São tantos os tempos...

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Pois é,


Nasci no mundo errado. Ou na época errada. Tanto faz. Talvez o fascínio por certas épocas, pretéritas ou futuras, cause essa sensação de delocamento. O certo é que não sou do agora. Mas também não de qualquer época. Algumas em especial.

Das pretéritas, estive em duas, com certeza. E algumas outras de vagas lembranças. A primeira, na Terceira Era da Terra-média e, após, na que comumente os historiadores a ela se referem como Idade das Trevas. Injustamente, é claro. Pois como estava lá e a tudo recordo, reputo no mínimo leviano esse rótulo. Das futuras falarei depois. Afinal, são futuras; e perderiam a graça caso as contasse antes de contar as pretéritas. E é o que faço agora, primeiro as pretéritas, depois as futuras.

Façamos, antes, um breve e necessário exercício de imaginação. Fechem os olhos e procurem visualizar uma pequena travessia por entre os Pirineus. Única passagem, e somente durante o verão, entre o que conhecemos, atualmente, por França e Espanha. Não, não vou descrever a paisagem aqui. É um exercício, lembram? Qualquer coisa que escrever jamais corresponderá a realidade do que vocês mesmos podem estar imaginando, se é que realidade e imaginação podem ser a mesma coisa. Até porque, eu descreveria a paisagem de mil e tantos anos passados. Vêem aquela árvore? Sim, pensarão consigo. Mentira, eu lhes diria. Eu mesmo a derrubei para fazer a mesa onde comíamos, minha família e eu. Muitas árvores foram derrubadas de lá para cá. Não será a mesma coisa, se é que me entendem. Abram os olhos!

Não haverá aventura e não há romance. Somente a simples vida de um camponês que veio ao mundo e tal qual sairá dele. Não sabia, até então, ocupado que andava com a vida, o que era passado e, menos ainda, o que seria futuro. Futuro devia ser deixar essa pequena porção de terra, que dirão, à época, me pertencer, ao meu filho primogênito, embora tivesse mais oito a pedir comida todos os dias.

Paremos com essa confusão temporal. Narrativa hoje de um tempo pretérito descrevendo algo que poderia ou não acontecer num futuro que, visto de hoje, é um pretérito que não aconteceu. Ou teria acontecido caso as circunstâncias tivessem sido outras. Fechem os olhos novamente e retornemos ao presente. Presente no passado. Claro que, em assim sendo, hoje seríamos o futuro do presente.

Ótimo! Assim está melhor. Retorno a minha vida presente no passado. E se hoje estou aqui, é porque também estive lá e fui, pasmem, pai do meu filho! E que resultou ser, ao longo dos anos e anos, meu ancestral. Já devem estar imaginando que no futuro serei um descendente de mim mesmo. Calma, o futuro vem depois!

Imagem: Persistência da Memória, Salvador Dali.
http://www.worldventurefunds.com/suissefinancialgroup/dali_persis.html

11 Comments

pois eu também tenho fascínio pela idade média, que de trevas não tem nada (se formos comparar, a barbárie é hoje!!!). no primeiro mestrado que fiz optei por literatura e fiz uns cursos sobre textos medievais. fiquei simplesmente apaixonada. pena que não conclui e a vida me levou pra outro lado. show tb é a tua narrativa. beijão

Sua regressão foi perfeita. Você não foi um ourives na corte do rei sei lá, nem um monge budista de um templo perdido.

(Se bem que também estava perdido, porque todos estamos).

Você foi apenas um ser humano como tantos outros. O que já é uma grande (a)ventura.

Estou ansioso pelo salto ao futuro.

Continue lendo, hehehe (a propaganda é a alma do negócio...) abração

Dom Afonso, adoro quando voce alucina! Becitos!

hehehe me aguarde então, romita. beijão

Como disse anteriormente, eu viajo! E vivo lembrando coisas que não vivi. E conto histórias dos outros como se estivesse lá.
Mas não troco minha vida normalzinha com ninguém!
Beijões.

Viajar é sempre bom, mesmo que apenas na imaginação. Pra isso servem os livros, não? beijão

Se a gente pudesse escolher apenas algumas coisas de cada época! Enquanto estou na Idade Média Baixa, durante as leituras que faço,penso que não suportaria viver naquelas condições por muito motivos, e ao mesmo tempo me encantaria estar lá.

Interessante, pois vives num país cheio de memórias dessa época, né? beijão

Adorei o post de hoje!
Terra-Média?? Humm... Curte Tolkien?
Bejinhos...

Gosto e muito Nina. Li a primeira edição brasileira, quando sequer era conhecido por aqui. Tive oportunidade, também, de ler a edição inglesa (não toda, é claro). Fiquei surpreso quando resolveram transformar o livro em filme. Fiquei com medo que estragassem a história. Mas não. Foi excelente! beijão

Não haverá aventura e não há romance?! Eu quero viver num mundo assim, ah como quero! Hahaha. Genial o texto, meu amigo. Um beijo e obrigada por lembrar do meu aniversário, você é um queridão.

Gracias, Roberta! Mas veja a seqüência, heheheh beijão

Anda fazendo regressão, Afonso?

E quem disse que sou eu, Sandra? beijão

O grande desafio para quem se sente deslocado no tempo é se adaptar. Abraço.

Ou mudar o tempo, Carlos.... abração

Pois é, acho que mesmo lá nas Trevas seu antepassado, Chato como vc é, deve ter se sentido deslocado. Talvez porque tempo e espaço são algo, como chifres, que colocam na sua cabeça.

Legal a analogia, hehehe abração

Afonso, mesmo com tudo que está acontecendo nos dias de hoje, eu digo que estou vivendo a minha vida ao vivo e a cores. No entanto, gosto de viajar através dos tempos e me imaginar em determinadas situações. Beijocas

Mesmo porque, Yvonne, não temos outra a não ser essa. beijão

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on janeiro 20, 2006 12:03 AM.

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