Pois é,
Novamente a copa. As copas representam uma evolução.
Em 1958 tinha apenas um ano e, por óvbio, sequer me lembro. Morava no Rio de Janeiro.
Em 1962, apesar dos recém completados 5 anos, as lembranças são poucas e talvez confundam-se com o conhecimento adquirido posteriormente. Morava em Brasília.
Em 1966 as lembranças já são claras, pois estão associadas a primeira "derrota" da vida. Lembro-me, sobretudo, da sensação - nova, diga-se de passagem - do que seja não conquistar algo desejado. Era o esperado "tri". Morava em Porto Alegre.
Em 1970 - já contei aqui - quase fiquei cego por causa de um rojão. Mas foi o tri. Incomparável. Em todos os sentidos, pois também foi uma época de tudo: aos 13 anos iniciei-me em todos os vícios da vida. Fumar, trepar, beber, matar aulas... e pela primeira vez, também, realmente "curti" uma Copa do Mundo. Morava em São Luiz Gonzaga (cidade das Missões Jesuíticas, no RS).
Quatro copas, quatro cidades. Vitórias e derrotas. Não é fácil suportar tantas mudanças em tão pouco tempo de vida. Assim como a cada copa tínhamos um time diferente, a cada copa eu devia abandonar os amigos feitos na copa anterior e jogar-me, tal qual a seleção, em novas conquistas. Assim formei o que chamam de "personalidade". Mutável, adaptável, flexível, (in)felizmente por vezes desapegada. saudosa das conquistas.
Foi ruim. Tornou-se fácil conquistar e, logo, descartar as conquistas. Quaisquer que fossem. Desafios viraram o maior vício. Vencê-los era fácil. Difícil era manter.
Foi bom. Desenvolveu a força para enfrentar qualquer coisa. Cresci sem medo dos desafios da vida. Cresci sem esperar que outros fizessem o que era necessário ser feito. Quando se é novo numa cidade não se pode esperar que as pessoas venham te procurar. É necessário procurá-las sem medo.
Em 1974, primeira copa sem meu pai. Talvez não saiba, ainda hoje, se isso significa alguma coisa. Ao menos é um marco a ser lembrado. A vã esperança de um tetra; a vã esperança dos brasileiros, tão bem captada pelas novelas globais, de que tudo sempre acaba bem. Morava em Porto Alegre pela segunda vez.
Em 1978, a copa da ilusão. A mesma ilusão que embalava o meu sonho de ser um grande cientista. Daqueles de ganhar o Prêmio Nobel de Física. O sonho durou um pouco mais que a copa. Até descobrir que, como na copa, os sonhos podem ser desfeitos por uma "mãozinha" indevida.
Em 1982, a copa da esperança. A esperança do casamento. Mais tarde viria a saber que seria apenas o primeiro. Fui morar sozinho pela primeira vez. Casei pela primeira vez. Quem disse que aos 13 se faz tudo pela primeira vez? Eu? Engano. Todos os dias fazemos coisas pela primeira vez. A vida é feita de "primeiras vezes" a todo segundo. O melhor time depois de 70. Imbatível, assim como deveria ser o casamento. Morava em Porto Alegre.
Em 1986, a copa da separação. O Brasil separou-se, definitivamente, da ilusão de que o passado é suficiente para ganhar o presente. O casamento acabou. Larguei, também e definitivamente, a Globo e tudo o mais que representasse a criação de ilusões; tudo o que representasse uma realidade que não era a minha. Morava em Santana do Livramento, em trânsito de volta à Porto Alegre.
Em 1990, confesso que foi uma copa em brancas nuvens. Não como eu gostaria que tivesse sido o segundo casamento, já em curso. Nesse momento em que escrevo sequer me lembro do que aconteceu naquela copa. Sei que não ganhamos. Tavez não me lembre de nada por ter sido o ano de nascimento da Fernanda. Era dela a bola da vez. Ela ganhou a copa. A minha copa. Morava em Porto Alegre.
Em 1994, novamente a copa da separação. A segunda separação. O Brasil ganhou a copa. Eu pensei ter perdido a minha. Difícil separar-se dos filhos. Era necessário, no entanto. Ano de uma nova faculdade. Morava em Porto Alegre.
Em 1998 estava sozinho. Fazia parte daquele grupo de pessoas que adorava assistir aos jogos com os amigos, seja num bar ou na casa de algum deles. A vida de re-solteiro anda a tal ponto que sequer fiquei triste com a derrota do Brasil. Nada que umas e outras, sem compromisso, não resolvessem. E não eram cervejas.
E veio 2002. A copa da reconstrução. Para o Brasil o penta, para mim o tri. Inesquecível. Jogos de madrugada. Acordar ao ladinho da Kaya e assistir aos jogos na cama e juntinhos é algo impagável, como impagável foi o penta. Se de algo valeu essa vida o foi pela copa de 2002. Ou terá sido pela Kaya? Morava em Porto Alegre.
E chego a minha 13ª Copa do Mundo. E o ciclo recomeça. A Fernanda nasceu em ano de copa; a Clarrissa nasceu em ano de copa. Em 1990 assisti a copa com a Fernanda no colo; hoje assisto a copa com a Clarissa no colo.
Treze copas, cinco cidades, três casamentos e duas filhas.
É, pelos números, parece que minha vida é feita de copas!









































Gostei da analogia. Parece que 'tô indo no mesmo caminho. Ha ha ha. Falta muito ainda p'ra lhe alcançar...
Sensacional essa retrospectiva!
E obrigada pelos parabéns. :)
bem sabes que não sou chegada à copas... mas com essas me emocionei! principalmente pelas tuas meninas no colo...
e faço coro à Cris e ao Edu. :)
beijos!
E viva a Croácia!
Foram várias copas cheias de histórias. Espero que você curta a desse ano também. Beijocas
eu sou menos romântica que você, pra mim copas do mundo são um suplício! só não é pior que carnaval porque só acontece de 4 em 4 anos... :o( bjs
"Copas" e "damas", não????