Pois é,
Na minha humilde opinião de usuário, sim a internet e a tal sociedade do conhecimento são excludentes, e por natureza. Além do mais, dificilmente será "universalizada", como querem apregoam alguns arautos de um novo e admirável mundo que está por vir.
Há, nesse caso, dois tipos de exclusão. O primeiro refere-se à exclusão dos meios. Tomemos apenas o caso brasileiro como exemplo. A extensão para o resto do mundo será óbvia (e até pior).
O acesso a internet requer linha telefônica e dinheiro para pagar por isso, incluindo aí, o modelo onde somos obrigados a pagar por um "provedor de acesso". O Brasil possui apenas 18,5 telefones por 100 habitantes. Em 2001 (bem recente, portanto) ainda existiam mais de 7000 localidades sem telefones (dados da Anatel ).
Isso não seria problema não fora o fato de que a renda média da população economicamente ativa (esqueçamos, por um momento, que o Brasil tem uma taxa de desemprego em torno de 17%) ser de 2 a 3 salários mínimos (dados do IBGE). Ora, quem vive disso, certamente priorizará a alimentação, a moradia, o transporte e, se sobrar algum, a educação (livros e materiais, pois certamente os filhos estão em escola pública). Computador a R$3000,00? Nem pensar. Financiar? A prestação de um computador, em 24 vezes (que é para a prestação ficar "bem baratinha") sai por volta de R$250,00, ou seja, quase um dos 3 a 5 da média brasileira. Quem pode comprar computador?
Resta ainda o fato de que a telefonia brasileira é muito cara. Quem se utiliza de linha discada para acesso à internet sabe bem o quanto custa. Por sinal, o tipo de acesso, discado ou banda larga, será mais um fator de exclusão, como veremos adiante, desta feita quanto ao conhecimento. A banda larga também é carísssima. Pago, por mês, R$130,00 para ter míseros 800Kbps com a péssima qualidade que todos conhecemos (na realidade, essa é uma velocidade nominal, um limite, pois a velocidade real tem girado, pra mim, em torno dos 400Kbps - tenho feito medições todos os dias, pois pretendo entrar na justiça contra mais esse abuso).
Esses dados - dados de realidade e não fantasias - por si só já bastariam para tirar a razão de qualquer "romântico" pregador da universalização da internet. Como disse antes, é fácil ver como está a situação no resto do mundo.
O segundo tipo de exclusão - e muito mais perverso - é a exclusão do conhecimento. Vou me utilizar de um trecho da entrevista que o "filósofo finlandês Pekka Himanen" deu, em 2002, para o jornal Valor Econômico, e que me foi gentilmente enviada pela amiga Elenara, como subsídio para o debate que se realiza lá no Bombordo, em um post do Paulo Bicarato:
"Mas, por outro lado, a internet deixou claro que a informação não é tudo. O que se requer, agora, é a habilidade para criar um filtro pessoal, selecionando questões e problemas, e se posicionando frente a eles."
Esse seria o cerne da tão propalada sociedade do conhecimento: transformar informação em conhecimento. Por vezes fico preocupado, imaginando há quanto tempo certas pessoas não entram numa fábrica ou numa "repartição pública". Quem, como eu, trabalha diretamente com a Gestão do Conhecimento sabe bem o quão longe estamos do próprio conhecimento.
Empresas e instituições públicas nada mais fazem do que circular informações pelos computadores e redes. Como a mídia para armazenamento ficou extremamente barata, existem bilhões de toneladas (se pudéssemos pesar um bit) de bits armazenados por aí. Conhecimento? Nenhum.
E gerar conhecimento a partir dessas toneladas também é caro. Um "simples" Data Warehouse, por exemplo, custa uma fortuna inacessível para todas as 95% das empresas brasileiras, que são de pequeno e médio porte. Isso sem contar o software envolvido que quase que exclusivamente proprietário, logo, caríssimo.
Mas não precisamos de grandes equipamentos, pois o principal fator na Gestão do Conhecimento são as pessoas. É aí, com perdão da expressão, que a porca torce o rabo. Ainda fazemos gestão de recursos humanos como se fazia na época de Taylor. As pessoas são vistas como máquinas que devem ser azeitadas para produzirem o máximo. E aqui entra um dado interessante: ainda somos um país industrial e de comércio, atividades que requerem "pouco pensar". Num país que tem menos doutores dos que os existentes nos prédios da Microsoft, difícil falar em sociedade do conhecimento. Essas questões podem ser estudadas no relatório da UNESCO From the Information Society to Knowledge Societies, onde, não por menos, a primeira de tantas recomendações finais é Invest more in quality education for all to ensure equal opportunity. Mas não uma educação para a informática, como querem outros sonhadores e, sim, uma educação que construa "pensares".
E como anda o nível da eduação brasileira? Será que ela está preocupada em formar cidadãos para a Sociedade do Conhecimento? Claro que não. Ainda não ensinamos nossas crianças a estabelecerem filtros pessoais que lhes permitam ser agentes ativos dessa tão romântica e sonhada mudança que a rede vai nos trazer. Basta relembrar um relatório que publiquei aqui, e reproduzo apenas a figura:
Ótimo, parece que o tal filósofo desconhecia essa REALIDADE. Parece que os românticos da rede desconhecem essa REALIDADE. Como exigir de 74% da população brasileira - que mal consegue ler um texto curto -, que mal ganha para sobreviver, que é tratado como uma máquina, repito, como exigir que alguém crie filtros e se posicione diante de algo que ele sequer consegue ler direito?
Esses são dados da REALIDADE EXCLUDENTE. E continuará a ser excludente, embora o argumento de que aumentou o acesso desde que foi criada a internet seja válido, mas apenas como número, nunca como "conhecimento".
A internet nada mais é do que uma "ferramenta de produção", tanto quanto é um trator. E como o trator, está inserida na ecomomia capitalista que, por natureza, EXCLUDENTE. Por essa razão eu disse, lá no ínicio, que a internet e a sociedade do conhecimento são excludentes POR NATUREZA.
Há que mudar essa situação? Claro que sim, mas para mudar é preciso começar por enxergar a realidade tal qual ela é, e não ficar sonhando ou filosofando numa mesa de boteco.