Pois é,
Que seja dito, a bem de preservar a verdade, que romance há. O aviso foi dado para que não se imagine tratar-se daqueles romances de deixar mocinhas a chorar. Mas camponeses analfabetos, em plena idade média, também amam. E nem sempre os filhos são feitos para se ter mão-de-obra para capina e colheita. Há, ao menos, aqueles que são frutos do amor. Pelo geral não mais de dois ou três. Os demais até podem ser frutos da natureza.
De aventura também não se pode falar, quando se é convocado para um grande exército, somente para tirar as terras de outros camponeses, também analfabetos e da mesma raça, e apenas por vontade de um rei. Talvez dele, o rei, se possa falar em aventura. De uns poucos a história registra a vida como feita de heroismo. Dos pobres e daqueles que morrem aos montes, desses ninguém sabe e nada se registra.
Um rei havia. Rei não, Imperador! Sabemos, hoje, que imperador era mais que rei. Nossa tranqüila vilazinha foi, desde tempos imemoriais, porta de passagem de exércitos ansiosos por conquistas territoriais e expansionistas. Os romanos cá estiveram e deitaram ao chão um acampamento, lá pelo século segundo após aquele que diziam ser o Cristo. Não o conhecemos pessoalmente - o Cristo, claro - posto que os romanos há muito foram expulsos da região.
Eis-me cá, agora, e quando falo agora, refiro-me ao tempo de hoje, sem entender bem a razão de ter nascido nesse lugar e nessa época. Bem poderia ter nascido duzentos anos após e ser um feliz trabalhador da indústria ou, quem sabe a sorte tivesse se lembrado de mim, nascido um grande industrial. Mas não. Nasci camponês em meio a uma batalha da civilização.
Meu pai, na virtude da sua simplicidade, ensinou-me duas coisas apenas: a amar a terra e a amar nossas origens. Por mais desconhecidas que sejam. Não importa. O que vale é a tradição, o sangue, a língua. Minha mãe, na sua virtude de mulher, ensinou-me a amar a família. A preservá-la acima de tudo. A respeitar os filhos e a guardar os pais e avós. Não conheci meus avós, mas guardo-os, conforme me foi ensinado. No meu tempo as pessoas ainda morriam cedo. Em plena força. Por isso aprendemos a respeitar os mais velhos. Ainda tinham a mesma força de quando eram jovens. Morriam de doença, não de tempo. E morriam nos ensinado a vida. Sei bem, pelas vidas futuras que tive, das quais falarei adiante - pois são futuras, já disse - que isso deixou de ser importante, nos dias contemporâneos.
Imagem: http://www.specola.unifi.it/cere/collezione-ceroplastica.htm









































"Nasci camponês em meio a uma batalha da civilização".
Pra se ver como a história passa e as coisas ficam. Estamos, você e nós, de novo aqui, como subalternos no meio de uma guerra que não entendemos.
Você é você em qualquer tempo e espaço. Só muda a "roupagem" e o cenário... Qual técnica tem usado? A da igreja no alto de um morro? Já tentei essa mas todas as vezes que desco ao porão e peço meu livro as páginas estão em branco.. Preciso treinar mais.
Beijão.
Afonso, os dois últimos posts estão ótimos. Valeu e muito. Beijocas