São tantos os tempos... III

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Pois é,


Acompanhe desde o início: primeiro aqui, depois aqui. Pronto, agora pode seguir.

Não sou homem de muitos pensares. Apenas sabemos fazer o necessário para continuar a vida. Uma vida rude, se comparada a vida dos senhores aos quais temos que dar parte da nossa. Do pouco que aprendi, por tradição, sei que nosso povo jamais deixou-se subjugar. A região sempre foi caminho natural para o espírito expansionista e travessia privilegiada por entre os caminhos das montanhas vizinhas. Desde sempre esteve em disputa pelos senhores, aqueles que nunca pisaram a terra, mas que dela se dizem donos.

A terra é de quem nela pisa e dos pés e mãos faz crescer a vida; alimenta-se e alimenta aos filhos. Como disse, sou homem de poucos pensares. Talvez por isso não entenda bem os tempos que se avizinham. Passou por aqui um cavaleiro, dizendo-se a mando de um grande senhor, convocando os aldeões - não todos, mas aqueles capazes de empunhar uma espada - para defender o reino dos invasores, que diziam ter vindo de terras muito mais longe do que um homem poderia chegar ao passo que tem nas suas próprias terras.

Conheço bem a região. Andei os caminhos que as montanhas permitem inúmeras vezes, desde que sou criança. Nossa casa já não é mais de pura madeira, como a construiu meu avô, mas hoje ergue-se sobre pedras também retiradas às montanhas e muitas delas eu ajudei a carregar, assim como muitas árvores derrubei para fazer madeira. É uma casa simples. Leve nos tempos quentes, forte nas tempestades e suficiente nos tempos difíceis do frio. Aos animais a natureza não os faz sofrer. Aos homens, deu-lhes a inventividade, a capacidade de transformá-la para proteger-se. Não fosse um homem de poucos pensares, pensaria que a natureza é sábia; os homens não. Aqui, a natureza nos dá o que precisamos. E não tiramos dela mais do que isso.

É costume do nosso povo, que o filho primogênito herde a propriedade dos pais. Aos demais, se homens, caberia sair de casa para alistarem-se aos exércitos dos senhores da terra ou ao exército do senhor do céu. Às mulheres restava, ou casarem-se com outros primogênitos - que não eram tantos assim, ou permanecerem na casa do irmão ajudando na criação dos mais moços e dos sobrinhos. E foi assim que, após a passagem do cavaleiro anunciando a guerra vindoura, esperei a chegada do meu irmão. Pressentia seu aparecimento. Ele não teve por outra opção a não ser juntar-se ao exército de um senhor que se dizia rei dos povos a leste das nossas terras.

Imagem: http://www.probicosl.com/html/viviendatradicional.htm
PS. Estou viajando. É pouco provável que tenha acesso à blogosfera até quinta-feira. Se morrer, vocês saberão logo. A Verbeat tem um serviço de anúncios fúnebres impecável.

10 Comments

Bobo!!! Quem disse que o céu está preparado para você????? Vais ficar aqui, pobre mortal!!!!!!! Aguentando os outros mortais... Volta logo!!!

Beijão.

Afonso, se você morreu o serviço de anúncios fúnebres do Verbeat não funcionou. Reclame com eles.

Post belíssimo.

Vc fez falta no encontro... eu eu o Paulo estamos aguardando uma folga sua para conversarmos...abraço.

Lindissimo. Me lembrou uma historia da origem da cidade aqui: uma profetisa disse a tribo dos Bois - que originaram a bohemia- que seguissem pelo rio Vltava ate encontrarem um homem simples, esculpindo o umbral da porta de sua casa (prahl=umbral). Quando acharam, estabeleceram a cidade e lhe deram o nome de Praha. Lindo o texto, dom Afonso, queria que voce estivesse aqui e respirasse o ar inspirador dessa cidade magnifica e maravilhosa! Becitos matrioskados!

P.s.: gastei duas horas pra postar esse comente: o teclado aqui eh cheio de ě, č, ř,ž,ý, e o seu comente exige @. Descobrir onde era foi uma aventura!

Eu tenho viajado mesmo sem sair do lugar! Beijos.

Sempre sei quando está viajando. Dá uma volta no tempo...Boa viagem!!
Beijus

Esse homem é meu ídalo! Como escreve bem, o bicho!!! :-) Volta logo!!!!

Bom dia....
Se vc morrer.....choraremos....mas a vida continuará....
Poréeeemmmm...como isso não vai acontecer tão já....rssss...pare de bobeira tá...e continue a historia....
Rss...
Bjs...

Afonso, nem pense em morrer. Quero mais relatos de suas vidas passadas que eu estou simplesmente amando. Beijocas

Que negó é esse de "se eu morrer?" Respondo como o velho político mineiro, ao perguntar a um possível eleitor sobre seu pai. -Meu pai já morreu, responde o cidadão. Mas o político não perde a pose: -Morreu pra você, seu ingrato, mas continua vivo no meu coração!

'tendeu?

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on janeiro 23, 2006 8:14 AM.

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