Tom

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Pois é,


"modo pessoal, singular de realizar ou executar algo; estilo, caráter" (Houaiss)

Por vezes perdemos o tom. Ou pensamos ter perdido, pois o normal é acharmos que temos um.

Um dos grandes efeitos da mudança foi ter perdido o que eu achava ser o "meu tom". Talvez esteja em meio ao monte de coisas que ainda falta arrumar. Ando parecendo com o quadro aí de acima.

Resolvi escutar Rachmaninoff enquanto escrevo. Concertos nos. 2 e 3 para piano e orquestra. E acabo de me lembrar, ou sentir, melhor dizendo, que fazia algo como cinco anos que não os escutava. Pra não dizer que estou falando a verdade cem por cento, dia desses escutei trechos do terceiro concerto ao rever "Bird".

O piano sempre foi meu instrumento predileto. Vou carregar para o outro lado a mágoa de não saber tocá-lo. Não devo ter sido um adolescente muito normal, pois gastava minha mesada em discos. Clássicos e rock. De canto gregoriano a Led Zeppelin, passando por toda a escala da época, final dos 60 e 70.

Quando as grandes bandas de rock começaram a se dissolver, continuei apenas nos clássicos e jazz/blues e, nestes, pricipalmente os piano trios, e solistas tipo Oscar Peterson, de quem tenho todos os LPs e recentemetente adquiri uma coleção de quatro CDs.

Por que falo isso? É a tal da falta de tom. Pensei em falar de política. Mas, adiantaria? Melhor transformar o blog num confessionário.

O primeiro Lp que comprei foi a nona sinfonia do Dvorak, nominada "Do Novo Mundo". E por uma estranha coincidência eu me encontrava em um novo mundo. Estava em Montevideo na minha primeira viagem internacional.

Fui de trem de Porto Alegre a Montevideo, passando por Santana do Livramento, cidade das minhas famílias, de pai e mãe.

Trens me fascinam. Chego a sonhar com eles. E sempre viajei de trem. Nunca me incomodei em levar quase três vezes o tempo que um ônibus levava. E viajava sozinho. Reservava uma cabine inteira só para mim (pagava duas passagens) no carro leito.

Tudo era perfeito naquela viagem. O trem em um país novo. A aproximação de uma cidade nova para rever a recém conquistada namorada uruguaia, que morava em Montevideo. O mundo cheio de expectativas para a realização de um quase final de adolescência.

Época de crer que era possível. Qualquer coisa.

A chegada do trem na estação de Montevideo é uma das recordações que tenho certeza levarei para o outro lado. Ao tom do amanhecer, uma construção no estilo das estações européias, um verdadeiro novo mundo. Foi assim que me senti. E foi assim que continuei a me sentir naquela que diziam ser a "suiça" latino-americana. Uma cidade sem par; um povo sem par.

Foi quando, passeando por uma das tantas galerias, ouvi uma música que simplesmente vestiu-se em mim como minha pele me veste. Senti como se eu tivesse criado aquilo. Era o segundo movimento da sinfonia.

Entrei e comprei meu primeiro LP. Dvorak, Montevideo e eu viramos sinônimos. Sinônimos de um "Novo Mundo"; de um mundo que se iniciava para mim.

Por vezes sinto saudades. Saudades de um novo mundo. Saudades de um tempo que havia tom no mundo. De um tempo em que eu tinha tom. Saudades de sentir saudade.

Que emoções esse mundo nos oferece? Se eu chegar aos oitenta, que escreverei sobre os cinqüenta, assim como escrevo sobre os vinte?

Não há mais trens; não há mais novo mundo, não há mais sentimentos. Temos apenas que sobreviver. Não percebo mais o tempo como percebia naquela época. Aliás, o tempo se foi.

Não vou escutar Dvorak. Certamente vou chorar.

Pensando bem, talvez devesse fazer ambos. Escutar e chorar. Quem sabe não encontro meu tom?

4 Comments

divã, é? ;)

daqui, dos meus 26, o que mais chegou por perto foi "temos apenas que sobreviver". não imaginas o quanto isso, abdicar do tom e dos sonhos, me aflige!

beijos e boa semana!

Adorei seu texto. E enquanto o leu, escuto Gotan Project...

Acho que entendi o tom.
Não me encontro em condição de dar conselhos, mas preciso dizer que o texto está lindo. E enquanto lia estava ouvindo os noturnos de Chopin. Pareceu muito adequado.

Abraço.

Afonso, tenho andado assim como você. Sem mais palavras. Beijocas

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on outubro 8, 2006 12:09 AM.

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