outubro 2006 Archives

Sonhos

| | Comments (7)

Pois é,

A Anita me convida a participar de uma dessas "correntes" que rolam com alguma freqüência pela blogosfera. Claro que ela não sabe que não participo de correntes. Em todos os casos, o tema dessa parece interessante. Falar sobre um sonho possível.

Sonhos fazem parte do meu cotidiano de trabalho. Falmos em sonhos nas organizações. A eles damos o nome de "visão", quando o assunto é planejamento estratégico. Visão, ou sonho, é o que as pessoas, donos ou a alta administração, desejam para o futuro da organização. Dele(s) deriva todo o mais: missão, objetivos, metas, etc. É, ao meu ver, a parte mais importante, pois se a gente não consegue definir onde quer chegar, ou que deseja realizar (sonho), não sei o que estamos fazendo por esse mundo.

Há um problema, no entanto: a vida acaba e com ela os nossos sonhos. Os realizados e os não realizados. Então, para que sonhar?

De certa forma, hoje em dia meus sonhos são poucos e mais "amenos" do que em outras épocas. Nunca fui de sonhar com coisas materiais. Nesse aspecto sou muito simples: nada de carrões, casa na praia, grandes fortunas, roupas da moda, vinhos caros, coisas raras, etc.

Hoje em dia quero apenas paz de espírito. Tranqüilidade. Fazer meu trabalho e poder vir para casa curtir minhas coisas: meus livros, meus discos, a internet, o sol e, principalmente, minha família: mulher e filhas. Todos sem problemas, em paz. Fazer meu churrasquinho, receber os amigos, tomar minha cervejinha, fazer minhas gororobas, pintar...

Mas se tivesse que selecionar um sonho "mais tradicional", diria que é morar em Cumbuco (foto acima), ou em Lagoinha (foto abaixo), que eu prefiro, ambas no Ceará. E esse é um sonho compartilhado com a Kaya. É bem provável que aconteça, pois quando um sonho é sonhado a dois, é um sonho forte, né?


E vou seguir minha tradição, e que a Anita me perdoe, mas não vou recomendar a ninguém especificamente. Se alguém quiser...

Pois é,

Nada como retornar de uma viagem disposto a enfrentar a cozinha. A receita de hoje é do Anonymus Gourmet, um programa local de culinária. Estava no hotel, em Passo Fundo, quando vi a apresentação na televisão. O Chato, como sempre, vai mostrar, passo a passo e com fotos, como se faz esta deliciosa "Torta de Lingüiça".

Primeiro, minha (meu) querid@ leit@r, se você chegou até aqui por uma pesquisa no G@@gle, querendo saber "como fazer para transformar uma mandioca num aparato de uso sexual", desista! Há, no mercado, utensílios bem mais práticos, feitos de plástico e prontos para o consumo. São fáceis de lavar e guardar. Mandioca, apesar da forma, não se presta muito para essa solitária atividade.

Em todos os casos, se a vontade for muito grande, não esqueça de colocar a camisinha na mandioca. Não, não! Não há risco de pegar AIDS. É que ela pode quebrar. Já imaginou o constrangimento se você precisar ir a um pronto socorro e explicar o que aconteceu? Principalmente se você for do sexo masculino!

Enfim, passemos ao preparo. Os ingredientes? Parece óbvio: um quilo de mandioca, pra começar. Os demais estão aí na foto.

Atenção:Como há muitas fotos nesse post, resolvi diminuí-las para facilitar.

- 1 Kg de mandioca

"Mandioca, de nome científico Manihot esculenta, é um arbusto originário dos Andes peruanos. Possui muitos sinónimos, usados em diferentes regiões, tais como aipi, aipim, aimpim, candinga, castelinha, macamba, macaxeira, macaxera, mandioca-brava, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniva, maniveira, moogo, mucamba, pão-da-américa, pão-de-pobre, pau-de-farinha, pau-farinha, tapioca, uaipi, xagala.

Foi cultivada por várias nações indígenas da América Latina que consumiam suas raízes, tendo sido exportada para outros pontos do planeta, principalmente para a África, onde constitui em muitos casos a base da dieta alimentar. No Brasil o hábito de cultivo e consumo continua, com a raiz.

A origem do nome mandioca (manioca) seria de uma lenda Tupinambá sobre a deusa Mani, de pele branca, que encontrou sua morada (oca) na raiz desta planta."1

Viram? O Chato, além de chato, é cultura!!

- 700 g de lingüiça calabresa

Por que chamamos esse tipo de lingüiça de "calabresa"? O Chato conta. Reza a lenda que um dos primeiros imigrantes italianos, Paolo, ao vir para o Brasil, estava em dúvida sobre se trazia, ou não, a chata da sua mulher, de nome Bresa. Bresa não parava de falar no Brasil e no lindo futuro que teriam juntos na nova terra. Certo dia, Bresa exagerou e não parava mais de falar na viagem. Foi quando Paolo pegou a lingüiça que tinha na mão e enfiou na boca da Bresa, dizendo "te cala Bresa, não agüento mais te ouvir!". Daí pra frente, toda vez que alguém precisava mandar a mulher calar a boca, ameaçava com uma lingüiça, dizendo: "olha a calabresa!".

Não falei que o Chato é cultura?

- 1 cebola
- 3 dentes de alho
- 2 tomates
- 2 colheres de extrato de tomate
- meio copo de azeite de oliva ou óleo (já disse uma vez por aqui: larga de ser pobre e passa a usar somente azeite de oliva)
- 3 colheres de azeite de oliva
- meio copo de leite
- 3 ovos
- sal
- 1 tablete de caldo de carne, ou de galinha

Pra modis de perpará a gororoba:

Descasque a mandioca e coloque para cozinhar.

Uma breve consideração "acerca da arte de cozinhar e de como são as mulheres", em dois tomos e cinco volumes. Se você é preguiçoso, desista de ambas. Comidas e mulheres são iguais, quanto mais trabalho no preparo, maior será o prazer depois.

Assim, meus caros, resistam à tentação de comprar aquelas mandiocas já descascadas e embaladas a vácuo. Peguem a mandioca com as mãos e sintam o prazer que é descascá-la. Ops, mudei de assunto!

Deixe a mandioca cozinhar até que esteja bem macia, quase se desmanchando. Coisa chata cozinhar mandioca. Nos programas e nos sites simplesmente te dizem isso: cozinhe a mandioca. Ninguém vai te confessar, a não ser o Chato, que para cozinhar mandioca tem um truque.

- E quanto custa esse truque, Chato?
- Nada, é "di grátis" para os meus seis leitores.
- E qual é?
- Assim ó! Depois que a água ferver, deixa fervendo por aproximadamente mais cinco minutos. Retira a panela do fogo e despeja a água quente na pia. Dá um banho (choque) de água fria na mandioca e coloca novamente no fogo. Simples, né?

Descasque o alho e pique.

- Mas, Chato?
- O que foi agora? Quem é o chato aqui, afinal?
- Eu não gosto de descascar alho!
- Tudo bem, respeito as preferências de cada um. Descascar alho é pra quem gosta. Vá ao super e compre aqueles potinhos com alho descascado e picadinho. É ruim mas serve.

Descasque a cebola e pique bem picadinha. E, por favor, aproveite para chorar. Chore bastante! Chorar é o melhor remédio que nos resta, com esses Poderes que temos no país (mais ainda agora que a Yoda ganhou a eleição por aqui. Sinto que passarei os próximos quatro anos chorando. E nem vai precisar de cebola!). Esse é o grande lançe da arte de cozinhar. Ao chorar cortando a cebola, evitamos passar para a comida todas as nossas mágoas, tristezas, frustrações... sobrarão apenas as alegrias para a comida. Não desperdice a oportunidade. É mais barato que o valor que os psi andam cobrando para ficarem te olhando chorar na frente deles. Vai por mim, entre uma cebola e um psi, opte pela cebola. Você ainda estará contribuindo para o desenvolvimento dos plantadores de cebola de São José do Norte, cidadezinha que, por sinal, fica no sul do RS, apesar do nome.

Viram? O Chato também é Geografia!! E faz orientação de auto-ajuda para os outros nas horas vagas.



Corte o tomate e a lingüiça.

Coloque as três colheres de azeite para esquentar numa figideira de ferro.

- PQP!, quando é que vocês vão se convencer de que a comida preparada em panela de ferro é mil vezes melhor? Esse negócio de teflon é coisa de americano preguiçoso e obeso. Façam as contas comigo: uma panela de ferro custa algo em torno de R$ 60,00. MAS DURA A VIDA TODA!. Uma porcaria de alumínio, custa uns R$20,00 e DURA MUITO POUCO!.

Façam uma pausa e contem quantas panelas de alumínio vocês já compraram na vida? Tenho certeza de que já poderiam ter comprado uma três ou quatro de ferro com esse valor. Invistam na felicidade! Comprem e usem panelas de ferro (panelas, aqui, é termo genérico, serve para frigideiras e demais utensílios que vâo ao fogo).

Claro que panelas de ferro dão um pouco mais de trabalho para conservar. Mas já disse antes: panelas de ferro, comidas e mulheres são iguais: quanto mais trabalho...

Atenção: Dica do Chato para conservar suas panelas de ferro por toda vida (e deixá-las para que seus herdeiros briguem por elas na Justiça: lave-as normalmente. Seque-as no fogo. Não use pano e nem as deixe secando ao ar. Após estarem bem secas, despeje um tanto (não me pergunte o quanto é "um tanto", por favor) de azeite de oliva (larga de ser pobre!) e espalhe bem com um pedaço de papel toalha. Cuide para que todo o interior da panela - inclusive a tampa - fique untado com o azeite. Isso evita a oxidação e conserva a sua panela.

Nesse caso, abri uma exceção para cozinhar a mandioca.

Quando o azeite estiver quente, coloque o alho para fritar. Em seguida, coloque a cebola.

Aqui vai um ácréscimo do Chato, que não consta da receita original: coloque uma colher de Shoyo. Ajuda a quebrar a acidez do tomate. E por falar em acidez do tomate, cresci vendo meus pais cozinhando. Minha mãe era uma cozinheira de mão cheia. Usei o "era" porque, apesar de ainda viva, tadinha, sofre de Alzheimer e sequer lembra mais quem eu sou. Meu pai, já falecido, tomava conta da cozinha aos domingos. Era daqueles conzinheiros que gostava de inventar. Minha mãe ficava de auxiliar para anotar o que ele ia inventando. Adorava fazer massa caseira. Ainda guardo até hoje, 33 anos passados, as formas que ele usava para fazer ravioli.

Tenho comigo os cadernos de receitas da minha mãe. Quem sabe um dia não publico? Um belo título seria "As Receitas da Mamãe". É algo que está se perdendo. O quê? Mamães que saibam cozinhar. O mundo é outro; os tempos são outros. Pena!

É o difícil equilíbrio entre o atual e o "antigo".

Pois foi em casa que aprendi sobre essa tal de acidez do tomate. E até bem pouco tempo ainda usava o truque de colocar uma colherinha de açucar para queimar no óleo. Além de ajudar a escurecer o molho, quebrava a acidez do tomate. Hoje em dia tenho usado o Shoyo. Tem outra coisa que gosto de usar, mas a Kaya não gosta quando uso: o molho inglês.

Interessante como até bem pouco tempo a gente aprendia tudo em casa. Os exemplos. Ah! os exemplos dos pais. Se hoje sei cozinhar e costurar; se gosto de boa música e devoro livros; tudo isso se deve a ter crescido vendo meus pais fazendo o mesmo. Bons tempos esses.

Bueno, seguindo...


Coloque a lingüiça para fritar. Quando estiver pronta, despeje o tomate e as duas colheres de extrato de tomate e misture tudo. Deixe cozinhar em fogo brando.

Atenção: coloque pouco sal, pois o caldo de carne já tem o suficiente.

Quando a mandioca estiver cozida, mantenha a água do cozimento e desmache a mandioca com um garfo até ficar um purê. Assim como na foto:

Coloque os ovos, o azeite, o leite e o tablete de caldo de carne no liquidificador e bata bem. Misture tudo no purê de mandioca. Misture bem até ficar um creme uniforme.

Despeje parte do conteúdo num refratário. Espalhe a lingüiça por cima e cubra com o restante do purê de mandioca. Leve ao forno (previamente aquecido) por mais ou menos 40 minutos.

E, então, bom apetite:


Pra quem não quer se incomodar com a mandioca, pode usar batatas. Fica bom do mesmo jeito. Pra quem gosta de queijo ralado, pode colocar um pouco por cima pra gratinar.

Ficou uma delícia. Comi no sábado e no domingo, acompanhado de um belo vinho branco de garrafão, trazido lá do Vale dos Vinhedos.

1http://pt.wikipedia.org/wiki/Mandioca

O retorno

| | Comments (5)

Pois é,

Não serei chato o suficiente se disser que a serra gaúcha é linda. Nem mais nem menos que qualquer outra. Ao ir de Passo Fundo para Caxias do Sul, resolvi pegar uma estrada alternativa, que não conhecia, e qual a minha surpresa ao ver que ela passava pela parte superior do "Vale dos Vinhedos". Já estive diversas vezes no Vale dos Vinhedos, mas sempre "por dentro". Para quem vem ao RS é um passeio imperdível.

A grande vantagem que temos em Porto Alegre, é o fato de que a serra fica apenas a uma hora de viagem. Para se ter uma idéia, levo meia hora para vir do trabalho para casa, todos os dias.


A foto acima (Vale dos Vinhedos) mostra bem a razão da diferença entre a riqueza da metade norte, se comparada com a pobreza da metade sul do RS. A colonização da serra gaúcha foi uma "forma agrária" (e não reforma) que deu certo. Na metade sul o que vemos são extensas fazendas de gado ou utilizadas para plantação de arroz. Muita terra e poucos donos. No norte? Muita terra e muitos donos.

Só para efeitos de comparação, Carlos Barbosa, uma pequena cidade da serra (fica mais ou menos a 10 Km do local de onde tirei a foto acima), com apenas 22.000 habitantes (portanto, bem menos que os 31.000 de J@guarão), tem uma renda per capita quase igual a renda de 1.657.028 habitantes da metade sul do estado (R$ 22.416 contra R$ 27.524). É muita disparidade. (Curiosidade: o museu de J@guarão chama-se Museu Carlos Barbosa)

Muita terra com poucos donos; muita terra com muitos donos. A agricultura extensiva e a pecuária fazem poucos ricos e muitos pobres.

Por fim, e para efeitos de comparação, uma foto da janela do quarto do hotel em Passo Fundo. Comparem com a de J@guarão.


Pois é,

Retorno hoje a Porto Alegre. Antes, ainda passo por Caxias do Sul.

Esse post foi escrito em maio de 2005. Uma pequena homenagem a mulher e hoje mãe. Lembrei-me dele ao escutar a Condessa chamando "mamãe".


Duas cartas pra mesma pessoa

Pois é, mamãe. Viste? Nem nasci e já estou pegando a mania do “pois é” do papai. Sinto-te feliz hoje e sei a razão. E fico feliz também, pois em breve poderei beijar-te no rosto e não apenas te dar uns pontapés na barriga.

Sim eu sei. Bem sei que gostarias de ficar aqui comigo, tomando uma cervejinha, batendo papo... mas vai, vai descansar. Hoje é teu dia. Não queres? Então fica. Viste? Ela nem nasceu e já te chama de mamãe. Imagina quando puderes escutar isso. Só de pensar fico arrepiado. Desculpa, eu sei que é teu dia, mas eu vou ficar arrepiado quando ela disser “papai”.

Talvez não saibas, mamãe, mas te escolhi. Sim, aqui nós podemos escolher em qual família vamos nascer. E mais, escolhemos qual mãe queremos ter. Alguns decidem que ainda precisam resolver coisas pendentes; outros decidem que é hora de definitivamente abandonar a Terra e partir para outros mundos. Eu não. Eu sei que ainda preciso de ti. Ainda preciso aprender muitas coisas contigo antes de deixar essa Terra. Não para resolver, mas para aprender.

Sabes de uma coisa? Tem momentos em que a gente quase desiste. Aquele dia, lá no Bar do Beto, era um desses dias. Era o dia mais improvável pra nós. Não querias estar lá. Eu fui com o piloto automático. Foste pra ajudar uma amiga; fui simplesmente porque tinha que ir. Era parte do ser assim. Tinha que ser; se não fosse, seria mais uma noite a odiar o mundo. E fui. E estavas lá.

Esperei, mamãe. Tudo acontece na hora certa. Antes não estavas pronta para me receber. Haviam me perguntado se tinha certeza do que estava fazendo. Respondi que sim. Sim, tenho certeza, mamãe está pronta. Durmo contigo; acordo contigo e sinto contigo. Sofro contigo. Sei melhor que qualquer um que estás pronta. Por que eu te escolhi! E se te escolhi é porque, daqui, sabemos o que é ser mãe. E serás a melhor mãe, assim como as melhores mães de tantos quantos nascem na Terra.

Tudo conspirava contra nós. Eu pensando que estavas brigando com a tua namorada. Admite. Pra quem olhava de fora, ver uma mulher abraçada em ti e chorando no teu ombro, pensaria o quê? O que eu poderia pensar? Pensei o que qualquer besta pensaria: vou curar essa mulher. Como pode? Uma mulher tão linda e gostar de outra mulher. É, já te falei do meu lado machista: adoro ver duas mulheres juntas; desde que sejam as dos outros.

E te realizo assim como me realizas. É a vida, mamãe. E não vejo a hora de me sentir no teu colo; de me sentir no teu peito; de me sentir querida como só tu saberás fazer eu me sentir. Por isso és minha mãe.

E tu? E tu que estavas a pensar que minha amiga era minha mulher? Cafajeste, disseste-me depois. Safado sem vergonha! Fica paquerando na frente da mulher. Pobre de mim, não fosse a Clarissa.

Papai, essa parte é minha. Talvez vocês não soubessem, mas fui eu que arranjei tudo.

Opa, peraí! Que história é essa?

É papai. Nós estamos aqui por uma única razão: realizar a mamãe.

Tá, minha filha, mas assim até parece que eu não tenho nada a ver com isso. E tem mais, não eram cartas separadas?

Eram, mas estamos falando a mesma coisa. Mais do que a mesma coisa, estamos falando da minha mãe, a tua mulher.

Mudei de mesa, lembra? Se o perfil já era maravilhoso, o que dirá ficar te olhando de frente. Os olhos. Os olhos mais maravilhosos que já vi. Olhos que tenho até hoje com pano de fundo nos meus computadores (aqui em casa e no trabalho). A imagem mais bonita. Teus olhos no nosso casamento. Não há o que pague ficar te olhando a cada momento. Sou feliz por isso. Se hoje eu sei o que significa chorar de felicidade é por poder olhar a qualquer momento os teus olhos chorando, na foto do casamento.

Naquele dia no bar percebi, no entanto, que algo te incomodava. Deixaste de me olhar. Não me pergunta a razão, mas teu abandono pareceu ser o fim do mundo. Tinha que fazer algo. E fiz. Confessa: foi original, né? Eu sabia! Só algo original estaria a tua altura.

Eu sei, papai, que entendes. Entendes que és e serás meu pai querido. Eu também entendo que amas minha irmã. E venho pra dizer a ela que não vou dividir. Venho para multiplicar nosso pai.
Mais do que te multiplicar, papai, vimos, eu e tu, para multiplicar essa pessoa maravilhosa que é a mamãe. Sabes bem disso.

Sim, minha filha. Sei bem que vens para me ensinar o quanto essa pessoa que escolheste como mãe, e que me escolheu como teu pai, merece tudo. E estava justamente te esperando pra me ajudar. Sozinho não sei se seria capaz, mesmo tendo sido original quando a conheci.

- Papai?
- Sim, minha filha?
- Vamos separar o que escrevemos e mandar pra mamãe como se fossem duas cartas pra mesma pessoa?

A Kaya está de aniversário este mês. No dia certo vou republicar esse post. Pra variar, não será o que de melhor eu poderia fazer por ela. Quem sabe a Clarissa, nos próximos anos, me ensine como fazer.

Pois é,

Esse falava um pouco de mim. A Condessa ainda era um pequeno serzinho de 4,8 cm na barriga da mãe. Março de 2005.

Esse tal de "About Me" aí de cima...

Não sou da área da comunicação (jornalismo, publicidade, etc.); não sou advogado; não entendo de literatura, informática, música e artes em geral. Detesto ficar duas horas sentado olhando pra tela do cinema. Vejo os filmes em casa, deitado. A desvantagem é não poder participar das rodinhas que fazem comentários sobre os filmes. Mas não morro disso. Leio, escuto, vejo e, mal e porcamente, digito. Só! Não sei escrever. Isso já deu pra ver. Ah! Sem esquecer que falo pelos cotovelos. Digo o que tenho que dizer da maneira mais curta e direta. Sofro críticas por isso. Não faço rodeios pra chamar alguém de boçal, imbecil ou seja lá do que for, se é isso que penso. Também elogio sem rodeios. Defendo minhas idéias com unhas e dentes; e por isso, talvez, me chamem de chato.

Penso até que já passei da idade de ter blog. Mas dessa não tenho culpa. Afinal, blog é coisa recente. E não que exista idade para se ter um blog.

Não viajo pelo mundo e nem moro fora do país. Mal e mal vou sobrevivendo nesse clima desgraçado de Porto Alegre – mais até por falta de coragem de ir embora do que por gostar, embora goste.

Sou funcionário público, com formação em Administração de Empresas. Trabalho no ramo, o que é coisa rara na atividade pública de um país que tem gente PhD como “condutor de veículo de deslocamento vertical”.

Se escrever sobre administração e serviço público, perderei os poucos renitentes que ainda me oferecem a oportunidade de um comentário vez por outra. Por outro lado, não levo jeito pra guru de administração. Não nasci americano, não sou psicólogo e não sei vender.

Mas sou feliz. Num país miserável com os índices de analfabetismo e fome batendo recordes, tive e tenho de tudo o necessário; além de seis gatos, uma filha(15), um pimpolho(a) que já está com 4,8cm e, é claro, a mulher, que se não fosse o fato de estar pagando os seus pecados, já teria me deixado. Das duas uma: ou vou morrer cedo e ela já sabia disso, ou pelo jeito a dívida deve ser grande, pois prometeu “até que a morte nos separe”.

Duas coisas me fazem mal e me afastam das pessoas: injustiça e hipocrisia. Elas se alternam no primeiro lugar. Atualmente a hipocrisia está na frente. Até porque anda generalizada. E hipocrisia conduz, necessariamente, à injustiça. Pessoas hipócritas são injustas; o inverso nem sempre é verdadeiro.

Por isso criei o Índice do Chato. Para medir a injustiça e a hipocrisia.

No más, como se diz por aqui, vou levando. Minha cervejinha, meu cigarrinho e, agora, o blog.

Pois é,

Esse foi um dos primeiros post da série "A Culinária do Chato". Por sinal, ando parado nas minha lides gastronômicas...é de março de 2005.


Qual é o meu prato preferido? O purê. Simples assim. Tem a lazanha, mas essa é muito rebuscada, exige todo um cerimonial para comer. Lazanha precisa de convite. Pra comer purê, ninguém te convida. “Vamos fazer uma jantinha lá em casa no sábado?” O mínimo, que esperas, é uma lazanha. Ou qualquer outra coisa, menos purê. Ou, se tiver, fica ali como mero acompanhante.

Preparar uma lazanha é fácil. Difícil é dar o ponto no purê. Tem gente que mistura queijo ralado; outros, claras em neve. Alguns botam no forno; outros fazem recheado. Purê mesmo, aquele só com batata, leite e manteiga, esse é difícil. E por quê? Porque o purê é simples. E coisas e pessoas simples são difíceis. Somos educados para enfrentar desafios, não coisas simples. Achamos todo mundo difícil, a priori. Não acreditamos quando alguém é simples na sua maneira de ser ou de se expressar. Jogamos milhões de adjetivos por cima.

Quando quero recuperar o sentido da simplicidade, faço um purê. As batatas estão cozinhando... mais uma vez tento acertar o ponto. É difícil. E ele? Ele vai me encher de simplicidade por uns dois dias...

Licença que vou comer meu purê. Bom apetite!

Pois é,

Casualmente eu gosto muito desse post. Escrevi em janeiro de 2005.

Somos seis

Somos seis, é o que diz minha mulher.

O Luiz, o Afonso, o Eu Mesmo, o Comigo Mesmo, o Zumbi e o Universo. Cada qual com suas manias. Tem um que só a física quântica consegue explicar, pois só sabemos da existência dele pelos efeitos que causa nos outros, particularmente no Luiz.

Luiz e Comigo Mesmo passam o tempo inteiro conversando. Daí que conseguimos deduzir a existência de Comigo Mesmo. "Tá falando com quem?!!", berra de lá a mulher. Comigo Mesmo, responde o Luiz. É sempre assim. Um a sombra do outro.

Do Luiz ela diz que não gosta. É rigoroso, cheio de nove horas e não-me-toques. Tudo no seu lugar e na sua hora. Lei é lei, ordem é ordem e ambas foram feitas para serem cumpridas. É de pouca conversa, mas Comigo Mesmo consegue arrancar verdadeiros discursos dele. Já os
peguei, certa feita, numa cena hilária: um mandando o outro calar a boca. Só pararam quando Eu Mesmo interrompeu dizendo que assim acordariam o Zumbi.

O Zumbi é o embaixador plenipotenciário de todos os demais. É convocado quando a turma não quer saber de sair da cama. "Acorda Zumbi e vai trabalhar, que hoje não saio daqui nem pra buscar uma SKOL na geladeira!!!", dizem os preguiçosos. Coitado, passa o dia como se
estivesse em outro mundo. O que não deve ser boa coisa para os que são obrigados a passar o dia com ele. Por sorte não é muito comum ele aparecer, pois parece que os demais fazem uma escala. Assim, sempre tem um que acaba leventando e cumprindo com a vida.

Mas falei de Eu Mesmo, né? Pois Eu Mesmo é o mais maniático de todos. Egocentrista, acha que tudo existe por causa dele. Quando alguém pergunta "quem fez isso?", Eu Mesmo, responde ele. Só fica quieto quando se apercebe, a tempo, de que o resultado do feito não foi
bom. O que é muito raro - ele se aperceber - pois rapidinho em dar respostas como é, sempre acaba metendo as mãos pelos pés. Quem escreveu errado isso? Eu Mesmo.

Ah! Mas temos algo de bom! Isso mesmo. Temos o Universo, que pensa que é a encarnação da perfeição. Sempre tem razão, em tudo o que diz e faz. Os outros só existem por um descuido. O Universo é cheio de paciência, pois tem que aturar as coisas sem razão que os outros dizem. Onde chega, preenche todo o espaço. Também, não fora assim e não seria chamado de Universo.

Em meio a seus irmãos vive e convive o Afonso. É ate um bom sujeito. Cidadão, trabalhador, pai de família, esposo amantíssimo (essa foi soprada pelo Luiz, que dentre outras coisas adora expressões empoladas). Tem lá suas manias, algumas aprendidas com Eu Mesmo; de quando
em vez ("cala a boca, Luiz!". Eu não tinha razão? Esses dois vivem brigando!!) escorrega e se aventura a achar que tem razão. O Universo tem muita influência sobre o Afonso. Mas é esforçado e, por isso, não se dá muito bem com o Zumbi. Adora ajudar os outros. Sempre que pode ou mesmo quando não pode.

Somos seis, diz a minha mulher. Só não sei se fico com pena dela ou se a felicito. Afinal, não é todos os dias que se casa com o Afonso e se leva mais cinco de brinde.

Pois é,

Saio agora para Passo Fundo. Vou reprisar, durante a semana, alguns dos meus primeiros posts, do tempo do blogspot.

Esse foi escrito numa das minhas primeiras viagens a Passo Fundo (a quarta), em abril de 2005.

Carta

Amantíssima,

Espero que esta te encontre na mesma graça que havia quando parti: plena de saúde e de felicidade. Devo admitir, no entanto, que partilho da saudade que deves estar sentindo, pois o mesmo sentimento em mim se avoluma.

A viagem foi ótima. Como sabes, prefiro o caminho do meio, embora seja um pouco mais longo. Tem menos movimento, menos caminhões, sem falar que a paisagem é imensamente mais bonita. É uma estrada calma, tranqüila, o que torna a viagem segura, pois é impossível sentir vontade de correr. A subida da serra serpenteia o Vale do Taquari e lembro-me de ti a cada curva sinuosa, pois sei que enjoas em estradas com muitas curvas. Mas devo dizer-te, que, nesse aspecto, essa estrada é uma perfeita representação de como a engenhosidade humana pode se aliar a natureza: as curvas acabam por pertencer às montanhas; dão-nos a impressão de estarmos caminhando por trilhas feitas na mata.

Ao início passamos por uma linda ponte de pedra sobre o Rio Taquari, na pequena e graciosa Muçum, suporte que foi um dia dos trilhos que levavam os trens para as cidades do planalto central. Fico a lembrar das nossas viagens de Maria Fumaça para passeios no pequeno pedaço da Itália que temos aqui no Estado. Lembra das vezes em que colocavas, perigosamente, a cabeça para fora da janela, ignorando os avisos de que as pontes metálicas poderiam deixar-te sem cabeça? E que eu dizia aos guardas que não ficassem preocupados, pois nunca havia visto alguém perder aquilo que não possuía? Se pudesses ver-me agora, verias que estou rindo, tanto quanto ria ao ver o olhar de espanto que se traía na face dos guardas. É uma pena que hoje não se possa mais fazer passeios como aqueles. Asfalto, caminhões e loucos correndo, como se dez minutos a mais para chegar fosse torná-los mais felizes. Felizmente essa estrada ainda está livre disso. Dos loucos.

O viaduto 13, em Vespasiano Corrêa. Um dos mais antigos e lindos viadutos do Estado. Vale a pena desviar-se alguns quilômetros do caminho só para vê-lo. Próximo a Guaporé, um belvedere descortina o horizonte em meio à serra. Perde-se a vista diante de tanto verde. É parada obrigatória. Recarrega as baterias, como dizem hoje em dia. Faz-nos lembrar que há algo mais nessa vida do que o que vemos nos jornais e na televisão. Em noites claras, de céu aberto e límpido, é possível ver as luzes de todas as cidades da serra gaúcha, cintilando e fazendo coro com as estrelas. Impossível correr nessa estrada, como disse.

Nosso maldito inverno manda seus mensageiros avisar que está próximo. Faz frio por aqui. Talvez nem tanto, se olharmos para o termômetro, mas me conheces: qualquer valor abaixo de 25 graus provoca-me arrepios. Por sorte tenho seguido teus preciosos conselhos e trouxe o pullover que carinhosamente deixaste dobrado em cima da cama.

Já te disse, anjo, que de todas as cidades do interior do nosso Estado, a única pela qual trocaria nossa amada Porto Alegre, era Passo Fundo. E bem sabes que tenho conhecido inúmeras cidades, nessas minhas andanças. Confesso que nunca entendi a razão de tal sentimento. Pois não é que hoje, ao entrar na cidade pela quarta vez, descobri, assim por acaso, a razão? Talvez o outono tenha dado a ela um toque inigualável. É que, de todas as cidades, Passo Fundo é a que mais se parece com Porto Alegre. Chega a confundir-se com um bairro qualquer de Porto Alegre. É esse o sentimento que tenho, o de estar em casa. E só não é completo porque não estás aqui comigo.

Bom, minha querida, devo resguardar-me, pois amanhã, as razões que aqui me trouxeram deverão preencher meu dia.

E como estão nossos filhos? Joseph Afonso segue bem as instruções que deixei para que te cuide sem descanso? Naná tem dormido contigo? E os meninos? Aprontam muito ainda? Cuida bem do tesouro que carregas. E lembre-se: não te esforces mais do que o necessário. O que poupares hoje, será a energia do nosso filho amanhã.

Do sempre teu,


- Afonso!!!
- Hummmm.
- Afonso, acorda! Tá na hora!
- Hein? Que tu estás fazendo aqui?
- Como assim, o que estou fazendo aqui! Eu durmo nessa cama todos os dias. E levanta logo, que tens que viajar para Passo Fundo!
- Ãnnnhhhh???

J@guarão - II

| | Comments (5)

Pois é,


Aqui termina, ou começa, a BR 116

J@guarão bem pode ser o bairro de Fortaleza onde a BR 116 oficialmente começa. Afinal, são 31 mil e poucas pessoas. Nada mais que um pequeno bairro de uma grande cidade. Ambos muito pobres.

Sintomático: a rodovia que atravessa o país começa na pobreza e termina na pobreza. Percorrer a BR 116 significa ir do nada a lugar nenhum.


Vista da cidade

Representativo da pobreza é a desativação dos trilhos do trem, que antes faziam a ligação entre Brasil e Uruguai, atravessando a ponte. O lado uruguaio é mais pobre ainda. Fizeram um "free shop" que nada mais é do que meia dúzia de lojas onde se vende principalmente eletrônicos, bebidas e perfumes. Tudo muito barato nesses tempos de dolar a dois e pouco. Nem mesmo roupas de lã, que já foram o carro chefe das vendas uruaguaias, vale a pena comprar. A serra gaúcha fica muito mais perto e tem produtos de altíssima qualidade.

J@guarão é quase toda tombada, o que dificulta a construção de novas casas e prédios (aliás, desses só vi um). Os poucos ricos, fazendeiros (gado e arroz) não devem estar nem aí pra cidade.


Vista, a partir da janela do quarto do hotel, da Igreja Matriz.

Se por um lado eles cuidam das casas com a chamada arquitetura Eclética, um interessante período da história da cidade (época em que J@guarão foi um acampamento militar) encontra-se totalmente abandonado. A Enfermaria Militar é o único prédio que resta dessa época. E pelo jeito não vai durar muito...


Ruínas da Enfermaria Militar.

Bueno, da pobreza vou para a riqueza. Segunda-feira vou a Passo Fundo, uma das cidades que mais se desenvolve no RS. Talvez um dia me dedique a estudar as razões que levam uma cidade a crescer enquanto outras permanecem na pobreza.

J@guarão

| | Comments (4)

Pois é,


Me vou lá pras bandas do Uruguai. Bem ali, na fronteira, em J@guarão. Dizem ser uma cidade simpática. Segundo esse texto que encontrei na internet,

"J@guarão tem mais de 800 prédios antigos com suas fachadas conservadas. As suas portas, todas trabalhadas e originais, vêm sendo uma atração que tem atraído não apenas brasileiros mas também uruguaios e argentinos.

As ruínas da Enfermaria Militar, o Teatro Esperança (o terceiro do Estado), o Mercado Público e o prédio do antigo Fórum, estão tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico do Rio Grande do Sul.

Na Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, os altares foram esculpidos a mão. Do Parque Fernando Ribas, no Centro da Pólvora - e onde estão as ruínas da Enfermaria Militar -, há uma vista panorâmica de toda a cidade, do Rio J@guarão (que delimita a fronteira com o Uruguai) e da vizinha cidade uruguaia de Rio Branco.

As duas cidades são separadas pelo Rio J@guarão e a comunicação entre elas se dá através da Ponte Internacional Mauá, inaugurada em 1930 e uma das maiores obras da fronteira. Outro ponto turístico de J@guarão é o Museu Carlos Barbosa."


parece ser interessante. Como vou trabalhar, talvez não tenha tempo para ver tudo. Pena.

Pode ser que, ao menos, dê tempo de atravessar a ponte e fazer umas comprinhas no free shop de Rio Branco (Uruguai).

Um lugar interessante deve ser o ponto onde termina a BR 116. Já estive onde a rodovia começa, em Fortaleza.


Foto da ponte em www.inema.com.br

Pois é,


Fazendo pose na cadeira do papai...

Foi sexta-feira (13) passada. Nesse dia a Condessa completou um ciclo de vida e tornou-se independente: começou a andar. Definitivamente. Não mais pequenos ensaios com apoio. Anda solta pela casa... e nós atrás.

O vocabulário é enorme: mamãe, papai, papa (comida), nenê, gol (que é como ela chama a bola), luz, água, lua, naná (nome genérico para todos os gatos).

Quem tem filhos deve lembrar-se dessa fase. É puro prazer!

Tom - III

| | Comments (4)

Pois é,


Se me fosse dado o direito de sentir saudades lá do outro lado, e se me perguntassem do que eu sentiria saudade, responderia, sem dúvida alguma, da música.

Certo, certo. Não resisti e acabei escutando a Nona Sinfonia do Dvorak. Mais precisamente o segundo movimento, um "largo".

Precisava dessa paz.

É de se ouvir de olhos fechados e no escuro. É um misto de sentimentos. Melancolia, saudade, elevação, alegria, medo, perplexidade diante do novo, de um novo mundo que se abre diante dos nossos olhos, como que a pedir para ser arriscado, aventurado, provado.

Há um breve trecho que faz sentir como se estivéssemos numa transposição. No exato momento em que descobrimos o fim da juventude. Um momento de súplia. de súplica por um fim bem sucedido para nossa viagem. Imagino que Dvorak tenha se lembrado, ao escrevê-lo, do momento exato em que, no mar, percebeu que a viagem não teria mais volta. Não, ao menos, naquele momento.

E ao mesmo tempo que desperta o medo, desperta o desejo de seguir em frente. E há outro trecho que expressa júbilo. Alegria pela chegada próxima. Expectativa diante da grandeza do destino que nos espera, ou pensamos nos esperar.

Enfim, é o movimento da juventude. Da juventude íntima que todos tivemos - e que deveríamos ter ainda. Não da juventude expressa, exterior; daquela juventude do rock, da pauleira, da balada, da inconseqüência; mas da juventude que sofre, que tem medo, que deseja mas não pode; que se vê forçada a crescer e a se tornar adulta; que finalmente descobriu que ser adulto é abandonar a paz. Da juventude que por fim descobre que viver é um sempre lidar com frustrações, com desilusões. Que viver é um sempre procurar nas pequenas realizações a grande razão de viver.

E isso dói. E temos medo da dor! E temos medo de ter medo. Mas somos adultos, e adultos não devem sentir medo. Não é isso que nos ensinam e que ensinamos para nossos filhos? Nos ensinam que a juventude é uma fase que deve ser passada o mais rápido possível e com o menor trauma, pois nosso objetivo na vida é sermos adultos. E adultos suportam a dor e enfrentam seus medos.

Dvorak trouxe - ao menos para mim - nesse movimento, a paz necessária para a juventude. E vez por outra é necessário escutá-lo. Fechar os olhos e mergulhar na ilusão de que podemos dominar esse novo mundo, de que podemos dominar nossos medos e, finalmente, ter paz.

Por isso sentiria saudades da música, pois é na música que encontramos a vida!

Uma pequena lágrima escorreu. E foi o que deixei acontecer dessa vez. Não por falta de vontade; não por medo. Mas por pura falta de coragem de sentir paz.

Tom - II

| | Comments (9)

Pois é,

Não recordo se já escrevi isso por aqui - e tão pouco vou reler meus arquivos -, mas um dos meu hobbies preferidos é a culinária, ou gastronomia, segundo os politicamente corretos.

Coleciono, ao longo desses mais de 40 anos, receitas de tudo quanto é tipo de publicação. Compro livros de culinária. Devo ter algo como cinco mil receitas. Um dia ainda me aposento e organizo tudo. Me aguardem!!!

Mas se há algo que me falta é tempo para cozinhar. Já fui doceiro, pasmem! (tem dias que mesmo eu fico pasmo com essa experiência). Fazia sobremesas para eventos, restaurantes e festas. Por quase dois anos vivi disso.

Tive até a receita de um doce meu publicada1 no "Caderno de Gastronomia" da Zero Hora (infelizmente o jornal do RS mais conhecido). Chamei-o de "Taças Ale", em homenagem a uma namorada (de apelido era Ale), que sujeriu a mistura de alguns ingredientes. E é, até hoje, minha sobremesa de maior sucesso nas festas.

Queria ter mais tempo para recuperar o meu tom culinário. Cozinhar, seja doce ou salgado, é, das manifestações humanas - e segundo o meu entendimento, que me permitam deixar isso bem claro -, uma arte.

Não é para menos que o slogan da minha empresa era "Doce Arte. Arte em Doce!", e chamava-se "Mozart". O logotipo é o da figura que inicia este post2 Eu mesmo o fiz. Cordas de violino sobre um ovo. O simbolismo do ovo como início de tudo; o simbolismo da vida como cordas que pulsam. A representação, melhor dizendo, a transformação do início no eterno pulsar que é a vida. Porque a vida há de ser eterna.

Captar a essência da natureza num doce. Esse era o meu propósito. Ter a capacidade de transmitir, para quem estivesse saboreando - PRAZER.

E há algo que até hoje guardo como aprendizado dessa época: prazer só se transmite com prazer. E comida é algo perfeito para isso. De todos os doces (e quando falo em doces, entenda-se comida em geral), o aparentemente simples e prosaico "creme" foi o que mais me ensinou a arte da transmissão.

Fazer um creme requer mais do que mão; é necessário carinho e paciência. É no mexer constante que transmitimos o que somos. Estamos ali, sozinhos, nós e a panela. O que pensamos e sentimos transmite-se para nossa mão; da nossa mão para o creme; do creme para a boca de alguém. E aqui entra o famoso "ponto".

Este "pensar" é de fundamental importância para o "ponto". Se aproveitar a ocasião para pensar nos meus problemas, estarei transmitindo "problemas" para quem comerá o doce.

Doces, mais que salgados, transmitem a alma de quem os faz. E por quê? Porque nos salgados temos, em certa medida, como resolver. Nos doces não!

Não é por outra razão que as pessoas terminam suas refeições com doces, com "sobremesas". E sobremesas eram a minha especialidade. Peça para alguém definir um restaurante. Há de dizer: "comida maravilhosa, mas a sobremesa...". Conforme o que ela disser, terá voltado ou não; recomendará ou não o tal de restaurante.

Uma confissão:

Não como doces! Nada que tenha açucar. Doces me dão azia!!!

- Mas, Afonso, que história é essa de dizer que faz doces e não come doces? Como é que pode alguém que detesta doces fazer doces?

Explico! Minha experiência mais dolorosa foi com um musse de café com amêndoas. Detesto café. Adoro o cheiro do café. Sempre pensei que a alma do café estava no cheiro e não no sabor.

E com licença: cheiro e sabor nem sempre são a mesma coisa! Embora um nos diga muito sobre o outro.

Pois bem, um belo dia resolvi me aventurar na alquimia do musse de café. E por falar em alquimia, talvez esteja aí a grande transformação buscada pelos alquimistas: o ouro do paladar!

Mas voltando, deparei-me com a aventura de provar o que acabara de fazer. Primeira - e psicológica - sensação: vou vomitar essa porcaria!

Foi nesse momento que se consolidou a experiência: "ora, eu fiz com carinho; logo, por mais que eu deteste café, o que esse doce vai me transmitir só pode ser carinho!" E não deu outra. Virei fâ do meu próprio musse de café, apesar de continuar a detestar café e de adorar o cheiro de café.

1Ainda não achei o jornal para copiar.
2Ainda não achei o logo para copiar.

Tom

| | Comments (4)

Pois é,


"modo pessoal, singular de realizar ou executar algo; estilo, caráter" (Houaiss)

Por vezes perdemos o tom. Ou pensamos ter perdido, pois o normal é acharmos que temos um.

Um dos grandes efeitos da mudança foi ter perdido o que eu achava ser o "meu tom". Talvez esteja em meio ao monte de coisas que ainda falta arrumar. Ando parecendo com o quadro aí de acima.

Resolvi escutar Rachmaninoff enquanto escrevo. Concertos nos. 2 e 3 para piano e orquestra. E acabo de me lembrar, ou sentir, melhor dizendo, que fazia algo como cinco anos que não os escutava. Pra não dizer que estou falando a verdade cem por cento, dia desses escutei trechos do terceiro concerto ao rever "Bird".

O piano sempre foi meu instrumento predileto. Vou carregar para o outro lado a mágoa de não saber tocá-lo. Não devo ter sido um adolescente muito normal, pois gastava minha mesada em discos. Clássicos e rock. De canto gregoriano a Led Zeppelin, passando por toda a escala da época, final dos 60 e 70.

Quando as grandes bandas de rock começaram a se dissolver, continuei apenas nos clássicos e jazz/blues e, nestes, pricipalmente os piano trios, e solistas tipo Oscar Peterson, de quem tenho todos os LPs e recentemetente adquiri uma coleção de quatro CDs.

Por que falo isso? É a tal da falta de tom. Pensei em falar de política. Mas, adiantaria? Melhor transformar o blog num confessionário.

O primeiro Lp que comprei foi a nona sinfonia do Dvorak, nominada "Do Novo Mundo". E por uma estranha coincidência eu me encontrava em um novo mundo. Estava em Montevideo na minha primeira viagem internacional.

Fui de trem de Porto Alegre a Montevideo, passando por Santana do Livramento, cidade das minhas famílias, de pai e mãe.

Trens me fascinam. Chego a sonhar com eles. E sempre viajei de trem. Nunca me incomodei em levar quase três vezes o tempo que um ônibus levava. E viajava sozinho. Reservava uma cabine inteira só para mim (pagava duas passagens) no carro leito.

Tudo era perfeito naquela viagem. O trem em um país novo. A aproximação de uma cidade nova para rever a recém conquistada namorada uruguaia, que morava em Montevideo. O mundo cheio de expectativas para a realização de um quase final de adolescência.

Época de crer que era possível. Qualquer coisa.

A chegada do trem na estação de Montevideo é uma das recordações que tenho certeza levarei para o outro lado. Ao tom do amanhecer, uma construção no estilo das estações européias, um verdadeiro novo mundo. Foi assim que me senti. E foi assim que continuei a me sentir naquela que diziam ser a "suiça" latino-americana. Uma cidade sem par; um povo sem par.

Foi quando, passeando por uma das tantas galerias, ouvi uma música que simplesmente vestiu-se em mim como minha pele me veste. Senti como se eu tivesse criado aquilo. Era o segundo movimento da sinfonia.

Entrei e comprei meu primeiro LP. Dvorak, Montevideo e eu viramos sinônimos. Sinônimos de um "Novo Mundo"; de um mundo que se iniciava para mim.

Por vezes sinto saudades. Saudades de um novo mundo. Saudades de um tempo que havia tom no mundo. De um tempo em que eu tinha tom. Saudades de sentir saudade.

Que emoções esse mundo nos oferece? Se eu chegar aos oitenta, que escreverei sobre os cinqüenta, assim como escrevo sobre os vinte?

Não há mais trens; não há mais novo mundo, não há mais sentimentos. Temos apenas que sobreviver. Não percebo mais o tempo como percebia naquela época. Aliás, o tempo se foi.

Não vou escutar Dvorak. Certamente vou chorar.

Pensando bem, talvez devesse fazer ambos. Escutar e chorar. Quem sabe não encontro meu tom?

Declarações

| | Comments (5)

Pois é,


É isso que fazem com o funcionalismo.

Declaração do candidato a vice na tal chapinha s@cial dem@crata:

Mas o que leva mesmo a receita estadual ao caos é a folha dos servidores. Ela consome mais de 50% de tudo o que se arrecada do contribuinte. Como disse P***o A****o F***ó, “a sociedade sustenta 5% da população – o funcionalismo”. ( P.A.F., em 9/12/05.)
Fonte: http://www.al.rs.gov.br/ag/clipagem)

Depois eu comento!

Pois é,


Martelada! Tem coisas - e algumas pessoas - que só na base da martelada. Pois daqui pra frente será assim por aqui. Martelada na candidatura da tucanada. E, por certo, não vou escrever o nome dela - ou do partido, que é o mesmo do candidato de oposição para presidente - por aqui. Não quero "O Chato" na boca do G@@gle, naquelas pesquisas infames.

Campanha é isso aí. Martelada neles.

Não sou formador de opinião e sequer "cientista político" (particularmente, acho uma das maiores charlatanices que o século XX inventou); menos ainda tenho audiência, fora meus seis tradicionais leitores. Mas vamos lá.

Pois é,


Saco!

About this Archive

This page is an archive of entries from outubro 2006 listed from newest to oldest.

setembro 2006 is the previous archive.

novembro 2006 is the next archive.

Find recent content on the main index or look in the archives to find all content.