Pois é,
Acabaram as minhas férias. Amanhã (hoje, se alguém estiver lendo isso na quarta-feira) retorno ao trabalho. Não posso negar que um misto de saudade e frustração tomam conta de mim. Saudade porque, afinal de contas, gosto do meu trabalho. Sei, sei, coisa rara nos dias de hoje. O que fazer!? Frustração porque não fiz 99% das coisas que pensei que faria. E o que fiz? Noventa e nove por cento nada e um por cento escrevi nessa coisa aqui. E essa foi a grande novidade para mim. Mas, vamos por partes...
"Acabaram as minhas férias..."
Descobri a pintura, a música clássica e o prazer pelos livros ao mesmo tempo na minha adolescência. A leitura vinha de antes. Cresci vendo meus pais agarrados nos livros. Para uma criança que cresce vendo os pais lendo, ler é um ato tão natural quanto comer. A música também. Tenho até hoje todos os LPs do meu pai e, se há algo na vida do que possa me arrepender, foi o dia que joguei fora um monte de discos de 78 rotações que ele tinha.
Se alguém mais jovem está lendo esse post, permita-me dizer que antes do CD e do LP existiam os discos de 78 e 45 rotações (os LPs tocam a 33.1/2 rotações, pra quem não sabe). Pois eu tinha uma coleção deles e joguei fora. Pra que serviriam hoje em dia se sequer aparelho teria para tocá-los? De muito, talvez.
OK, os mais atentos e freqüentes dirão que já devo ter contado isso por aqui. Muitas e muitas madrugadas passei pintando e ouvindo música. Nunca me incomodou estar sozinho. Como bom geminiano que sou, sempre soube arranjar algo para fazer. Tirando duas ou três namoradas que me custaram uma semana cada uma, de resto sempre soube lidar bem com "estar sozinho".
Na música, nunca tive competência para ser algo mais que um reles ouvinte. Certa vez namorei uma pianista clássica. Ela bem que tentou me ensinar a tocar piano, instrumento que mais gosto, mas, a quatro mãos, não podia dar certo. De vez em quando apertava algumas teclas que faziam um som tipo "ui, ai, mais", que, mesmo na minha ignorância musical, eu sabia não serem as tais famosas dó,ré,mi. Não aprendi a tocar e também perdi a namorada. Não que ela não gostasse da forma como eu tocava aqueloutras teclas, mas eu era um adolescente safado e queria tocar outros instrumentos ao mesmo tempo. Ela, por óbvio, tinha sonhos de uma carreira solo para mim. Bem feito pra mim, fui pego por ela tocando o violão de outra namorada. Águas passadas.
Descoberta minha incapacidade para a música, tentei, como todo adolescente babaca tenta, escrever. Poesias, que não existe nada melhor pra ganhar mulher do que poesia. Ainda mais quando a gente recicla e diz que foi feita exclusivamente para elas. Uma de cada vez. Já fiz isso. Uma mesma poesia entregue originalmente para duas ou três namoradas. Também aí acabaram as minhas pretenções de escritor.
Nunca me passou pela cabeça escrever. Até escrevo bastante, mas somente sobre assuntos técnicos. Foi então, que, nessas ferias, a coisa veio. E veio quase que de supetão.
Mentira!
Não existe supetão nesse mundo de 60.000 mil anos de espécie. O caldo estava aí, só faltava a maldita pitada de sal. E descobri que escrever é como cozinhar: a gente só aprende fazendo. Da primeira vez a gente faz uma massaroca: ou queima tudo, ou salga tudo. E não existe "receira de bolo" que te salve. Tem que "meter a mão na massa". E não tenham dúvida, pois eu tenho certeza, de que escolhi a pior maneira possível de começar: online. Carai, como dizem por aí!
Sempre fui meio autodidata nas coisas que aprendi. Mas até eu achei exagero começar uma histórinha e logo online. Uma coisa é ter uma idéia; outra, bem diferente, é ter a técnica para desenvolvê-la. E mais, ter tempo para isso. Chega um momento em que a coisa toma uma proporção inesperada, as personagens começam a exigir performance (já me disseram que essa palavrinha é desgraçada, eu sei), e chega o tal momento: ou a gente pára e leva tudo na brincadeira, ou começa a se organizar, planejar, pensar, estruturar. E isso tudo dá trabalho.
As duas idéias que venho desenvolvendo (uma mais que a outra):
- um blog que adquire personalidade própria e se revolta contra o seu criador. Era pra ser uma história infantil. Uma história para contar para a Clarissa, dessas que a gente conta na hora de dormir. Bobagem, eu sei, mas é um pouquinho de orgulho, criar suas próprias histórias para a filha. Para fazê-la sentir-se importante, salvadora da vida do pai. Para que cresça sentindo-se uma protagonista da vida e não uma coadjuvante; não que estes não sejam importantes, é claro! Com a Fernanda foi diferente: para ela eu cantava. À César o que é de César... Mas me perdi no meio do caminho. Já misturei cenas de adultos, obviamente impróprias para um criança dormir (sequer para ficar acordada!). E por quê? Porque o aprendizado é assim. A gente vai testando as próprias dificuldades. E a mais difícil delas: livrar-se dos estilos alheios, da influência de tudo quanto se leu ao longo de quarenta e quase tantos anos de vida e construir algo próprio, se é que isso existe. Vá lá! Se vocês não me perdoam pela tentativa, eu mesmo já me perdoei.
- A segunda idéia me parece mais interessante - e infinitamente mais difícil que a primeira: baseia-se no conceito de reencarnação e na teoria de que, em cada encarnação, não sabemos o que fomos nas outras. Assim, três encarnações da mesma pessoa se encontram na cabeça de uma delas. Na cabeça da pessoa do presente, a minha. Uma encarnação passada, uma presente e outra futura. E a história gira em torno das histórias de cada uma, que as demais não conhecem. Como eu teria sido numa encarnação da Idade Média, em meio a uma batalha medieval, sendo um simples camponês analfabeto? E como serei se voltar num futuro longínqüo? Será que meu antepassado medieval (que existiu de verdade) pensava no que seria hoje, isto é, eu? E eu, será que consigo imaginar o que serei num futuro se sequer consigo imaginar o que estarei fazendo amanhã (além de trabalhar)?
Essas coisas me perturbam. E por quê? Porque como todos, acredito, eu vivo com a sensação de que não pertenço a essa época! Identificações, nada mais. Identidade com o passado e com o futuro, menos com o agora.
Talvez isso se deva a que nossa época está desprovida do "glamour" (só para usar a palavrinha que a Roma me lembrou) das eras medieval e futura. Vivemos numa época de transição das mais sem graça da história da humanidade. E isso me faz viajar pelo tempo. Faz-me imaginar como teria sido a vida dos meus antepassados no País Basco medieval, onde tento ambientar a primeira personagem. É interessante porque envolve muita pesquisa histórica, de costumes, moradias, falas e culturas. Parece ser mais fácil por ser passado e estar nos livros e na internet, mas nem por isso deixa de ser difícil. O futuro parece simples. Futurólogos é o que não falta nos dias de hoje. Júlio Verne anteviu coisas passadas no futuro, mas no futuro da Terra. Hoje não é mais possível imaginar que o futuro será exclusivamente na Terra. Ou será?
E essa é a característica principal, a meu ver, dessa nossa época: jamais, em tempo algum, foi tão difícil imaginar um futuro. Perdemos o controle das nossas vidas. Pior: perdemos o futuro dos nossos filhos.
E é dessa luta entre a angústia de não saber mais o fututo e de tentar viver um presente, esquecendo que talvez exista um futuro, que o Chato deverá passar 2006.
Preciso ser mais líquido. Cada vez mais. Ou então parar de beber cerveja. Tadinho do D. Afonso, bebendo ceveja quente, pode?
- Afonso!
- Chato???
- Sim, sou eu.
- Mas... como?
- Não procura por explicações onde elas não existem. Eu bem que tento te avisar sobre isso.
- Sobre o quê?
- Sobre ser mais líquido. Talvez não tenha escolhido a metáfora correta, te encher de cerveja quente, mas faço o que posso. O fato é que queres me tornar sólido demais. Não estava nos nosso planos, lembra?
- Nossos planos uma ova! Nos meus planos. Meus! Ouviste bem?
- Depois não reclama, Afonso. Continuas achando que só tu existe.
- E não é assim, por acaso? De onde pensas que sai tudo, senão da minha cabeça?
- Afonso, Afonso! Vai devagar, meu caro. Quem sabe descobres algumas coisas que não sejam do teu agrado, se continuares com essa história.
- Pois vou continuar, custe o que custar. Até mesmo se custar a minha sanidade, ou perder meus seis leitores! (o que vier primeiro)...









































