrido. Aproveitei para sugerir chamar o esquadrão anti bombas, pois bem poderia ser uma. O que fazer, abrir ou não abrir. Deixei para abrir quando estivéssemos todos em casa. Se fosse uma bomba, a família morreria junto e feliz...

Abri. Era um presente surpresa do dindo papai noel EDU. Olha aí a "bomba":

2006 - I

| | Comments (9)

Pois é,

O cansaço toma conta. Não apenas o cansaço físico, de quem passou um ano trabalhando, mas o cansaço moral. Aquele cansaço de quem já não vê de onde tirar forças para acreditar. Aquele cansaço de quem vê que tudo o quanto a humanidade tentou desenvolver como valores, e que a levariam a um estágio "superior", ser jogado no ralo dos interesses estritamente pessoais.

O "para mim aqui e agora" é a nova moral. Chafurdamos na lama do individualismo e pedimos mais lama. Dois mil e seis vai-se embora com a cara de tantos outros anos que se foram: absolutamente inexpressivo, sonso.

Não há muito o que falar de 2006. Em 1° de janeiro de 2006 publiquei esse post:

"Começamos tudo novamente. Ou nem paramos. Tinha pensado em fazer um retrospectiva de 2005. Pra quê? O importante já foi feito, ou seja, manter o registro quase diário. Quem pensa em genealogia, pensa em mais do que simples datas de nascimento e nomes de familiares. Pensa também em como teria sido a vida de cada pessoa. Pois bem, a minha já anda por aqui. Portanto, nada de retrospectiva.

2006 se apresenta como um ano de reflexão. Muitas. Vamos escolher nossos representantes e, principalmente, o presidente do país. Muita reflexão. As lições de 2005 devem, espero, ter servido de lição para todos. Mas também será um ano para pensar nosso comportamento em relação à natureza. Que seja o ano em que começemos a abandonar, definitivamente, o individualismo. Não a individualidade, que essa é importante, mas essa forma ignóbil de ver o mundo a partir do e para o próprio umbigo.

Que 2006 seja o ano da responsabilidade, o ano em que vamos parar de dizer "o problema não é meu!", ou "não votei nele, azar de quem votou!. Ano da responsabilidade que nos levará a um sentido maior da palavra solidariedade. Não apenas a solidariedade em forma de caridade ou assistencialismo - importantes, sim - mas a solidariedade que resulta da responsabilidade cotidiana que temos para com o nosso semelhante.

Que 2006 seja o ano em que a DIGNIDADE HUMANA saia do papel da Constituição e se torne realidade.

E somos todos responsáveis pelo futuro, pois somos nós que educamos nossos filhos. Que 2006 seja o ano da educação. Não apenas da educação formal, nas escolas, mas da educação familiar. Da educação de valores éticos e morais para uma vida em sociedade que privilegie o outro.

"Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vem através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flexas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flexas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flexa que voa, ama também o arco que permanece estável." (O Profeta, Gibran Khalil Gibran)

Muita reflexão para todos em 2006."

Não mudou nada. Se tivesse que salientar um fato importante para janeiro de 2006, esse fato seria o batizado da Condessa.

Contagem regressiva!

| | Comments (5)

Pois é,

Não, não é para o final do ano mas, sim, para o início das minhas férias. Vinte dias, a partir de hoje. Treze dias úteis e, se possível, farei de tudo para torná-los ABSOLUTAMENTE INÚTEIS. Ninguém merece chegar ao final do ano se matando de trabalhar.

Vou fundar uma seita: a Igreja do Chato dos Últimos Dias do Ano. "Cerveja pura" será nosso credo:

Cerveja pura que estáis no bar,
Admirado seja vosso nome,
Venha vós à nossa mesa,
Seja satisfeita nossa vontade,
Assim no copo como no bico.

O gole nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos os nossos refrigerantes,
assim como nós perdoamos
a quem nos serve cerveja quente,
não nos deixei cair em tentação
mas livrai-nos da Coca-Cola

Amém.

Dos nossos mandamentos, o mais importante é o 4°:

Guardar a noite da sexta-feira.

Explica-se:

"Lembra-te de santificar a noite de sexta-feira. Trabalharás durante seis dias e farás todos os trabalhos, mas a noite da sexta-feira é dedicada ao Bar. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu gado, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades. Pois em seis dias o Senhor fez o céu e a terra, o bar e tudo que nele há, mas na noite de sexta-feira bebeu uma cerveja. Por isso o Senhor abençoou a noite de sexta-feira e a santificou."

Adeptos podem comparecer, desde que paguem uma rodada.

Foi-se mais um...

| | Comments (3)

Pois é,

Foi-se mais um. E mesmo assim algumas pessoas não se convencem de que - bem ou mal - um dia tudo acaba. E continuam agindo como se fossem eternos. Eterna, mesmo, só a maldade humana, pois se morre um, outros tantos nascem e logo, logo, começam a por em prática uma maldade que parecem trazer de priscas eras.

E já notaram como gente ruim dura? O mal deve fazer bem para a saúde!

Seria interessante ter tempo para divagar sobre os motivos íntimos que levam certas pessoas a praticarem o mal. Tentar entender o que leva essa gente a fazer o que fizeram - e que alguns ainda fazem - contra outros seres iguais, mesmo sabendo que um dia morrerão e que tudo aquilo pelo qual aplicaram tanto mal vai-se junto com eles. Que prazer terão na outra vida, se existe uma?

Não há nenhuma diferença entre esse da foto e o assassino de um pacato empresário (post anterior): ambos são animais da pior espécie.

Pois é,


Ontem foi cometido mais um assassinato em Porto Alegre. É mais um dos tantos que se comete por esse país não sem segurança, mas sem tudo aquilo que poderia impedir a criminalidade: um mínimo de condições de vida para as pessoas.

Teria sido mais um para mim, não fosse o fato de ter sido o namorado da minha ex-mulher, a mãe da Fernanda. E de forma brutal. Estava em sua empresa quando dois assaltantes entraram para roubar o dinheiro do pagamento dos funcionários. A polícia imagina que ele possa ter feito algum movimento que os assustou. Sem a mínima cerimônia, deram um tiro na cabeça e fugiram, sem sequer levar o dinheiro. Morreu na hora. Apenas 56 anos.

Eu estava almoçando com a Fernanda. Nos encontramos para que eu pudesse lhe entregar a autorização de viagem, pois eles passariam o Natal em Punta del Este, Uruguai. Cheguei a perguntar se o Augusto iria junto, ao que a Fernanda me respondeu que achava que sim. Os pratos recém haviam sido servidos quando ela recebeu uma ligação telefônica. De pronto desabou a chorar, o que me assustou. Pensei que algo havia acontecido coma mãe dela. Assim que pode falar me disse: - mataram o Augusto, pai! Perguntei se tinham dito onde foi e fomos para lá. Os garçons devem ter ficado supresos ao ver dois pratos cheios abandonados.

Acabei saindo no jornal (foto acima, no jornal Zer@ H@ra), mesmo que de costas. Sou eu em primeiro plano, calças jeans e camisa cinza, com meus cabelos já grisalhos de tanta estupidez humana. A Fernanda, ao fundo, é a de calças jeans claras e cabelos pretos sendo abraçada por alguém.

O Augusto era um cara legal. Muito tranqüilo, por diversas vezes teve sabedoria na forma de como e quando interferir em crises que tínhamos, eu e a mãe da Fernanda. Sempre foi muito bom para a Fernanda, que o adorava.

Ele não merecia isso. Nenhum de nós merece isso!

Pois é,

Quem nunca tomou um "pé-na-bunda"? Abrindo meus guardados secretos, encontro cartas do tempo do êpa! Sim, sim, sou maníaco por guardar coisas. Nunca joguei carta alguma fora. Sequer cartão de natal ou de aniversário. Tenho-os todos bem guardados.

Pois resolvi pegar um envelope aleatoriamente. Ah! Já sabia o que estava dentro. É de dezembro de 1973. Mais precisamente de 29 de dezembro. Fomos passar uma semana das ferias, eu e mais dois amigos, na casa de um deles, numa cidadezinha do interior chamada Santiago. O pai dele era o comandante da guarnição local, um regimento de cavalaria. Mordomias à vista, nos fomos de trem para lá.

Ainda existiam trens de passageiros naquela época. Três adolescentes - eu tinha dezesseis anos - por dezoito horas dentro de um trem. Isso merece um capítulo à parte, tanto quanto outras ocorrências nessa que foi uma das semanas mais bem aproveitadas da vida.

Já no segundo dia estava de namorada. Como já disse, era uma época em que não se podia perder tempo. Lendo a carta vejo que não me recordo de quase nada do que aconteceu e o que nela está narrado. Sequer da imagem da menina lembro. Resta, apenas, uma lembrança de uma paixão fulminante.

Pois ao pé-na-bunda, então ( a grafia é original):

"Santiago, 29 de dezembro de 1973.

Tudo bom? Fizestes uma boa viagem? Bem Luis Afonso acho bom ir direto no assunto. Tu sabes como sou, gosto de tudo claro e sincero. E não vejo motivo de fazer gre-gre para dizer gregório.

Pois o qu quero dizer é que não vejo motivo para nós continuarmos a namorar já que está tudo avacalhado conforme tu mesmo o disse, acho melhor acabarmos com tudo de uma vez e definitivamente.

O que não impede que fiquemos bons amigos. Espero que não fiques chateado. Pois embora eu sendo um pouco maluca como tu falastes, eu não gosto de enganar ninguém. Espero que tenhas passado um Feliz Natal. Da tua amiga, ...."

Um fora por carta! Uma experiência certamente traumatizante para um adolescente. "Deve ter sido", pois encontro, no mesmo envelope, uma outra carta, datada de 7 de janeiro de 1974, dez dias depois, de uma outra menina reclamando que eu não havia respondio a uma carta anterior.

Confesso que não lembro dessa outra. Mas a carta existe, logo ela também. E certamente algum namoro. E pelo visto foi ao mesmo tempo que o outro. Eu não devia prestar naquela época. Vai ver foi por isso que disse que estava "tudo avacalhado", sei lá. Coisas de um adolescente tinhoso...

Pois é,

O tempo passa depressa para quem não tem tempo para sentir o tempo passar.

Desconheço se alguém já escreveu essa frase. Evoco o artigo 4°, seus incisos e parágrafos, do Código do Chato.

Fatos, por vezes os mais banais, fazem o tempo congelar. E o tempo congelado nos permite ver o quanto ele passou. E pensamos, puxa, quanta coisa eu fiz nesses ultimos 20 anos, ou qualquer número de anos que o tal fato sugerir.

Pois ontem, retornando de uma viagem que fiz para Caxias do Sul, e ao passar pelo metrô, perguntei para a colega que me acompanhava: já andaste de metrô? Ao que ela respondeu: nasci no ano em que inauguraram o trem. Foi o que bastou para congelar tempo e me lembrar que havia trabalhado na construção do metrô de Porto Alegre.

Vinte e um anos se passaram de lá para cá. Três casamentos, duas filhas, um monte de namoradas entre os casamentos, três faculdades, um monte de empregos, quatro negócios próprios - uma lavanderia, uma confeitaria, uma consultoria, uma distribuidora (atacado).

E as memórias foram passando tanto quanto passavam os quilômetros. E foi pouca distância para tanta memória. Vou programar uma viagem de uns mil km da próxima vez. Assim terei duas mil memórias para recordar, enquanto vou e venho...

Pois é,

Afonso. Luiz Afonso. Nome de rua em Porto Alegre, cidade adotada por força de um pai militar que, ao morrer, deixou dois dos seus filhos morando nela. Pela vontade da mãe, teria retornado à terra natal, esse tal de rio que transborda em janeiro. E nome de numerosos reis de Portugal e Espanha, esse tal de Afonso. De um dizem até que foi Sábio; de outro dizem apenas que é um Chato. Já falei sobre isso. Somos reis por todos os lados. Pelos luizes somos os preferidos de França.

Geminiano da melhor estirpe, sou capaz de defender duas idéias absolutamente opostas como verdadeiras. Como a maioria das pessoas é plenamente incapaz de perceber a diferença, fica fácil. Tudo depende apenas da situação. Relatividade, já dizia aquele que um dia poderia ter sido meu ídolo. Felizmente não sou chegado em ídolos. Sequer me lembro de ter sido criado para ter um. Filho de militar e tendo estudado em Colégio MIlitar, tomei uma fartura de ídolos da pátria, a tal ponto que aprendi a não ter nenhum. Eles têm ídolos para tudo. O general peidou? Pronto, mais um ídolo; um exemplo a ser seguido. Vivemos bem sem ídolos, que não me ouça a indústria do entretenimento.

De símbolos já não posso dizer o mesmo. Dos símbolos da pátria, então, nem se fala. Esses são minha primeira lembrança. Em pleno jardim de infância já éramos obrigados a perfilar todas as manhãs para ouvir o hino nacional enquanto acompanhávamos o hasteamento da bandeira. Pudera, quem mandou ser fllho de milico, criança de cinco anos e morar na capital bem na época do golpe? Quando me perguntam o que é "ser puxa-saco", respondo: puxa-saco é diretora de escolinha que quer agradar os milicos, fazendo as crianças de palhacinhas.

E só podíamos entrar na aula depois que todos estivessem em posição de sentido e absolutamente imóveis. Foi daí que desenvolvi uma capacidade bárbara de me tornar "invisível". Quase sempre era o primeiro a ser liberado, pois aprendi a ficar tão imóvel, que qualquer mínimo movimento das outras crianças era notado. Mais tarde, essa capacidade em muito me ajudou nas bincadeiras de esconde-esconde e polícia e ladrão. Sempre fui o último a ser achado ou preso, quando era "bandido".

Mas isso tem seu lado ruim: somos ensinados desde pequenos a querer ser melhor que os outros. O ambiente militar tem disso: é um treino constante para ser o melhor. É assim na família e é assim no colégio. Não que ser bom seja ruim; o problema é a competição desenfreada e descarada a que nos submetem quando crianças e adolecentes. Na verdade, fui preparado para ser o substituto do meu pai, ou como diziam, para honrar o nome que ele construiu. Quando disse para a família que não queria ser milico, o mundo desabou.

Pois é,

Não imagino o que a autobiografia de um ilustre desconhecido como eu poderia despertar interesse em alguém. Talvez a razão esteja na mesma proporção do interesse por biografias de gente que a única coisa que fez na vida tenha sido herdar a fortuna amealhada pelo trabalho dos avós e pais e, como soe acontecer, nada mais faz do que aparecer por aí.

Começo mal, pelo jeito! Maltrato-me ao fazer uma comparação com gente que considero absolutamente inútil. Não que por vezes não tenha me sentido qual um desses, mas é que há momentos em que nos sentimos assim, perfeitos nadas. É difícil a tarefa de avaliar nossa contribuição para a vida. Há quem busque na fama a razão da sua contribuição.

Lembro-me que certa vez - ao tempo da primeira faculdade, Física -, e já adiantando um pouco a história, encontrei, na fila da matrícula, uma caloura interessante. Como vivia no período da vida em que não podemos perder oportunidades, aproximei-me dela e "puxei um papo", como se dizia então. No meio da conversa, perguntei para a moça o que ela pretendia da vida estudando Física. Ela respondeu sem hesitar: - quero ganhar o Prêmio Nobel! Apesar de já estar fazendo mestrado em Astrofísica, foi ali mesmo que desisti. A fama e o reconhecimento, naquele momento, não eram objetivos para mim.

A fama já me incomodava no âmbito familiar. Era difícil conviver com a pecha de "geninho"só porque estudava Física e sabia tudo - ou imaginava saber quase tudo - sobre as estrelas. E não adiantava eu dizer que era o "mais burro" da minha turma. As pessoas criam esteriótipos e vão vivendo e julgando as pessoas com eles. Rótulos. É disso que vivemos.

Claro que havia uma certa vantagem: as mulheres adoravam me ouvir falar de estrelas e outras cositas. Havia sempre uma aura de "ser diferente", o que era um atrativo natural. Como nunca fui um estudante ortodoxo no respeito a aceitar apenas o método científico como única forma de obter conhecimento, admitia conhecer as outras formas de ver o universo. Assim, dedicava-me a estudar mitologia e a representação das constelações; estudava astrologia e a representação da influência dos astros na vida das pessoas. Um sucesso, poderia dizer. Não há nada de mais romântico do que uma noite de céu estrelado acompanhado de histórias sobre personagens e suas estrelas.

- Olha lá, meu anjo, estás vendo aquelas três estrelas, uma ao lado da outra? Pois bem, elas formam o cinturão de Órion. Órion era um caçador... E assim contava como Órion e Escorpião, por castigo de Zeus, jamais se encontrariam no céu. Quando um estivesse nascendo, o outro estaria no seu poente.

Ante a possiblidade de ser "famoso", decidi ser um ilustre desconhecido. E ainda hoje sigo me perguntando: o que fiz de útil para a vida, além de colocar duas lindas mulheres no mundo?

Será interessante para quem ler? Não sei. Talvez alguns momentos possam despertar sentimentos de aproximação, pelo relato de experiências similares; em outros, de afastamento, pela total inutilidade da leitura. No mais das vezes, creio, há de despertar indiferença. Indiferença que uma vida desconhecida, e quiçá inútil, costuma despertar em nós.

Qual o fio condutor da história? O tempo cronológico, quando nasci, onde morei, o que fiz? Eventos marcantes de cada fase? Apenas situações importantes? Nada disso. Será o caminho do conhecimento e da experiência. O caminho que me fez partir das estrelas até chegar no homem. E, quem sabe, do homem à humanidade, nos próximos 30 anos que espero que me restem.

Há, implícito, na história toda desse desconhecido, um caminho de descoberta que se inicia no macrocosmo e termina na finalidade da vida, o ser humano, que é quem é, ao final das contas, o único que percebe a vida tal qual ela é: eu!

Alguém poderá dizer: - mas, Afonso, a vida existe e continua mesmo que tenhas morrido!

Será? E o que dizer das estrelas que vemos no céu, que nada mais são do que imagens de algo que já "morreu" há muito tempo? E, no entanto, a elas damos vida como se vida tivessem?

Empreitada

| | Comments (9)

Pois é,

"Quando observamos o desenrolar de uma vida humana, vemos que o destino de alguns e mais determinado pelos objetos de seu interesse e o de outros mais pelo seu interior, pelo subjetivo. E, como todos nós pendemos mais para este ou aquele lado, estamos naturalmente inclinados a entender tudo sob a ótica de nosso próprio tipo.

Mas é difícil, muitas vezes, descobrir em qual tipo se enquadra alguém, sobretudo quando se trata de nós mesmos. O julgamento sobre a própria personalidade é sempre muito confuso. Essas confusões subjetivas de julgamento são muito numerosas, porque a todo tipo mais declarado corresponde uma tendência especial a compensar a unilateralidade de seu tipo, uma tendência que tem seu conveniente biológico, pois luta por manter o equilíbrio psíquico". (itálico no original) (C.G.Jung, in Tipos Psicológicos) .

Jamais havia imaginado que, depois de velho, despertaria um interesse pela Psicologia, mais especialmente os aspectos relativos às questões da motivação e do comportamento humano. Logo, pela personalidade.

Na Administração, fala-se e escreve-se muito sobre motivação e comportamento organizacional. Pelo que tenho visto, não passam de meros "resuminhos" para vender livros. Há que beber direto na fonte.

Pois estamos, então, a caminho das fontes.

About this Archive

This page is an archive of entries from dezembro 2006 listed from newest to oldest.

novembro 2006 is the previous archive.

janeiro 2007 is the next archive.

Find recent content on the main index or look in the archives to find all content.