Pois é,
Arma-se, no momento em que começo a escrever este post, uma tempestade aqui em Porto Alegre. Depois de um dia em que a temperatura atingiu os agradáveis 36 graus, assisto, do terraço, a passagem de um dos fenômenos mais bonitos e intrigantes da natureza.
Lembrei-me da historia do "Soldadinho de chumbo". Há nela uma tempestade e altas temperaturas. E também é uma das histórias de terror que mais marcaram minha infância. Deviam recomendá-la ao Index. Queimá-la na fogueira, assim como Hans C. Andersen fez com seu personagem ao atirá-lo na lareira.
"O soldadinho de uma perna só, como de costume, era o último da fila.
De repente, a janela se abriu, batendo fortemente as venezianas. Teria sido o vento, ou o geniozinho maldoso?
E o pobre soldadinho caiu de cabeça na rua.
O menino viu quando o brinquedo caiu pela janela e foi correndo procurá-lo na rua. Mas não o encontrou. Logo se consolou: afinal, tinha ainda os outros soldadinhos, e todos com duas pernas.
Para piorar a situação, caiu um verdadeiro temporal."
Esse trecho exprime bem o desprezo com que as pessoas normalmente tratavam os deficientes físicos: sempre por último. Inculcava-se, nas crianças, a idéia de que que, não era "completo" não merecia cuidados. Afinal, sempre há os que têm "duas pernas" para tomar nossa atenção.
Não bastasse o desprezo com que o soldadinho era tratado, foi jogado de cabeça janela afora.
TERROR PURO!
E aqui aparece a tempestade para piorar a situação. Não a do soldadinho, mas a das crianças que acabam vendo nela algo muito ruim.
"Construíram um barquinho com uma folha de jornal, colocaram o soldadinho dentro dele e soltaram o barco para navegar na água que corria pela sarjeta. Apoiado em sua única perna, com o fuzil ao ombro, o soldadinho de chumbo procurava manter o equilíbrio."
Muito sonhei com esta cena. E me via, ali, tentando manter o equilíbrio diante da adversidade. Muito cedo para ensinar isso às crianças. Causa um nível de angústia que levamos para o resto da vida.
TERROR PURO!
"Lá pelas tantas, o barquinho foi jogado para dentro de um bueiro e continuou seu caminho, agora subterrâneo, em uma imensa escuridão."
Depois não querem que as crianças tenham medo do escuro!
TERROR PURO!
E os monstros, então? Vejamos isso:
"De repente, viu chegar em sua direção um enorme rato de esgoto, olhos fosforescentes e um horrível rabo fino e comprido"Qual é a criança que não fica a procurar, embaixo da cama, por um rato desses? E por tantos outros monstros?
TERROR PURO!
E chegamos quase ao auge do terrorismo infantil. Uma seqüência inacreditável de puro terror:
"Enfim, o soldadinho viu ao longe uma luz, e respirou aliviado; aquela viagem no escuro não o agradava nem um pouco. Mal sabia ele que, infelizmente, seus problemas não haviam acabado. A água do esgoto chegara a um rio, com um grande salto; rapidamente, as águas agitadas viraram o frágil barquinho de papel. O barquinho virou, e o soldadinho de chumbo afundou. Mal tinha chegado ao fundo, apareceu um enorme peixe que, abrindo a boca, engoliu-o. O soldadinho se viu novamente numa imensa escuridão, espremido no estômago do peixe."
Aprendemos que o pior sempre está por vir, de que as luzes no fim do túnel servem apenas para nos enganar. Aprendemos a ilusão dos "tempos melhores que virão". Crescemos acreditando na esperança. E o que nos acontece? Somos jogados ao fogo:
"O garotinho agarrou o soldadinho de chumbo e atirou-o na lareira, onde o fogo ardia intensamente. O pobre soldadinho viu a luz intensa e sentiu um forte calor. A única perna estava amolecendo e a ponta do fuzil envergava para o lado. As belas cores do uniforme, o vermelho escarlate da túnica e o azul da calça perdiam suas tonalidades..."
Não bastasse o trágico final do soldadinho e ainda temos que assistir à morte da bailarina:
"Naquele momento, a porta escancarou-se com violência, e uma rajada de vento fez voar a bailarina de papel diretamente para a lareira, bem junto ao soldadinho. Bastou uma labareda e ela desapareceu. O soldadinho também se dissolveu completamente."
TERROR PURO!
O que era para ser uma linda manifestação da natureza em forma de tempestade torna-se uma terrível histório de PURO TERROR!









































Eu tambem morria de medo nessa historia. Alias as historias infantis são terror puro!!!
Beijo Afonso, bom te ver!
Criança adora histórias de terror! Sente medo, é verdade, mas os contos são uma maneira de elaborar os medos 'naturais', as culpas inconscientes, as angústias inomináveis... é claro que podemos fazer uma leitura 'políticamente correta', com os antolhos de adulto, em pleno século XXI... sem essas histórias macabras, terrificantes, sem o bicho-papão, o lobo mau e outros monstros, que símbolos seriam utilizados? Talvez um Bush-capeta, um Saddam-Barba Azul... cada um inventa seu fantasma... O post é ótimo e descontrói o enredo do HansChristian... bom PrasCAbeças.
Rapaz, você transformou o Soldadinho de Chumbo, em Jogos Mortais 4!!
Também lembro com angústia o final trágico do soldadinho e da bailarina!
Sensacional abordagem da história!
Ganhou um leitor!
Abraços.
parabéns pelo blog e pelos textos
Bravo!
Ufa, ainda bem que nunca li HCA! Mas é um "humor" típico de dinamarquês, pelo jeito... Sou mais Monteiro Lobato mesmo, graças a Deus!
Eu tinha esse disquinho. E agora lendo, apesar de não lembrar exatamente das palavras, a mesma sensação de angústia e tristeza me veio. Mesmo que tentassem "florear" o final... Realmente. Muito preconceito e uma tentativa de nos apavorar. Na primeira não, mas na segunda, com certeza, comigo conseguiram.
Beijos.
p.s. dormiu bem no tanque???