abril 2006 Archives

Utopia - V

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Pois é,

Por que um post citando um trecho de Adam Smith (post anterior)?

Primeiro, porque foi há exatamente 230 anos que o livro foi lançado. Em 1776.

Segundo, porque segunda-feira comemora-se (se é que há algo para comemorar) o dia do trabalhador, no Brasil.

Terceiro, porque, apesar do tempo, continua atualíssimo.

Quarto, porque, embora pouco comentado, esse trecho representa um "arrependimento" de Smith.

Ou alguém tem dúvida?

Utopia - IV

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Pois é,

Só para recordar:

"No progresso da divisão do trabalho, o emprego da maior parte dos que vivem do trabalho, quer dizer, da grande maioria das pessoas, acaba sendo limitado a umas poucas operações simples – quase sempre uma ou duas. O entendimento da maior parte dos homens é, porém, necessariamente, fruto de seus empregos comuns. O homem que passa a vida inteira executando algumas operações simples e cujos efeitos talvez sejam sempre os mesmos ou bastante parecidos não têm oportunidade alguma de usar sua mente ou aproveitar sua capacidade inventiva para descobrir expedientes para vencer dificuldades que nunca ocorrem. Portanto, ele perde, naturalmente, o hábito deste esforço e, geralmente, fica tão 'burro' e ignorante quanto uma criatura humana se pode tornar. O torpor de sua mente o torna não só incapaz de entabular ou de manter qualquer conversa racional, como também de conceber qualquer sentimento generoso, nobre ou terno e, conseqüentemente, ter qualquer opinião até sobre muitos deveres rotineiros da vida cotidiana”.

Adam Smith em "A Riqueza das Nações".

Utopia - III

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Pois é,

Excelente o texto da Maria Helena Nóvoa lá no Bombordo. Vão lá e não deixem de comentar.

Utopia - II

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CARALHO,

FIZ MEU IMPOSTO DE RENDA.

Pois é!

Utopia - I

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Pois é,

substantivo feminino

1 qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade

2 Derivação: por extensão de sentido.
projeto de natureza irrealizável; idéia generosa, porém impraticável; quimera, fantasia

3 Rubrica: filosofia, política, sociologia.
no marxismo, modelo abstrato e imaginário de sociedade ideal, concebido como crítica à organização social existente, porém inexeqüível por não estar vinculado às condições políticas e econômicas da realidade concreta

Obs.: cf. socialismo utópico

4 Rubrica: filosofia, política, sociologia.
em sociólogos como Karl Mannheim (1893-1947) ou filósofos como Ernst Bloch (1885-1977), projeto alternativo de organização social capaz de indicar potencialidades realizáveis e concretas em uma determinada ordem política constituída, contribuindo desta maneira para sua transformação

A origem do termo, ainda segundo o Houaiss, é:

lat. utopia, nome dado por Thomas Morus (humanista inglês, 1477-1535) a uma ilha imaginária, com um sistema sociopolítico ideal; formado com o gr. ou- (do adv. de negação) + gr. tópos,ou 'lugar'; ver u- e top(o)-

O livro de Thomas Morus chama-se De optimo reipublicae statu deque nova insula Utopia, ou A melhor Forma de Comunidade Política e a Nova Ilha de Utopia.

Por vezes é fácil acusar as pessoas de "utópicas" quando apenas pretendem vislumbrar uma outra forma de sociedade. A pergunta a ser respondida daqui pra diante, por aqui, é: no que a utopia pode nos ajudar a transformar o mundo?

Alternativas

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Pois é,

Post comemorativo ao dia da Terra (22 de abril), uma sugestão da Lucia Malla.


Concordo com o Boaventura de Souza Santos, quando diz que:
"a industrialização não é necessariamente o motor do progresso nem a parteira do desenvolvimento. Por um lado, ela assenta numa concepção retrógrada da natureza, incapaz de ver a relação entre a degradação desta e a degradação da sociedade que ela sustenta. Por outro lado, para dois terços da humanidade a industrialização não trouxe desenvolvimento. Se por desenvolvimento se entende o crescimento do PIB e da riqueza dos países menos desenvolvidos para que se aproximem mais dos países desenvolvidos, é fácil mostrar que tal objectivo é uma miragem dado que a desigualdade entre países ricos e países pobres não cessa de aumentar. Se por desenvolvimento se entende o crescimento do PIB para assegurar mais bem-estar às populações, é hoje fácil de mostrar que o bem-estar das populações não depende tanto do nível de riqueza quanto da distribuição da riqueza. A falência da miragem do desenvolvimento é cada vez mais evidente, e, em vez de buscarem novos modelos de desenvolvimento alternativo, talvez seja tempo de começar a criar alternativas ao desenvolvimento".
Não faço o gênero catastrófico, como alguns, que prevêem o fim do mundo para daqui a alguns poucos anos, quiça não mais de cem. Penso que ainda dura uns duzentos...

Mas seja lá quanto tempo for, uma coisa parece inevitável: o esgotamento dos recursos naturais básicos, dos quais a humanidade depende para a própria sobrevivência: água, ar e terras aráveis. Todo o resto criado pelo desenvolvimento pode acabar que o ser humano permanecerá. Tire a água, o ar e a comida e acabaremos como espécie. Qualquer um deles. A mim não preocupa que o petróleo acabe. Afinal, ainda tenho minhas pernas para andar e bem poderia desenvolver um modo de vida restrito ao alcance delas. Sem água, ar, ou sem comida não. Não esqueçamos que não foi por falta de petróleo que portugueses, espanhóis e ingleses deixaram de expandir o mundo, menos ainda os romanos.

A questão que se coloca, e como diz o Boaventura, é criarmos alternativas ao desenvolvimento. Não podemos regredir, é claro (muito embora esse modelo de desenvolvimento atual traga em si uma regressão forçada, que virá, mais dia menos dia), mas, diferentemente do mundo romano, que durou 2200 anos (desde que a loba pariu até a queda), não temos mais tanto tempo assim. Em pouco mais de 500 anos de existência desse "mundo moderno" conseguimos aproximá-lo do limite. Uma façanha e tanta para o modelo.

Podemos, no entanto, desacelerar. E desacelerar sigifica apenas redistribuir o que já está posto. E aí bate o desânimo: numa humanidade má por natureza, fica difícil imaginar quais seriam as alternativas.

Leia mais nesses blogs:

- Uma janela no mundo! (Alline): 22 de abril - Dia da Terra
- Fora do armário (Paulo Nunes Jr.): Terra 4,5 bilhões de anos e mais um pouco"
- Terra temperamental (Lou Salomé): Uma chance para a Terra
- NCC (Guto): Dia da Terra
- Uma Malla Pelo Mundo (Lucia Malla): Dia da Terra, do Mar e do Ar
- Textos e afins (Manu): Dia de Gaya
- :boa esperança (Queirós): Sinta-se bem ajudando o próximo
- Villa da Lucia (Lucia Villa Real): Vinte e Dois de Abril Dia da Terra
- (In)Confidência Mineira (Vanessa): Pela Terra e por quem vive nela
- Lixo tipo especial (Flavio Prada): Mais um dia da Terra
- (An)Anima: Dia da Terra
- Stuck in Sac (Leila Couceiro): Bush em Sacramento no Dia da Terra
- Síndrome de Estocolmo (Denise Arcoverde): Amamentar é um ato ecológico!
- Alma Nômade (Horvallis): Earth Day - dia da Terra
- Caminhar (Laura): Por que é difícil falar e cuidar da Terra?
- Penso, logo... mudo de idéia (Claudia Beatriz): Dia da Terra
- Gutierrez/Su (Suzana): dia da terra
- Ao Cubo (Guga Alayon): Lembrem-se:
- Imaginação ao Poder (Elenara): Dia Mundial da Terra
- Nothing simple is ever easy... (Andréa N.): Quem jamais te esqueceria?
- Menina voadora (Alê): Parabéns, planeta Terra
- Edícula habitável (Vânia Beatriz): Dia da Terra
- Roccana (Ana): Terra, planeta feminino
- Liza...coisas... idéias... pensamentos... devaneios... (Liza Soares): Dia da Terra
- Encontros do cotidiano (Telma Arcoverde): O sal da Terra
- Always por um triz (Regina): Terra Azul

As coisas

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Pois é,

As coisas só acontecem quando alguém quer que elas aconteçam. Qualquer coisa.

Pois é,

Lá estou eu no Bombordo novamente. Vai lá, vai.

Pois é,

Texto do Ubaldo Ribeiro que "roubei" do Carlos:

"Não faz muito tempo, li um artigo, acho que numa revista americana, a respeito da necessidade, ou mesmo indispensabilidade, da hipocrisia para a existência humana como a conhecemos. Não vou entrar em detalhes, mas há assuntos ou ocasiões em que somos quase obrigados, às vezes até para não ofender, humilhar ou causar um mal maior, a usar bastante hipocrisia. Outras vezes ainda, somos hipócritas a contragosto, em função de uma conveniência social. Mas também há a hipocrisia safada, movida por baixos interesses e insuportavelmente farisaica, praticada por gente de ares respeitabilíssimos e sem papas na língua ao criticar o comportamento alheio. A hipocrisia assume então sua face mais odiosa e desprezível.

Temos visto bastante hipocrisia na vida pública nacional (aliás, falar nisso, não é bem hipocrisia, mas circula um vídeo velho na Internet em que o dr. Serra diz que assume o compromisso de governar a cidade de São Paulo e não se afastará do cargo para habilitar-se a outras posições, tais como a presidência da República — será por isso que deu Alkmin?) e vemos como é uma arma política de grande eficácia. Em muitos casos, o político tem sua vida consideravelmente prejudicada, se não emprega criteriosamente a hipocrisia.

Foi esse o erro de Severino, além do nome, da aparência e do sotaque de milhões de outros brasileiros, vistos como exóticos e incomodativos por grande parte de seus compatriotas. Ele não enganava nem enganou ninguém. Descrevia o Congresso e a política nacional exatamente como eles são e não os gabava com a caudalosa grandiloqüência de outros, estes, sim, hipócritas até a medula. Ouso até crer que, se votando, por corporativismo ou “porque é uma besteira”, contra a cassação de um deputado comprovadamente culpado, ele não teria problema em justificar seu voto para quem quisesse ouvir.

— É um bom rapaz, muito direito, muito bom pai de família, muito bom parlamentar, meu amigo pessoal e não é ladrão como tem uma porção aí, tanto na Câmara como no Senado, como no Executivo, como no Judiciário. Pegou essa mixaria, que não compra nem cem gramas de fumo de rolo, porque estava necessitado para a campanha, ele não rouba e não tinha dinheiro para a campanha. É um homem direito, a quem até eu devo obséquios. Eu vou votar contra um rapaz como esse?

Lembro ainda o presidente da República, num acesso de que aparentemente já se libertou, violando as regras da mais elementar hipocrisia política, ao dizer que o caixa dois é sistemático neste país. Mais tarde, festejou os companheiros alegadamente (ou qualquer outro advérbio que o departamento jurídico do jornal julgue adequado, tenho terror de processo) envolvidos em esquemas ilícitos e classificou os supostos (idem quanto ao departamento jurídico) delitos de meros “erros”. Ou seja, tanto para ele quanto para seus trezentos picaretas, tudo o que aconteceu está dentro da normalidade e bestas somos nós, que pensamos que não era bem assim — afinal, onde vivemos?

Agora estamos assistindo a outra demonstração de hipocrisia. O Estado do Rio de Janeiro finge que não está praticamente sob intervenção federal, o governo federal também. E o Exército finge que não perdeu a primeira batalha e teve de selecionar diversos eufemismos para dizer que estava saindo de mãos abanando, pois a missão “passem os fuzis para cá e tá todo mundo em cana” fracassou, pois os fuzis parecem mais devolvidos que capturados, como se o recado fosse de que a atrapalhação nos negócios provocada pela ocupação não valesse uns meros fuzis que eles obtêm de qualquer forma por outros meios. O Estado continua a não exercer sua soberania em diversas áreas do Rio de Janeiro e, sem hipocrisia, vamos reconhecer que o suposto pessoal do tráfico não se intimidou como talvez alguém esperasse, mas atirou na direção dos soldados e curtiu com a cara da força de ocupação.

Só que, desta vez, vejo um problema adicional. O Exército e as Forças Armadas em geral já se queixam há muito de sucateamento. Um oficial da reserva me disse que corria na tropa a informação de que os coletes à prova de bala usados no Haiti estão vencidos. Não sei se é verdade, mas tenho certeza de que o clima no Exército, já talvez de moral meio baixo, é ver um episódio desmoralizante nessa história toda. Acredito que o governo pense da mesma forma, nem que seja para solidarizar-se com os militares, pois, se não os equipa, pelo menos que os apóie numa situação delicada.

Há também o grande número de cidadãos do Rio de Janeiro que defende a permanência do Exército nas ruas. Não adianta dizer que Exército não é polícia e que o treinamento de um oficial da Polícia Militar é diferente da preparação de um oficial do Exército. Repetindo o que eu já disse aqui, a cabeça de um oficial do Exército, quando confrontado com uma situação como as dos morros cariocas, segue um curso que vai do bombardeio de artilharia e aéreo para posterior ocupação por infantaria, preferivelmente blindada. Guerra é guerra e milico é treinado para guerrear, não para policiar. Além disso, vamos reconhecer que alguns de nós estão se lixando para os favelados e pouco se incomodando com as condições em que vivem. Portanto, um bombardeiozinho lá neles seria chato, mas traria sossego para quem mora aqui embaixo. Raciociniozinho calhorda, mas freqüentador da cabeça de muita gente, a maior parte sem coragem de expressá-lo em voz alta (hipocrisia).

Para mim, contudo, essa guerra está apenas começando. Tenho certeza de que a posição oficial é de que o Exército não pode ser desmoralizado. Tenho certeza também de que essa retirada está sendo vista como uma derrota, não importam quantos nomes formosos se arranjem para ela. Fico torcendo para não ter razão e acho mesmo que, depois daqui, vou telefonar para algum amigo que me faça mudar de idéia. Mas tremo só em pensar no dia em que, nas “operações pontuais”, houver as primeiras baixas entre os soldados."

Pois é,

O capítulo VII, do Estatuto da Igualdade Racial, projeto do Senador gaúcho pelo PT, Paulo Paim, prevê:


CAPÍTULO VII

Do Sistema de Cotas

Art. 52. Fica estabelecida a cota mínima de vinte por cento para a população afro-brasileira no preenchimento das vagas relativas:

I – aos concursos para investidura em cargos e empregos públicos na administração pública federal, estadual, distrital e municipal,direta e indireta;

II – aos cursos de graduação em todas as instituições de educação superior do território nacional;

III – aos contratos do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES).

Parágrafo único. Na inscrição, o candidato declara enquadrar-se nas regras asseguradas na presente lei.

Art. 53. Acrescente-se ao art. 10 da Lei 9.504, de 30 de setembro de 1997, o § 3o-A, com a seguinte redação:

“Art. 10. ...........................................................................
..........................................................................................

§ 3o-A. Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação deverá reser-
var o mínimo de trinta por cento para candidaturas de afrobrasileiros.

...............................................................................(NR)”

Art. 54. As empresas com mais de 20 empregados manterão uma cota de no mínimo vinte por cento para trabalhadores afro-brasileiros.

Segundo o censo da educação superior de 2004, elaborado pelo MEC (é o último disponível), foram oferecidas 2.320.421 vagas para o ensino superior, distribuídas entre 308.492, nas instituições públicas (nos três níveis de governo), e 2.011.929 nas instituições privadas.

Vinte porcento desse número representa, em números redondos, 464.084 vagas, assim distribuídas: 61.698 vagas nas instituições públicas e 402.084 nas instituições privadas. Pode parecer pouca coisa, e é. E um número tão irrisório sequer mereceria debate. Mas...

Segundo o IBGE, 60% destes alunos pertencem ao último quinto de renda familiar ("Já no ensino superior, onde apenas 1/3 dos alunos estudam em escolas públicas, 60% pertenciam ao último quinto de rendimento familiar per capita"). Dito de outra forma, os ricos ou a classe média que ainda consegue pagar por boas escolas particulares para seus filhos. Reservar 20%, no caso das instituições públicas, significa tirar a vaga de quem já a obtém com sacrifício, pois os mais abastados (60%) continuarão a ingressar na universidade e continuarão a representar os mesmos 60%, dado que o número de vagas ofertadas não aumenta.

Onde então esse sistema de cotas resgata alguma coisa?

Em situação pior estarão as empresas. Segundo o art. 54, "As empresas com mais de 20 empregados manterão uma cota de no mínimo vinte por cento para trabalhadores afro-brasileiros".

"Ora, se minha empresa não tem, hoje, esses 20%, como farei? Demitirei 20% dos empregados "brancos" para contratar outros 20% "afro-brasileiros"? Sim, pois não tenho como aumentar o número de empregos. Quiçá o governo reduza os impostos sobre a folha de pagamento, quem sabe..."

Não é por outra razão que já declarei ser contra esse sistema. Que tal pensar no aumento do número de vagas nas instituições públicas? Em reais melhorias no ensino básico e público, possibilitando, assim, melhores condições de competição?

Quem sabe outro tipo de "ação afirmativa"?

Pois é,

Ninguém gosta da realidade. A indústria do entretenimento sabe bem disso quando quer faturar. Sejamos francos: além de engordar em mais alguns milhões o já enorme lucro da Gl@bo, de encher páginas de jornais e telas de blogs, o que de fato mudou na realidade das pessoas e da favela com o documentário Falcão?

Alguns puristas poderão dizer que "sim, aumentou nossa consciência sobre os problemas que passam aquelas pessoas". E desde quando a consciência da classe média (dos ricos nem se fala, pois não têm uma) matou a fome das pessoas, impediu o tráfico de drogas, a violência?

Bela classe média essa! Bem se vê como é pelos seus representantes no Congresso.

As pessoas estão entorpecidas e esse sentimento é generalizado. Não há com quem se fale que não se perceba um tom de desânimo, de descrença com o país, com as instituições, com tudo, enfim. E por quê?

Porque a realidade é bem diferente dos belos discursos que enxergam um mundo lindo, o progresso da ciência, etc., etc., etc. Bem sabem que isso só vale para meia dúzia de gatos pingados que ainda podem ter alguma coisa para sobreviver, inclusive esta internet para escrever. E quem apenas sobrevive não tem tempo de olhar "as outras realidades", prefere ficar entorpecido.

O banner da bandeira eu "roubei" da Sandra, heheh

Pois é,

Meu primeiro vôo de avião foi num Constellation, da VARIG por supuesto, do Rio de Janeiro para Brasília, em 1962. A Varig era um símbolo de infância; um símbolo que embalava os sonhos de voar, principalmente das mocinhas da época, que sonhavam em ser "aeromoças" e mesmo dos rapazes. Quem não pensou em ser piloto de avião? Em ser "comandante da Varig"? E quem não nasceu, cresceu e andou de VARIG? Quem não se embalou na música de natal, e até mesmo ainda se lembra dela "de cor"?

Pois acabou! Ou, se ainda não, falta pouco.

Um dos credores, o fundo norte-americano Matlin Patterson, dono da companhia de logística VarigLog, ofereceu US$ 350 milhões pela companhia aérea. Embutido na proposta a previsão da demissão de mais de 6 mil dos 10,3 mil funcionários, além da divisão da companhia em duas outras.

Uma, novinha em folha, passaria a operar com foco nas rotas internacionais; a outra, permaneceria com as dívidas, que somente se resolveriam dentro do plano de recuperação judical que está em andamento.

Vivos eles, não? Não é por menos que a grande maioria dos credores são empresas brasileiras, inclusive a terceira maior credora, a Petrobrás (a segunda é a Boeing). E depois, como soe acontecer nesse país, o governo "dá um jeito", mesmo porque, de quem é a Petrobrás?

Outro símbolo da infância que se foi - mas não de qualquer infância, de uma infância onde havia inocência; onde haviam as brincadeiras de roda, os carrinhos de rolimã, corridas de bicicleta, polícia e ladrão, e tantas outras brincadeiras - é o palhaço CAREQUINHA. Morreu aos 90 anos.

E quem não cresceu ouvindo seus discos, suas histórias, vendo na TV? Na verdade, há muito que ele "tinha se ido", mas só agora o fez de corpo e alma.

E tinha se ido porque não havia mais espaço para a inocência na TV. Era - e é - preciso ensinar a violência desde cedo para nossas crianças. Era - e é - preciso ensinar a sexualidade desde cedo para nossas crianças. E é isso que os programas infantis fazem hoje: tiram a inocência das crianças e as brutalizam, tiram delas o discernimento do que seja bom ou ruim.

Foi-se uma época. Não porque eu já esteja velho, mas porque hoje não temos mais uma Varig e um Carequinha.

Pois é,

Na minha humilde opinião de usuário, sim a internet e a tal sociedade do conhecimento são excludentes, e por natureza. Além do mais, dificilmente será "universalizada", como querem apregoam alguns arautos de um novo e admirável mundo que está por vir.

Há, nesse caso, dois tipos de exclusão. O primeiro refere-se à exclusão dos meios. Tomemos apenas o caso brasileiro como exemplo. A extensão para o resto do mundo será óbvia (e até pior).

O acesso a internet requer linha telefônica e dinheiro para pagar por isso, incluindo aí, o modelo onde somos obrigados a pagar por um "provedor de acesso". O Brasil possui apenas 18,5 telefones por 100 habitantes. Em 2001 (bem recente, portanto) ainda existiam mais de 7000 localidades sem telefones (dados da Anatel ).

Isso não seria problema não fora o fato de que a renda média da população economicamente ativa (esqueçamos, por um momento, que o Brasil tem uma taxa de desemprego em torno de 17%) ser de 2 a 3 salários mínimos (dados do IBGE). Ora, quem vive disso, certamente priorizará a alimentação, a moradia, o transporte e, se sobrar algum, a educação (livros e materiais, pois certamente os filhos estão em escola pública). Computador a R$3000,00? Nem pensar. Financiar? A prestação de um computador, em 24 vezes (que é para a prestação ficar "bem baratinha") sai por volta de R$250,00, ou seja, quase um dos 3 a 5 da média brasileira. Quem pode comprar computador?

Resta ainda o fato de que a telefonia brasileira é muito cara. Quem se utiliza de linha discada para acesso à internet sabe bem o quanto custa. Por sinal, o tipo de acesso, discado ou banda larga, será mais um fator de exclusão, como veremos adiante, desta feita quanto ao conhecimento. A banda larga também é carísssima. Pago, por mês, R$130,00 para ter míseros 800Kbps com a péssima qualidade que todos conhecemos (na realidade, essa é uma velocidade nominal, um limite, pois a velocidade real tem girado, pra mim, em torno dos 400Kbps - tenho feito medições todos os dias, pois pretendo entrar na justiça contra mais esse abuso).

Esses dados - dados de realidade e não fantasias - por si só já bastariam para tirar a razão de qualquer "romântico" pregador da universalização da internet. Como disse antes, é fácil ver como está a situação no resto do mundo.

O segundo tipo de exclusão - e muito mais perverso - é a exclusão do conhecimento. Vou me utilizar de um trecho da entrevista que o "filósofo finlandês Pekka Himanen" deu, em 2002, para o jornal Valor Econômico, e que me foi gentilmente enviada pela amiga Elenara, como subsídio para o debate que se realiza lá no Bombordo, em um post do Paulo Bicarato:

"Mas, por outro lado, a internet deixou claro que a informação não é tudo. O que se requer, agora, é a habilidade para criar um filtro pessoal, selecionando questões e problemas, e se posicionando frente a eles."

Esse seria o cerne da tão propalada sociedade do conhecimento: transformar informação em conhecimento. Por vezes fico preocupado, imaginando há quanto tempo certas pessoas não entram numa fábrica ou numa "repartição pública". Quem, como eu, trabalha diretamente com a Gestão do Conhecimento sabe bem o quão longe estamos do próprio conhecimento.

Empresas e instituições públicas nada mais fazem do que circular informações pelos computadores e redes. Como a mídia para armazenamento ficou extremamente barata, existem bilhões de toneladas (se pudéssemos pesar um bit) de bits armazenados por aí. Conhecimento? Nenhum.

E gerar conhecimento a partir dessas toneladas também é caro. Um "simples" Data Warehouse, por exemplo, custa uma fortuna inacessível para todas as 95% das empresas brasileiras, que são de pequeno e médio porte. Isso sem contar o software envolvido que quase que exclusivamente proprietário, logo, caríssimo.

Mas não precisamos de grandes equipamentos, pois o principal fator na Gestão do Conhecimento são as pessoas. É aí, com perdão da expressão, que a porca torce o rabo. Ainda fazemos gestão de recursos humanos como se fazia na época de Taylor. As pessoas são vistas como máquinas que devem ser azeitadas para produzirem o máximo. E aqui entra um dado interessante: ainda somos um país industrial e de comércio, atividades que requerem "pouco pensar". Num país que tem menos doutores dos que os existentes nos prédios da Microsoft, difícil falar em sociedade do conhecimento. Essas questões podem ser estudadas no relatório da UNESCO From the Information Society to Knowledge Societies, onde, não por menos, a primeira de tantas recomendações finais é Invest more in quality education for all to ensure equal opportunity. Mas não uma educação para a informática, como querem outros sonhadores e, sim, uma educação que construa "pensares".

E como anda o nível da eduação brasileira? Será que ela está preocupada em formar cidadãos para a Sociedade do Conhecimento? Claro que não. Ainda não ensinamos nossas crianças a estabelecerem filtros pessoais que lhes permitam ser agentes ativos dessa tão romântica e sonhada mudança que a rede vai nos trazer. Basta relembrar um relatório que publiquei aqui, e reproduzo apenas a figura:

Ótimo, parece que o tal filósofo desconhecia essa REALIDADE. Parece que os românticos da rede desconhecem essa REALIDADE. Como exigir de 74% da população brasileira - que mal consegue ler um texto curto -, que mal ganha para sobreviver, que é tratado como uma máquina, repito, como exigir que alguém crie filtros e se posicione diante de algo que ele sequer consegue ler direito?

Esses são dados da REALIDADE EXCLUDENTE. E continuará a ser excludente, embora o argumento de que aumentou o acesso desde que foi criada a internet seja válido, mas apenas como número, nunca como "conhecimento".

A internet nada mais é do que uma "ferramenta de produção", tanto quanto é um trator. E como o trator, está inserida na ecomomia capitalista que, por natureza, EXCLUDENTE. Por essa razão eu disse, lá no ínicio, que a internet e a sociedade do conhecimento são excludentes POR NATUREZA.

Há que mudar essa situação? Claro que sim, mas para mudar é preciso começar por enxergar a realidade tal qual ela é, e não ficar sonhando ou filosofando numa mesa de boteco.

Pois é,

Uma das capacidades que mais admiro no ser humano é a de ler o que não está escrito e de escrever o que não foi dito!

Essa é minha (pelo menos dessa forma, que eu saiba).

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