fevereiro 2006 Archives

Pois é,

Acabaram as minhas férias. Amanhã (hoje, se alguém estiver lendo isso na quarta-feira) retorno ao trabalho. Não posso negar que um misto de saudade e frustração tomam conta de mim. Saudade porque, afinal de contas, gosto do meu trabalho. Sei, sei, coisa rara nos dias de hoje. O que fazer!? Frustração porque não fiz 99% das coisas que pensei que faria. E o que fiz? Noventa e nove por cento nada e um por cento escrevi nessa coisa aqui. E essa foi a grande novidade para mim. Mas, vamos por partes...


"Acabaram as minhas férias..."

Descobri a pintura, a música clássica e o prazer pelos livros ao mesmo tempo na minha adolescência. A leitura vinha de antes. Cresci vendo meus pais agarrados nos livros. Para uma criança que cresce vendo os pais lendo, ler é um ato tão natural quanto comer. A música também. Tenho até hoje todos os LPs do meu pai e, se há algo na vida do que possa me arrepender, foi o dia que joguei fora um monte de discos de 78 rotações que ele tinha.

Se alguém mais jovem está lendo esse post, permita-me dizer que antes do CD e do LP existiam os discos de 78 e 45 rotações (os LPs tocam a 33.1/2 rotações, pra quem não sabe). Pois eu tinha uma coleção deles e joguei fora. Pra que serviriam hoje em dia se sequer aparelho teria para tocá-los? De muito, talvez.

OK, os mais atentos e freqüentes dirão que já devo ter contado isso por aqui. Muitas e muitas madrugadas passei pintando e ouvindo música. Nunca me incomodou estar sozinho. Como bom geminiano que sou, sempre soube arranjar algo para fazer. Tirando duas ou três namoradas que me custaram uma semana cada uma, de resto sempre soube lidar bem com "estar sozinho".

Na música, nunca tive competência para ser algo mais que um reles ouvinte. Certa vez namorei uma pianista clássica. Ela bem que tentou me ensinar a tocar piano, instrumento que mais gosto, mas, a quatro mãos, não podia dar certo. De vez em quando apertava algumas teclas que faziam um som tipo "ui, ai, mais", que, mesmo na minha ignorância musical, eu sabia não serem as tais famosas dó,ré,mi. Não aprendi a tocar e também perdi a namorada. Não que ela não gostasse da forma como eu tocava aqueloutras teclas, mas eu era um adolescente safado e queria tocar outros instrumentos ao mesmo tempo. Ela, por óbvio, tinha sonhos de uma carreira solo para mim. Bem feito pra mim, fui pego por ela tocando o violão de outra namorada. Águas passadas.

Descoberta minha incapacidade para a música, tentei, como todo adolescente babaca tenta, escrever. Poesias, que não existe nada melhor pra ganhar mulher do que poesia. Ainda mais quando a gente recicla e diz que foi feita exclusivamente para elas. Uma de cada vez. Já fiz isso. Uma mesma poesia entregue originalmente para duas ou três namoradas. Também aí acabaram as minhas pretenções de escritor.

Nunca me passou pela cabeça escrever. Até escrevo bastante, mas somente sobre assuntos técnicos. Foi então, que, nessas ferias, a coisa veio. E veio quase que de supetão.

Mentira!

Não existe supetão nesse mundo de 60.000 mil anos de espécie. O caldo estava aí, só faltava a maldita pitada de sal. E descobri que escrever é como cozinhar: a gente só aprende fazendo. Da primeira vez a gente faz uma massaroca: ou queima tudo, ou salga tudo. E não existe "receira de bolo" que te salve. Tem que "meter a mão na massa". E não tenham dúvida, pois eu tenho certeza, de que escolhi a pior maneira possível de começar: online. Carai, como dizem por aí!

Sempre fui meio autodidata nas coisas que aprendi. Mas até eu achei exagero começar uma histórinha e logo online. Uma coisa é ter uma idéia; outra, bem diferente, é ter a técnica para desenvolvê-la. E mais, ter tempo para isso. Chega um momento em que a coisa toma uma proporção inesperada, as personagens começam a exigir performance (já me disseram que essa palavrinha é desgraçada, eu sei), e chega o tal momento: ou a gente pára e leva tudo na brincadeira, ou começa a se organizar, planejar, pensar, estruturar. E isso tudo dá trabalho.

As duas idéias que venho desenvolvendo (uma mais que a outra):

- um blog que adquire personalidade própria e se revolta contra o seu criador. Era pra ser uma história infantil. Uma história para contar para a Clarissa, dessas que a gente conta na hora de dormir. Bobagem, eu sei, mas é um pouquinho de orgulho, criar suas próprias histórias para a filha. Para fazê-la sentir-se importante, salvadora da vida do pai. Para que cresça sentindo-se uma protagonista da vida e não uma coadjuvante; não que estes não sejam importantes, é claro! Com a Fernanda foi diferente: para ela eu cantava. À César o que é de César... Mas me perdi no meio do caminho. Já misturei cenas de adultos, obviamente impróprias para um criança dormir (sequer para ficar acordada!). E por quê? Porque o aprendizado é assim. A gente vai testando as próprias dificuldades. E a mais difícil delas: livrar-se dos estilos alheios, da influência de tudo quanto se leu ao longo de quarenta e quase tantos anos de vida e construir algo próprio, se é que isso existe. Vá lá! Se vocês não me perdoam pela tentativa, eu mesmo já me perdoei.

- A segunda idéia me parece mais interessante - e infinitamente mais difícil que a primeira: baseia-se no conceito de reencarnação e na teoria de que, em cada encarnação, não sabemos o que fomos nas outras. Assim, três encarnações da mesma pessoa se encontram na cabeça de uma delas. Na cabeça da pessoa do presente, a minha. Uma encarnação passada, uma presente e outra futura. E a história gira em torno das histórias de cada uma, que as demais não conhecem. Como eu teria sido numa encarnação da Idade Média, em meio a uma batalha medieval, sendo um simples camponês analfabeto? E como serei se voltar num futuro longínqüo? Será que meu antepassado medieval (que existiu de verdade) pensava no que seria hoje, isto é, eu? E eu, será que consigo imaginar o que serei num futuro se sequer consigo imaginar o que estarei fazendo amanhã (além de trabalhar)?

Essas coisas me perturbam. E por quê? Porque como todos, acredito, eu vivo com a sensação de que não pertenço a essa época! Identificações, nada mais. Identidade com o passado e com o futuro, menos com o agora.

Talvez isso se deva a que nossa época está desprovida do "glamour" (só para usar a palavrinha que a Roma me lembrou) das eras medieval e futura. Vivemos numa época de transição das mais sem graça da história da humanidade. E isso me faz viajar pelo tempo. Faz-me imaginar como teria sido a vida dos meus antepassados no País Basco medieval, onde tento ambientar a primeira personagem. É interessante porque envolve muita pesquisa histórica, de costumes, moradias, falas e culturas. Parece ser mais fácil por ser passado e estar nos livros e na internet, mas nem por isso deixa de ser difícil. O futuro parece simples. Futurólogos é o que não falta nos dias de hoje. Júlio Verne anteviu coisas passadas no futuro, mas no futuro da Terra. Hoje não é mais possível imaginar que o futuro será exclusivamente na Terra. Ou será?

E essa é a característica principal, a meu ver, dessa nossa época: jamais, em tempo algum, foi tão difícil imaginar um futuro. Perdemos o controle das nossas vidas. Pior: perdemos o futuro dos nossos filhos.

E é dessa luta entre a angústia de não saber mais o fututo e de tentar viver um presente, esquecendo que talvez exista um futuro, que o Chato deverá passar 2006.

Preciso ser mais líquido. Cada vez mais. Ou então parar de beber cerveja. Tadinho do D. Afonso, bebendo ceveja quente, pode?

- Afonso!
- Chato???
- Sim, sou eu.
- Mas... como?
- Não procura por explicações onde elas não existem. Eu bem que tento te avisar sobre isso.
- Sobre o quê?
- Sobre ser mais líquido. Talvez não tenha escolhido a metáfora correta, te encher de cerveja quente, mas faço o que posso. O fato é que queres me tornar sólido demais. Não estava nos nosso planos, lembra?
- Nossos planos uma ova! Nos meus planos. Meus! Ouviste bem?
- Depois não reclama, Afonso. Continuas achando que só tu existe.
- E não é assim, por acaso? De onde pensas que sai tudo, senão da minha cabeça?
- Afonso, Afonso! Vai devagar, meu caro. Quem sabe descobres algumas coisas que não sejam do teu agrado, se continuares com essa história.
- Pois vou continuar, custe o que custar. Até mesmo se custar a minha sanidade, ou perder meus seis leitores! (o que vier primeiro)...

Para ler tudo, desde o início: As Aventuras da Condessa Clarissa.

A Agonia de D. Afonso

O sofrimento físico era até suportável para D. Afonso. Não entendia, no entanto, porque perdera a vontade de comer, por pior que pudesse ser a comida que lhe ofereciam. Ouvia os guardas dizerem que estava fazendo greve de fome. Não pensara nisso, apenas não sentia desejo pela comida. Tentou lutar contra isso, mas sentia-se como que preso por uma força maior que as suas. E assim foi se apagando. Achava estranho os movimentos do próprio corpo, como se estivesse sentindo uma dor imensa, mas a dor se fora. A última visão que teve foi o rosto do Chato.

E o que era uma dor física transformou-se numa profunda dor da alma. Escuro e frio. Tudo quanto tinha medo: escuro e frio. Sentiu-se novamente como naquela primeira vez, quando criança, em que acordara de madrugada e vira o escuro. E pela primeira vez também sentiu o frio. Veio-lhe à lembrança as incontáveis vezes, ao longo da vida, em que acordara no escuro e tremendo de frio. Aqueles poucos e infindáveis minutos eram o terror da sua vida. Não havia noite em que não fosse dormir com medo de acordar no escuro e tremendo de frio. Ultimamente isso acontecia com uma freqüência mais do que indesejável. Sabia que não adiantava se cobrir. O escuro e o frio vinham de dentro. O tremor era incontrolável. Por vezes gemia, sem entender porque aquilo acontecia. Nesse momento vinha o pior, o vazio.

Acordou naquela noite e escutou barulho na sala. Inocente ainda nos seus recém completos cinco anos, e curioso por tudo quanto desconhecia, resolveu levantar. Imaginava que seriam seus pais e seus irmãos mais velhos conversando. Saiu do quarto e caminhou pelo corredor. Ao chegar na sala experimentou o medo que jamais o abandonaria: viu diversos esqueletos pela sala. Uns conversavam; outros caminhavam de um lado para outro e alguns dançavam. Todos muito agitados. Tomado pelo medo, voltou correndo para o quarto, atirou-se na cama e cobriu-se com o cobertor. Fazia frio naquele dia. Ao deitar, ainda teve tempo de olhar para a guarda da cama e ver ali, estampada, uma caveira que brilhava no escuro. Foi a primeira vez, de tantas da sua infância, que fez xixi na cama.

Era assim que estava se sentindo naquele momento. Escuro e frio acompanhado de um vazio imenso. Não conseguia se controlar e chorava desesperado, quando um brilho intenso rompeu a escuridão. Reconheceu aquilo imediatamente. Eram os Olhos que Brilham, sua amada esposa, a Rainha Bruxa.


"...eram os Olhos que Brilham. Sua amada esposa, a Rainha Bruxa."

- Querido, sinto muito te fazer passar por essa experiência, mas era a única maneira de evitar que o Chato fizesse coisa pior.
- Como assim?
- Não foste envenenado. Por um encantamento fiz com que parecesse assim. Sabia que o Chato iria tomar providências para evitar a tua morte.
- Mas e Mestre Alan, não será capaz de realmente me envenenar?
- Não te preocupes. Apesar de estar do lado do Chato, não ensinei a ele tudo que sei. Tenho certeza de que ele irá sugerir ao Chato que me chame. Isso é parte do meu plano. Infelizmente a Duquesa Roma, apesar das boas intenções, não deverá resistir.
- E por que essas dolorosas lembranças da minha infância, que nunca me abandonam?
- Querido, quantas vezes nem te lembras delas, mas eu vejo, todos os dias, como dormes. E se te cubro, não é apenas pensando que estejas com frio, mas porque sei dos teus sonhos. Agora preciso ir. Retornarei quando Clarissa e Fernanda aqui chegarem. Temo que D. Cláudio, apesar de ser meu melhor aluno, não consiga descobrir quem é o traidor. Nossa filha corre perigo, preciso estar com ela.
- E o que eu faço? Continuarei assim?
- Não. Vais ficar tranqüilo e nem verás o tempo passar, embora quem esteja te olhando verá dor e sofrimento em teu rosto.

E D. Afonso dormiu como dormia antes daquela noite da sua infância...


"E D. Afonso dormiu como dormia antes daquela noite...."

Para ler tudo, desde o início: As Aventuras da Condessa Clarissa.

A Jornada - Segunda Noite...

- Essa noite será um pouco mais difícil, disse o Capitão André. A subida será mais íngreme, por dentro de matas muito fechadas e teremos neblina pela frente. Não poderemos nos atrasar. Joseph irá comigo, na frente, para abrir caminho onde for necessário.


"...e teremos neblina pela frente."

- Não posso, berrou Joseph lá de trás!
- Como assim, não pode?
- Estou aqui tão somente para proteger a Condessa e D. Fernanda. Devo andar sempre ao lado delas.

O Capitão virou-se para a Condessa, com ar de quem pediria a sua interferência, mas foi interrompido pelo Coronel Maurício...

- Eu vou. O Joseph tem razão. Acima de tudo devemos manter a segurança delas.
- Condessa, e o que fará D. Cláudio? Até agora não fez mais nada a não ser ficar observando a todos, aproveitou-se o General, já para mostrar que não gostava de D. Cláudio.

Ao ver que a Condessa hesitara em dar a resposta, D. Cláudio falou: - Meu caro General, não lhe cabe constranger a Condessa. Assim com todos aqui, também tenho a minha função. E posso lhe garantir que será revelada no momento adequado.

Todos olharam para a Condessa, que permanecia quieta. Era como se não estivesse ali. D. Fernanda percebeu que a irmã sentia-se angustiada. Aproximaou-se e perguntou baixinho:

- Minha irmã, posso saber o que está havendo?
- Algo me diz que papai não está bem. Devemos nos apressar.
- Então acabe com essa discussão e vamos logo.
- Mana, deixe-os discutirem mais um pouco. Quero que D. Cláudio os observe.
- E já estás desconfiando de alguém?
- Não faço idéia e isso me assusta. Todos sempre foram leais ao papai. Que razão teriam para traí-lo?
- E confias tanto assim em D. Cláudio?
- Mana, D. Cláudio é discípulo de mamãe. Se ela lhe ensinou tudo sobre as artes de interpretar os sonhos é porque confia nele.

Levantou-se e ordenou: - Parem com essa discussão. Todos sabem o que devem fazer e não quero brigas por aqui. General, cuide das suas tarefas e deixe D. Cláudio em paz.

A primeira hora foi tranqüila. A trilha ainda se mostrava razoavelmente transitável. Logo após atravessarem um pequeno riacho começaram as dificuldades. Dali vislumbraram a alta montanha que enfrentariam naquela noite.


"Logo após atravessarem um pequeno riacho..."

Pararam para um breve descanso. Foi quando se deram conta de que o Major Milton não estava com eles.

Para ler tudo, desde o início: As Aventuras da Condessa Clarissa.

A tentativa de Assasinato...

A Duquesa sabia que o poder das mulheres sobre os homens está não em saber começar, que isso é fácil, mas quando terminar. A escolha do momento exato em que a satisfação gera mais desejo. É quando o prazer pode se tornar um vício.

- Querido, disse virando-se de costas, recusando explicitamente mais uma investida do Chato, lembre-se que fiz uma viagem cansativa e essa noite não estava nos meus planos.
- Eu sei! Mas também sei que deves partir logo e já me doi pensar ficar sem ti.
- Isso depende. Permanecer mais tempo ou não é minha escolha. Quero que tenhas uma conversa com D. Afonso e convença-o a parar com a greve de fome.

Surpreso com a própria reação, o Chato concordou. Tão logo amanheceu, dirigiu-se à cela de D. Afonso. Quando a pesada porta de ferro se abriu, teve uma visão estarrecedora. D. Afonso jazia ao solo em meio ao que pareceia ser vômito misturado ao que mais lhe pudesse sair do corpo debilitado. A expressão no rosto denunciava o resultado da tortura. Alguém havia feito mais do que simplesmente dar-lhe cerveja quente. Percebeu que tentaram envenená-lo.


"A expressão no rosto denunciava o resultado da tortura."


- Guardas!
- Senhor?
- Tirem D. Afonso daqui imediatamente. Limpem-no e chamem o Mestre Alan para que cuide dele.

Uma sensação de estar perdendo o controle da situação tomou conta do Chato. Não gostava de lidar com situações inesperadas, mas essa tinha passado dos limites. Matar D. Afonso? Não, nem ele havia pensado nisso. E como explicar para a Duquesa? Teria que descobrir logo quem fez isso e é algo que somente ele mesmo poderia resolver, pensou. Antes, porém, deveria planejar o que fazer para impedir que a Condessa chegasse ao castelo.

Para ler tudo, desde o início: As Aventuras da Condessa Clarissa.

A Jornada - Enquanto todos dormiam...

- Edu?
- Já te disse para não me chamar assim quando estivermos perto de outras pessoas.
- Mas estão todos dormindo, qual é o problema?
- Não sei, mas todo cuidado é pouco. Até a Condessa já anda desconfiada. Além do mais, não gosto desse D.Cláudio. Já viste como ele não pára de nos cuidar?
- Até parece que anda desconfiado de alguma coisa. Não entendi por que a Condessa resolveu trazê-lo.
- Eu imagino, Coronel. E essa é mais uma razão para que te mantenhas na linha. Não por ela, mas pelos outros. Nem todos entenderiam e, mais, nem todos aceitariam. Bom, daqui a duas horas aquele cão de guarda do Joseph vem te render. Não gosto dele. Não bastasse aquela cara enjoada, anda como se fosse um gato, sem fazer barulho. Vou dormir um pouco. Fica atento.

Ao se virar ouviu algo que o deixou nervoso...

- Ei, ei, volta aqui!
- O que foi?
- Vais assim, sem mais nem menos?
- Já te disse e repito: até o fim dessa missão sou apenas teu comandante. E dê-se por satisfeito por tê-lo trazido!


"Vais assim, sem mais nem menos?..."

Mais gente participara dessa conversa...


Havia tempos que aquela situação o magoava. Por vezes sentia-se bem por ter nascido numa época mais amena, embora a hipocrisia ainda fosse a mesma de sempre. A duras penas consquistara o posto de general. Não sem sofrimento, pois sabia que devia esconder algo que considerava tão natural.

Por quantas e tantas vezes ainda teria que se debater entre a realidade e a imposição? Buscava na história o momento da separação entre a realização individual e a submissão social e nada encontrava que lhe desse alento. Sentia-se expiando uma culpa que não era sua. "Ou te comporta como queremos, ou não terás o que queres!". Um pensamento constante e perturbador em sua mente. Por várias vezes pensou em abandonar tudo. Talvez não tivesse tanto, mas também não sofreria na mesma proporção. Preocupava-se com Maurício. Aprendera a lidar com isso, mas será que ele suportaria por mais tempo?

Por essas coincidências, o Coronel Maurício pensava, naquele justo momento, na reação do General. Por que será que o Edu tem tanto medo, dizia para si. Será que ele não sabe que a vida pode acabar de uma hora para outra? E se um de nós morrer nessa missão? De que teria adiantado ficar preso a tantos princípios postos pelos outros?

Vontade tinha era de dormir, mas pôs-se a caminhar de um lado a outro do acampamento. Não tanto pelo sono, mas por não entender o comportamento do general.

Às três horas, conforme o combinado, todos foram acordados. Teriam tempo suficiente para uma refeição e para revisarem o plano para a segunda noite. A Condessa acordou com uma estranha sensação de tranqüilidade. Lembrava-se do sonho como se fora o próprio dia em que conhecera o mar e ainda sentia a mão quente da mãe na sua mão. "Não saia daí, mãe!", murmurou.

Para ler tudo, desde o início: As Aventuras da Condessa Clarissa.

A Jornada - Primeira Noite...





"Ao pôr-do-sol partiram..."


Ao pôr-do-sol partiram.

- Seguiremos próximo à estrada, disse o Capitão André. Amanhã nos afastaremos dela, seguindo em direção ao desfiladeiro. Iremos por uma antiga trilha, há muito abandonada.

Enquanto caminhavam, a Condessa aproveita para conversar com D. Cláudio.

- D. Cláudio, terias algo para me dizer?
- Ainda não, Senhora. Todos se comportam de maneira natural. Nada que os denuncie.
- Se me permites uma curiosidade, interrompe D. Fernanda, como pretendes descobrir o traidor?
- É uma questão complexa, Senhora. Observo as pessoas em busca de padrões de comportamento. Qualquer desvio desse padrão poderá nos dar indícios de que a pessoa está representando um papel, no caso o papel de traidor.
- Mas e as pessoas que têm um comportamento tresloucado por natureza, ora assim, ora de outro jeito?
- Mesmo isso é um padrão e é possível estabelecer os limites dessa variação. E a pessoa só ultrapassará esses limites se estiver fingindo. Cedo ou tarde quem representa acaba por se mostrar em pequenos detalhes. Por isso observo um por um atentamente.
- Mas seriam apenas indícios. E o que fazer para confirmá-los?
- De forma sutil, para que não se aperceba, vamos envolver a pessoa em situações que acabarão por desmascará-la. O que me preocupa é que teremos pouco tempo para isso.
- E o que vais fazer, minha irmã, ao saber quem é o traidor?
- Não pensei nisso ainda, mana.

A caminhada da primeira noite seguiu tranqüila. Ao amanhecer acamparam próximos a um pequeno riacho. O General e o Coronel, responsáveis pela segurança do grupo, combinaram o revezamento da vigília. Os demais foram dormir.

Sonhou com a primeira vez que viu o mar. Pequena ainda, não fazia idéia da imensidão daquelas águas. Assustou-se com o barulho das ondas e, tomada pelo medo, quis correr. A Rainha Bruxa pegou a sua mão e disse:

- Venha comigo, meu anjo. Não tenhas medo! Aprenda, porém, que ele é maior e mais forte que tu. Aprenda a respeitá-lo e ele te respeitará. O mar nos ensina que não devemos ir além de onde nossas próprias forças podem nos trazer de volta. O mar tem a força, mas tu tens a inteligência. Assim será com as pessoas, minha filha. Usa a tua inteligência, mesmo com aquelas que são mais fortes.


"Venha comigo, meu anjo. Não tenhas medo!"

Ao ver que a filha iria acordar, a Rainha Bruxa afastou-se...





Derrubei mais um pau da barraca lá no Meu Imposto

Para ler tudo, desde o início: As Aventuras da Condessa Clarissa.


A Jornada - Os preparativos...

Ao entardecer reuniram-se para traçar o caminho da jornada. O Capitão André, apontou para frente.

- Não podemos seguir pela estrada, será muito perigoso. Seguiremos por outro caminho. Mais difícil, porém seguro. Exigirá muito de nós, pois em apenas 20Km subiremos quase 800 metros por entre as montanhas. Ao final do segundo dia devemos estar bem próximos do Bosque da Pedra, que fica a 30Km daqui, logo após aquele ponto mais alto, bem ao fundo. Certamente o bosque, por onde passa a estrada, estará bem guardado pelos homens do Chato. Só temos uma alternativa, que é descer o desfiladeiro do Val.


"Não podemos seguir pela estrada..."

A travessia do Val também não será fácil. O desfiladeiro tem uma profundidade de 750 metros. Devemos descer e subir numa única noite. Talvez possamos aproveitar parte do dia, pois é pouco provável que o Chato imagine que queiramos passar por lá.

- Sim, disse o Major Milton. Com certeza ele imagina que a Condessa avançará com suas tropas pela estrada e tentará algumas emboscadas. Não esqueçamos que eu o ensinei a fazer isso.
- General, interrompeu a Condessa, o senhor e o Coronel estão encarregados da segurança de todos nós durante o dia, enquanto descansamos. Permaneçam atentos. E você, meu caro Joseph, cuide bem de mim e de D. Fernanda. Partimos tão logo o sol se ponha.

Enquanto isso, no castelo de D. Afonso, Kaya, a Rainha Bruxa, estava atenta ao que se passava e buscava, ao seu modo, ajudar no resgate do marido...


"A Rainha Bruxa estava atenta..."

As irmãs se encontram...


"As irmãs se encontram..."

O abraço foi longo e o choro inevitável. Muito pouco se encontravam ultimamente. D. Fernanda tornara-se embaixadora de D. Afonso XX e as constantes visitas a outros blogs tomavam todo seu tempo.

- Vim logo que soube, Issa.
- Mana, não te esqueças que a minha mãe não gosta de apelidos.
- Eu sei, mas como ela não está aqui...
- Tudo bem.
- Como foi que aconteceu? O que deu no Chato para fazer isso?
- Talvez não tenha sido só culpa do Chato. Bem sabes que papai está ficando velho, mana. E ultimamente tem inventado de fazer algumas maluquices. Ameaçou acabar com o Chato de uma hora para outra.
- Mas por quê? Que eu saiba eles eram inseparáveis!
- Também não entendi. Parece ter a ver com uma receita que papai queria publicar e o Chato não deixou, o que também não era motivo para fazer o que fez.
- E o que vamos fazer? Quais são teus planos?
- Infelizemente somos em número muito inferior às tropas do Chato. Não vejo uma possibilidade de atacarmos o castelo com sucesso. Pensei em resgatá-lo.
- Mas é muito mais perigoso! Como pensas fazer isso?
- Mandei o General Eduardo montar uma equipe com seus melhores homens. Avançaremos durante as noites. Ao chegar no castelo...

E a Condessa contou seu plano para D. Fernanda.

- Confias mesmo nessa mulher, essa tal Duquesa Roma?
- Temos que confiar. Ela sempre foi muito amiga de papai. Quando soube do que havia acontecido ela mesma se ofereceu para ir lá e seduzir o Chato. Combinamos que na noite do sexto dia ela colocaria um sonifero na cerveja do Chato. Quando ele estiver dormindo, entramos no castelo e resgatamos papai.
- E como faremos para chegar até lá e entrar no castelo?
- É aí que entra a equipe. Temos todas as plantas do castelo e pessoas treinadas para nos ajudar a escalar os altos muros.
- De qualquer forma, se te conheço, pareces preocupada com alguma coisa.
- É que D. Cláudio, ao interpretar um sonho que tive, avisou-me de uma possível traição. Tenho pensado muito e ainda não consegui imaginar quem possa ser. Pedi a D. Cláudio que nos acompanhe para analisar o comportamento de todos durante a viagem. Espero que até lá ele possa me dizer que é. Por essa razão ainda não revelei o plano. Só farei durante a viagem. Talvez assim o traidor não tenha tempo de agir. Vá se preparar que partiremos ainda esta noite. Temos muita caminhada pela frente.

A Condessa já estava pronta em seu disfarce. Pegou os mapas do castelo e foi estudá-los mais uma vez...


"Pegou os mapas do castelo e foi estudá-los mais uma vez..."

Sem sinopse. Leia os últimos seis posts se quiser saber o que está acontecendo.

O Chato tenta formar alianças...

Ao levantar-se, a Duquesa concentrou os olhares de todos os presentes. Não tanto pela beleza, que já despertara sentimentos os mais diversos, mas pela delicadeza com que o fizera. Vagarosamente, com quem quisesse mostrar-se aos poucos. E não sem razão, pois sabia que contrastava com o padrão das demais mulheres que ali se encontravam.

O Chato não imaginara tanto, ao vê-la sentada. Mas agora, vendo-a por inteiro, precisou apoiar-se na mesa. A Duquesa ousara no vestido. A cada passo era possível vislumbrar suas intenções e não olhou diretamente para o Chato até estar próxima a ele. Demonstrava ser senhora de si, independente. O Chato sentiu-se pertubado ao vê-la caminhando em sua direção. Estava acostumado com a facilidade das damas da corte de D. Afonso. Devo agir com calma, pensou. E controlou-se.


"O Chato sentiu-se perturbado, ao vê-la caminhando em sua direção".
Ao fundo, o Conde Frederico aproveita para umas e outras...

- Permita-me a honra, Duquesa!
- Não por isso, Senhor! Julguei que só me receberias amanhã!
- Minha cara Duquesa, há homens que não entendem certas sutilezas da diplomacia. Infelizmente o Conde Frederico é um deles. Apesar de suas qualidades como administrador, peca por não perceber a importância que deve ser dada aos embaixadores dos países amigos.
- Ainda não definimos se somos amigos, Senhor!
- Tenho certeza de que seremos, Duquesa...Mas o que a traz até nós?
- Preocupa-me a vida de D. Afonso. Somos bons amigos e pretendo não deixar que algo ruim lhe aconteça.

O Chato percebeu a oportunidade. Não havia ameaça nas palavras da Duquesa. Ao contrário, viu um tom de sacrifício, confirmado pela maneira como ela olhava. Devia saber que não tinha muito tempo. Se está disposta a algum sacrifício, pensou, basta dar-lhe a corda...

- Deixe-me dizer, Duquesa, que minha intenção nunca foi causar qualquer mal a D. Afonso e sua família. Devo minha existência a ele. Mesmo quando D. Afonso demonstrou explicitamente me ignorar, no post onde falava de quantos ele era, permaneci quieto e fiel. Tentei entender suas motivações, afinal, era seu confidente. Era comigo que ele desabafava suas tristezas e alegrias. Vi a Condessa Clarissa nascer, essa mesma que hoje arma seu exército contra mim. Não pense que não me magoa ter que combatê-la. Mais ainda por saber que D. Fernanda juntou-se a ela. São como minhas filhas... e quase põe-se a chorar...

A Duquesa, que até então tinha claras intenções de seduzir o Chato e com isso libertar D. Afonso, começou a ficar impressionada com a sensibilidade demonstrada por aquela pessoa, de quem tinha recebido as piores informações. Quase chora, meu Deus! Esse homem precisa de mim, pensava.

- Permita-me chamar-lhe de Roma apenas?
- Senhor? A Duquesa já não escutava mais o que falava o Chato. Tomada de surpresa com os próprios sentimentos, mal teve tempo de responder que sim e pedir licença. Levantou-se rapidamente e foi para os seus aposentos. E pôs-se a pensar...


E pôs-se a pensar...

Como pode isso acontecer? Devo ter bebido além do necessário. Sentia-se apaixonada pelo Chato.

O Chato estava feliz. Sabia que as mulheres não resistem a demonstrações repentinas de sensibilidade. Deixou passar um tempo e foi ao quarto da Duquesa.

A porta não estava trancada. Entrou sem cerimônia, e se já pressentia que poderia ter uma noite inesquecível, ao vê-la deitada sentiu que o seu fim poderia estar próximo...


"ao vê-la deitada sentiu que o seu fim poderia estar próximo..."

Pequena Sinopse para quem não leu os posts anteriores: O Chato depõe D. Afonso XX e o prende num castelo. A FADA - Força de Apoio a D. Afonso, com a ação de hackers, consegue penetrar no blog e denuncia torturas contra D. Afonso. Condessa Clarissa reúne suas tropas e toma a fortificação do rio Inhatium, ponto de passagem para o castelo. Prevendo as dificuldades em enfrentar diretamente O Chato, pela inferioridade numérica, a Condessa planeja uma ação de resgate de D. Afonso. Na manhã seguinte faz uma reunião com a equipe.


Enquanto isso, no castelo do Chato...


Banquete oferecido pelo Chato para comemorar a prisão de D. Afonso XX

Muitos haviam se oferecido para ajudar o Chato no seu intento de depor D. Afonso XX. O Chato bem sabia que manter-lhes as benesses era necessário. Ao menos até que sufocasse definitivamente a revolta comandada pela Condessa. Não estava muito preocupado com ela. As FRC estavam bem preparadas e eram em número muito superior ao que a Condessa poderia juntar em tão pouco tempo. A tomada da ponte do Inhatuim tinha sido um golpe de sorte. Mas ainda deveriam passar pelo Bosque da Pedra. E lá ela terá uma surpresa, pensou.

A aproximação do Conde Frederico tirou-lhe a concentração.

- Senhor, a situação requer cuidados. Há três dias que D. Afonso não come, parece estar fazendo greve de fome.
- Pois que morra de fome, então! Não era meu desejo matá-lo. Após derrotar a Condessa, pretendia mandar toda a família para o exílio.
- Se me permite, Senhor, mas muitos dos que aqui se encontram talvez ainda não estejam bem convencidos das suas intenções. Dexar D. Afonso morrer pode causar um certo descontentamento, o que não será bom.
- Bem sei, bem sei, Conde. Amanhã irei falar com ele. Por ora tenho algo mais interessante para fazer. Vês aquela mulher? Perguntou, apontando para a que parecia ser a mais bela das presentes.
- Senhor, aquela é a embaixadora da Inglaterra, a Duquesa Roma. Chegou hoje pela manhã. Queria uma reunião imediata com o Senhor, mas deixei-lhe bem claro que somente amanhã poderias recebê-la.
- Vá lá e diga-lhe para vir sentar-se ao meu lado. Talvez tenhamos uma reunião bem antes do que ela imagina e certamente não para tratar de política.

Tem post novo no Meu Imposto

Pequena Sinopse para quem não leu os posts anteriores: O Chato depõe D. Afonso XX e o prende num castelo. A FADA - Força de Apoio a D. Afonso, com a ação de hackers, consegue penetrar no blog e denuncia torturas contra D. Afonso. Condessa Clarissa reúne suas tropas e toma a fortificação do rio Inhatium, ponto de passagem para o castelo. Prevendo as dificuldades em enfrentar diretamente O Chato, pela inferioridade numérica, a Condessa planeja uma ação de resgate de D. Afonso.


A Reunião

Não conseguiu mais dormir. Ficou pensando nas palavras de D. Cláudio. Não imaginava a possibilidade de traidores. Pediria a D. Cláudio que analisasse os homens indicados pelo General Eduardo. Essa seria a sua função. Olhar atentamente o comportamento de cada um deles ao longo da jornada que fariam até o castelo. Teriam tempo. Cinco dias é suficiente para perceber se haveria algum traidor entre eles.

Levantou-se da cama e foi tomar um banho. Apesar de estar acostumada aos banhos frios de campanha, ao entrar na água sentiu um calafrio diferente. Estava assustada. Sempre estivera sob o comando de D. Afonso. Pela primeira vez, como disse D. Cláudio, sentiu-se sozinha na sua luta. Malditos tempos, pensou, bem que poderia ter nascido homem, como minha mãe queria. Talvez fosse mais facil.

Mas não. Nascera numa época em que as mulheres eram necessárias e a necessidade a tornara algo que talvez não quisesse. Não tivera tempo de viver no mundo dos galanteios, das festas. A bem da verdade, poucas haviam nesses dias. Mas sonhava com elas. Sonhava sonhos dos poucos romances que pudera ler, quase que escondida, pois D. Afonso a queria preparada para herdar o blog. Precisava ler muito sobre a arte de governar, na paz e na guerra. Economia, ciências, política, filosofia, todas essas coisas chatas. Por um momento não soube se o que lhe escorria pelo rosto eram lágrimas ou a água do banho.


General Eduardo e seus homens, momentos antes da reunião

O anúncio da chegada do General causou-lhe outro calafrio. E não estava mais no banho.

- Entre, General!
- Condessa, esses são os homens que selecionei. Todos de minha inteira confiança.
- Soldado!
- Senhora?
- Vá chamar D. Cláudio.
- D. Cláudio, Condessa?! O que poderá fazer um interpretador de sonhos?, surpreendeu-se o General.
- Ele irá nos acompanhar. É só o que posso dizer!

Ao entrar, D. Cláudio, sem que fosse necessário que a Condessa lhe dissesse, começa a analisar um por um dos homens que ali se encontravam.

- General, apresente-me seus homens.
- Condessa, esse é o Coronel Maurício. Especialista em plantas de castelos. Conhece todos os castelos da região. Já esteve no castelo onde se encontra preso D. Afonso.
- Conheço o Coronel. Já esperava que o senhor o escolhesse. Bem sei que ele é seu protegido.
- Condessa!
- Não se preocupe com isso, General. Importa-me, agora, a lealdade desses homens.
- Este é o Major Milton, nosso grande estrategista. Especialista em táticas terroristas.
- Boa escolha. Sabemos que o Chato possui uma equipe de fanáticos dispostos a tudo.
- Este é o Capitão André. Especialista em técnicas de campo. Rappel, trecking, body jump, montanhismo, etc. Conhece todas as trilhas existentes até o castelo.
- Ótimo, terá cinco dias para nos ensinar a subir nas paredes do castelo.
- Por fim, este a senhora conhece bem.
- Olá Joseph!
- Condessa.
- Pensei que estavas com minha mãe!
- Sim, estava. Mas pedi-lhe que me dispensasse para lhe acompanhar. A Senhora bem sabe o quanto devo a D. Afonso por tudo o que sou.
- Sem dúvida, Joseph.

D. Cláudio a tudo observava em silêncio, como sempre fazem os interpretadores de sonhos.

O Plano

- Soldado!
- Senhora?
- Diga ao General Eduardo que quero vê-lo!

O General Eduardo já havia se recolhido. Sentia-se exausto após a travessia do rio Inhatuim. Não imaginava o que a Condessa poderia querer. Afinal, a madrugada corria alta. Vestiu-se e, ao dirigir-se para a barraca da Condessa, percebeu uma movimentação no acampamento. Achou estranho, pois o normal era estarem todos dormindo.


Barraca da Condessa Clarissa
Ao fundo pode-se ver a fortificação tomada das FRC

- Senhora?
- Entre General! Sente-se, por favor.
- O que a deixa preocupada, minha Senhora?
- Não temos muito tempo. Temo que os reforços que minha irmã, D. Fernanda, está trazendo não serão em número suficiente para atacarmos o castelo.
- Bem eu sei, Condessa. Mas os homens estão dispostos a lutar por D. Afonso.
- Sabemos disso, General, mas não seria justo sacrificá-los se sabemos que as possibilidades de vitória são pequenas, quase nulas.
- E o que a Senhora pretender fazer.
- Tenho um plano. Vamos resgatar meu pai.
- Impossível, Senhora!
- General, já lhe disse que essa palavra é proibida por aqui. Mais ainda se vinda da sua boca!
- Perdão, Condessa, foi apenas uma expressão de surpresa pela idéia.
- Reúna quatro dos seus melhores homens. Iremos até o castelo durante a noite. A pé, que é para não chamar a atenção.
- Mas Condessa, são 50 Km daqui até lá. Levaremos no mínimo cinco noites andando.
- Não lhe parece que eu já tenha pensado nisso?
- Descupa, não foi bem isso que eu quis dizer, mas é que...
- O quê?
- Não imaginei que a Condessa fosse junto!
- É claro que vou. E D. Fernanda também. Já mandei um mensageiro avisá-la para que venha antes. Não apenas vou, como seremos nós, eu e minha irmã, a entrar na cela do nosso pai para retirá-lo de lá. Vocês apenas serão a nossa proteção.
- Condessa, devo lembrar-lhe a sua condição de herdeira do blog.
- E de que adiantaria herdar o blog sem meu pai? Está decidido. Hoje pela manhã passarei o plano para vocês. Já determinei aos homens que comecem a preparar o material que julgo vá ser necessário. À noite, tão logo D. Fernanda chegue, partimos.

Não era uma época boa. A lua cheia poderia atrapalhar. A Condessa foi dormir preocupada.


O Sonho

Demorou para dormir. Pensava em todas as alternativas para o seu plano. Quando finalmente conseguiu, viu-se sozinha no centro de uma imensa planície. Olhou para todos os lados e apenas vislumbrou uma pequena árvore no longínquo horizonte. Aquele vazio trouxe-lhe uma sensação de solidão. De uma insuportável solidão. Lembrou-se dos seus tempos de bebe, mimada por D. Afonso. A lembrança do pai fez cairem-lhe as lágrimas. Desatou a chorar como chorava quando era pequenina e queria o aconchego do colo do pai. Tentou controlar-se e começou a caminhar na direção da árvore. Talvez por ali haja alguém, pensou.


Quanto mais caminhava, mas a árvore se afastava. De repente, sem que pudesse imaginar de onde teriam saído, aparecem na sua frente três hienas. Nem mesmo seu treinamento militar foi suficiente. Desmaiou. Ao desmaiar, acordou. Ainda tomada pelo sonho, foi percebendo, aos poucos, que se encontrava em sua barraca. Chamou imediatamente um soldado da guarda.

- Soldado!
- Senhora?
- Traga aqui, imediatamente, D. Cláudio.

D. Cláudio era o especialista da corte nas artes de interpretar os sonhos. Assim que D. Cláudio chegou, a Condessa contou-lhe seus planos e o sonho que acabara de ter.

- O que significa meu sonho, D. Cláudio?
- Não vá, Condessa. O sonho foi um aviso de que o plano não terá sucesso!
- Explique melhor.
- Perdoe-me a lembrança, Condessa, mas já notou como sua mãe não aparece nessa história?
- Já pensei nisso, mas deve ser porque ela está cuidando dos seus afazeres, mantendo a ordem na casa, agora que meu pai está longe.
- A árvore é sua mãe, Condessa. É a árvore que dá flores e frutos, que procria e multiplica com suas sementes. São as árvores, assim como as mães, que ficam as raízes no solo e nos dão a firmeza diante das intempéries da vida. É a ela que recorremos quando o vento sopra forte, quase a ponto de nos derrubar. É no seu colo que sentamos para nos guardar do sol escaldante, que nos machuca a pele assim como a vida nos machuca a alma.
- E por que ela se afasta de mim no sonho?
- Não é ela que se afasta. É a Senhora!
- Como assim?
- É tipico da fase que a Senhora está passando, se me permites dizê-lo assim. A descoberta da existência separada da mãe a leva a procurar pelo pai. Por essa razão esta empreitada que estás a iniciar, Condessa. Sua mãe e a Senhora, que até então pareciam ser a mesma pessoa, começam a se afastar.
- E a planície?
- Mais do que a planície, importa analisar o sentimento de solidão. A planície é grande e infinita como a vida. E nela estamos sempre sozinhos. Por essa razão disse que o sonho era uma premonição. Mesmo sem saber, a Senhora começa a se dar conta de que só dependerá das suas próprias forças para alcaçar o que deseja na vida.
- Muito ouvi meu pai dizer isso para D. Fernanda, minha irmã.
- E certo ele estava, Condessa.
- E as hienas, que me dizes delas?
- Essa é a pior parte do sonho, Condessa. As hienas representam todos aqueles que estarão rindo da Senhora, duvidando da sua capacidade, desejando o insucesso, o fracasso. Estão em toda a parte e aparecem de onde menos se espera. Por isso, no sonho, surgiram do nada. Estão entre os que se mostram amigos, mas no fundo são invejosos. Prometem defendê-la, mas serão os primeiros a apontar a arma da traição. Precavenha-se de quem levará junto ao castelo.
- Tenho medo, D. Cláudio.
- Ter medo é humano e nobre, Condessa.
- Vais comigo, está decidido!
- O que posso fazer eu, simples interpretador de sonhos?
- Muito D. Cláudio, muito.

PS: A Yvonne (NPN) é a feliz ganhadora de um brinde surpresa do Chato, por ter postado o comentário de número 2000.

A FADA conquista sua primeira vitória

Tropas da FADA conseguiram hoje sua primeira vitória contra as FRC. Numa batalha sangrenta, às margens do rio Inhatium, tropas leais a D. Afonso XX, comandadas pela Condessa Clarissa, derrotaram a guarnição das FRC que protegiam a passagem do Inhatium.

O rio Inhatium é estratégico na defesa do castelo onde se encontra preso D. Afonso XX. Situado a 50Km do castelo, o rio praticamente circunda a propriedade, tornando-se necessária a sua travessia para chegar a prisão. O rio apresenta apenas um ponto de passagem, que estava fortemente guarnecido pelas tropas das FRC.


Única passagem sobre o rio Inhatium.

Condessa Clarissa, estudiosa dos grandes generais da antigüidade, lançou uma manobra diversionista, como forma de distrair o inimigo. Um pelotão de 50 cavaleiros avançou diretamente sobre a guarnição. Pensando tratar-se apenas de um bando de fanáticos defensores de D. Afonso XX, as tropas da FRC deslocaram apenas 100 homens para enfrentar o ataque. O restante permanceu em repouso.

soldados leais a D. Afonso XX no momento em que atacavam a guarnição das FRC.

Enquanto isso, Condessa Clarissa posicionava seu exército, com 15.000 homens de infantaria, 700 cavaleiros e 230 peças de artilharia, à esquerda da passagem. A escolha mostrou-se acertada, pois o flanco esquerdo estava enfraquecido. As FRC julgavam estar protegidas pelos bosques e pela densa mata ciliar.

Distraídos que estavam em lutar com os 50 cavaleiros, as FRC não viram a aproximação do exército da FADA. Foram completamente dizimados. Cinco mil homens morreram. Nosso correspondente informa que Condessa Clarissa estacionou suas tropas, após a passagem pelo rio Inhatium, para aguardar reforços. A travessia mostrou-se mais lenta do que o previsto inicialmente, pois a ponte parecia não suportar o peso dos canhões.

O Chato conta com 50 mil homens para a defesa do castelo, além de modernos canhões made in Taiwan, trazidos do Paraguai. Ela sabe que a época das chuvas se aproxima e que deve atacar o castelo logo. A Condessa teme que D. Afonso XX não resista por muito tempo.

Nosso correspondente entrevistou Condessa Clarissa.

CN - Condessa, qual a sua opinião sobre a revolta do Chato?
CC - Uma traição! Meu pai sempre o tratou com carinho e deferência. Se ameaçou acabar com ele foi por culpa do próprio Chato. Andava questionando demais. Pura ambição de querer tornar-se independente.
CN - E as afirmações que ele anda fazendo sobre D. Afonso XX?
CC - Uma injustiça o que dizem do meu pai. Ele é um homem consciente da sua posição. Sempre tratou seus leitores com carinho e atenção. Sempre que possível respondia a todos os comentários. Nunca deletou umzinho que seja.
CN - E quanto à acusação de que D. Afonso XX demora para publicar a continuação de histórias e receitas?
CC - Ora, isso é assim mesmo. Meu pai tem outros afazeres que não apenas escrever no blog. Não vamos esquecer que ele preza a família em primeiro lugar. E tem mais, se ele fosse escrever tudo o que quer, aí sim ninguém mais viria aqui. Seriam posts longos e ninguém gosta de posts longos. Por isso fazer as séries de posts.
CN - A Senhora viu o bilhete onde D. Afonso XX acusa o Chato de torturá-lo com cerveja quente?
CC - Infelizmente vi. É um sofrimento para ele! Isso demonstra a maldade do Chato. Ele sempre soube que meu pai adora uma cervejinha gelada. Não há tortura maior do que ter que tomar cerveja quente! O Chato há de pagar por isso!
CN - A Senhora já leu O Pequeno Príncipe?
CC - Não. Meus livros de cabeceira são "A Arte da Guerra" e "Princípios Gerais da Guerra", ambos escritos por Frederico II, o Grande.
CN - Uma última pergunta. É possível vencer O Chato?
CC - Vai ser difícil, mas não impossível. Não posso revelar quantos homens teremos para a batalha final, mas creio que será o suficiente se eu escolher a melhor estratégia. O importante é que são homens que amam meu pai acima de tudo. Estão dispostos a morrer por ele.

A FADA - Força de Apoio a D. Afonso, num ato de bravura de seus hackers, conseguiu penetrar nos sistemas da Verbeat e acessar este blog, para mostrar a vedadeira face do Chato. Estão torturando D. Afonso XX.

Nossos espiões conseguiram resgatar um bilhete escrito por D. Afonso XX, onde fica claro a espécie de gente que pertence às FRC.


Não podemos permitir que essa situação permaneça. Organizamos nossas forças para a defesa de D. Afonso XX. Tudo faremos para resgatar a dignidade da Chatolândia e a liberdade de seu povo.

Não se enganem com mensagens de defesa dos direitos humanos e de melhorias nesse blog. O Chato é um tirano da pior espécie. Apelamos para a comunidade internacional: que iniciem um boicote ao Chato.

NÃO MAIS COMENTÁRIOS ATÉ O RETORNO DE D. AFONSO XX.

Condessa Clarissa, Comandante da FADA.

As Forças Revolucionárias do Chato, FRC, comunicam que depuseram, após violentas batalhas, D. Afonso XX do comando deste blog. A seguir, comunicado oficial do nosso Comandante, O Chato:


Leitores, comentadores e visitantes deste blog.

Não nos restou outra alternativa, diante das seguidas ameaças de que sois testemunha, senão retirar D. Afonso XX do comando desse blog. Fomos vilmente afrontados e ameaçados, no post de sexta-feira, de sermos retirados da blogosfera.

Não podemos permitir que tal aconteça. Há muito suportamos as loucuras de D. Afonso XX. A tudo assistimos e a tudo lemos quietos. Ontem, porém, D. Afonso XX, num acesso de estupidez humana, e em pleno calor de 37ºC resolveu fazer uma lazanha e ameaçou-nos com a publicação da receita.

Tudo tem um limite e a ele chegamos. Não bastassem os últimos acontecimentos, soubemos que D. Afonso XX resolveu escrever em outro blog, escondido sob o pseudônimo de Henrique VIII. É a traição declarada, assumida.

Infelizmente houve resistência por parte das forças que o defendem. Sangue do povo foi derramado. Injustamente, sabemos, mas necessário. A liberdade, no entanto, há de recompensar as famílias que perderam seus filhos lutando pelo nosso ideal. Não mais séries incompletas; não mais receitas de gororobas; não mais recordações de infância.

As FRC defendem os direitos humanos e mantiveram D. Afonso XX com vida. A foto a seguir é testemunho da nossa boa vontade.


É um belo lugar, com vista panorâmica para as montanhas.


Quem quiser visitá-lo, aqui está o local:


Por fim, forçados somos a dizer que, se D. Afonso XX não aceitar os termos e condições impostos, não nos restará outra opção senão arrancar-lhe a cabeça.

O Chato.

Pois é,


3. Preparo à moda "meu pai"

Finalmente, ao menos uma vez na vida, você poderá fazer algo de útil para sua família no domingo. E isso graças ao Chato. Lembre-se: só o Chato faz por você o que nem você é capaz de fazer!

Vamos rever os ingredientes:

- 1,5Kg de batata;
- 1 cebola média;
- 1 maçã;
- 1 vidro de maionese;
- 2 latas de atum ralado;
- azeite de oliva;
- sal;
- 1 pé de alface;
- 2 ovos;

Descasque as batatas e coloque-as para cozinhar com sal. Como essa não é uma receita econatureba, descasque as batatas. Você vai entender porquê! Aproveite e coloque os dois ovos junto (os da galinha). Vamos economizar água e gás, né?

Depois de cozidas, exprema as batatas como se fosse preparar um purê. Reserve duas a três colheres de sopa de maionese (para a decoração) e misture o restante à batata. Misture bem até obter uma mistura homogênea.

Descasque a cebola e passe no ralador manual. Como essa não é uma receita econatureba, descasque a cebola. Você vai entender porquê! E, por favor, não use esses aparelhinhos americanos de moer tudo. Eles transformam tudo numa passoca e, nesse caso, faz parte da salada a percepção da existência da cebola e não de passoca de cebola. Misture-a à batata com maionese. Misture bem até obter uma mistura homogênea.

Descasque a maçã e retire a parte das sementes. Como essa não é uma receita econatureba, descasque a maça. Você vai entender porquê! E, por favor, não use esses aparelhinhos americanos de moer tudo. Eles transformam tudo numa passoca e, nesse caso, faz parte da salada a percepção da existência da maçã e não de passoca de maçã. Misture-a à batata com maionese e cebola. Misture bem até obter uma mistura homogênea.

Aqui uma dica de sabor que só o Chato dá para você: a maçã vermelha (fuji, gala, argentina) dará um sabor levemente, mas muito levemente mesmo, adocicado para a salada. Perceptível apenas por pessoas dotadas de paladar sensível, refinado. Você fará um sucesso enorme. Não se preocupe se o adolescente que você colocou no mundo, acostumado a comer McDonalds, não perceber. Um dia ele cresce e vira gente. Por outro lado, você também pode utilizar a maçã verde. Nesse caso a maçã dará um sabor levemente, mas muito levemente mesmo, ácido para a salada. Perceptível apenas por pessoas dotadas de paladar sensível, refinado. Você fará um sucesso enorme. Não se preocupe se o adolescente que você colocou no mundo, acostumado a comer McDonalds, não perceber. Um dia ele cresce e vira gente. Viu? Duas receitas em uma. O Chato é o must!

Abra as latas de atum e escorra o líquido. Como essa não é uma receita econatureba, retire o atum das latas. Você vai entender porquê! E, por favor, use o abridor de latas. Utilizar a faca de cortar carne costuma ser perigoso, além de tirar o fio da faca.

Aqui outra dica de sabor que só o Chato dá para você: esqueça o filho adolescente que só come McDonalds e pense nas mulheres da sua família. Se elas estão naquela fase triste de se acharem gordas, cada vez que La Bündchen aparece na TV, use atum Light. Misture o atum à batata com maionese, cebola e maçã. Misture bem até obter uma mistura homogênea.

Coloque azeite de oliva a gosto. Vamos combinar uma coisa: larga mão de ser murrinha e vê se não usa óleo de soja, OK? Tem que ser azeite de oliva. Entendeu agora porque deveria ter escorrido o azeite das latas de atum? É, é pra não misturar com o azeite de oliva e estragar a sua salada especial.

Prove e acrescente sal se necessário.

Para terminar, descasque os ovos e pique-os bem picadinhos. Como essa não é uma receita econatureba, descasque os ovos. Você vai entender porquê! E, por favor, não use esses aparelhinhos americanos de moer tudo. Eles transformam tudo numa passoca e, nesse caso, faz parte da salada a percepção da existência dos ovos e não de passoca de ovos. Além do mais, decoração com passoca de ovos é out nesse verão.

Decore as bordas do refratário, ou da travessa, com folhas de alface. Como essa não é uma receita econatureba, lave a alface antes. Não será nada agradável se, depois de tudo isso, seu filho adolescente acostumado a comer McDonalds, encontrar uma lesminha passeando no prato. Tudo bem que ele gosta de carne de minhoca, mas lesma e outros bichinhos, ainda não.

Coloque a salada no refratário, ou travessa. Passe a colher por cima para alisar e dar forma de uma pequena colina, dessas que você vê nos campos, quando viaja. Por cima, espalhe as colheres de maionese que estavam reservadas. Salpique tudo com os ovos picados.

Leve ao refrigerador por uma hora no mínimo. Lembre-se que as batatas estavam quentes.

Enquanto a salada esfria, vá ler o novo blog:

Meu imposto

Pois é,


- Te deste conta do que estás fazendo, Afonso?
- Como assim, Chato?
- Estás de férias e foste a uma reunião de trabalho na quarta-feira!
- Que é que tem?
- E ainda vais a outra hoje!!!!
- Qual é o problema?
- Logo tu, que vives pregando a humanização do ambiente de trabalho, essa coisa de qualidade de vida, a não exploração do trabalhador. Cadê juntar a teoria com a prática? É só para os outros?
- Não é bem assim, Chato. Eu sou responsável pelos projetos...
- Certo, já cansei de ouvir isso. Assim como estou cansado de te ouvir dizer que ninguém é insubstituível. E se tivesses ido viajar? Como ficariam as coisas?
- Sei, mas não fui viajar. Estou aqui e não me custa nada ir até lá.
- Será que não custa? Pensa bem: o que fizeste por ti, nessa primeira semana de férias, além de escrever uns postezinhos um pouquinho mais inspirados? A continuar assim, tenho quase certeza que não vais conseguir terminar metade das maluquices que andas inventando. E mais, quando trabalhavas, ainda conseguias visitar todos os blogs amigos. E agora? Não te esconde! Sei bem que andas em falta com isso.
- Deixa eu te dizer uma coisa, Chato?
- Se é para dizer as mesmas desculpas de sempre, já as conheço.
- Fica quieto, Chato! Eu te ouvi. Agora é minha vez de falar.
- Seja breve, então. Uma coisa é eu te agüentar, outra são teus já poucos leitores.
- Poucos não, tá. É que eles devem estar de férias e aproveitando. Não iam perder tempo lendo as minhas bobagens.
- Ahá, te peguei! Por que eles podem aproveitar e tu não?
- Olha lá, Chato, que paro contigo! Não abusa do fato de teres alguma intimidade comigo!
- Não tens coragem para tanto!
- Será que não? Queres ver como fico uma semana sem postar? Claro que depois de postar a receita da salada.
- E te parece mesmo que alguém está interessado nas tuas, como dizes, gororobas?
- Imagino que sim, afinal é uma receita do meu pai.
- E daí? Todo mundo tem pai que cozinha.
- Todo mundo não! Tem umas nulidades gastronômicas que não sabem sequer fritar um bife!
- Mas esses pelo menos assumem. Não são como tu que fica tentando passar uma imagem...
- Quer saber de uma coisa, Chato?
- Depende.
- Não, não depende. Qualquer dia vou é tirar férias de ti.
- Então tá, vai trabalhar nas férias, vai. Depois não me venha reclamar!
- Chato?
- Sim?
- Tá bom, me convenceste. Não fica brabo comigo se pelo menos eu der uma telefonadinha pra saber como andam as coisas por lá? Prometo que não vou, é só uma telefonadinha...
- Vai, telefona!! (saco esse cara!)

Imagem: http://www.ballarat.edu.au

Pois é,


Hoje é dia da padroeira de Porto Alegre, Nossa Senhora dos Navegantes. Tradicionalmente chove e faz frio em Porto Alegre no dia 2 de fevereiro, a ponto de parecer um dia de inverno. A procissão torna-se um mar de guarda-chuvas.


Hoje não está chovendo. E está quente. A previsão é de que faça 30ºC ao longo do dia. Ainda bem que é feriado.

E não perca, no sábado, a terceira e última maneira de fazer a "salada especial". Assim você poderá fazê-la para o almoço de domingo. Reúna a família e diga que você inventou uma salada nova. Vai ser o maior sucesso. Ah, e não precisa dar os créditos. Aproveite mais essa promoção imperdível do Chato.

Pois é,


2. Preparo à moda preguiçoso

Devido aos inúmeros telefonemas e cartinhas recebidos em nossa redação, pedindo peloamordedeus que publicassemos logo a receita da salada especial preparada à moda preguiçoso, adiantaremos o post que seria publicado na próxima semana.

Essa receita possui duas variantes:

Variante 1

Vá ao supermercado e compre: 300 gramas de salada de maionese e 300 gramas de salada de atum com cebola. Ao chegar em casa, misture ambas.

Variante 2

Nem todos os supermercados vendem salada de atum com cebola. O meu vende, mas não tem tele-entrega, menos ainda para outros estados/países. Assim, compre 300 gramas de salada de maionese, uma lata de atum ralado e 1 cebola. Corte a cebola em rodelas, abra a lata de atum e misture ambos na maionese.

Pronto, você tem aí uma deliciosa salada especial preparada à moda preguiçoso. Acrescente sal e azeite de oliva a gosto.

A seguir: 3. Preparo à moda "meu pai".

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