Dignidade Humana

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Pois é,


Pretendia publicar a continuação da historinha que venho escrevendo, mas um comentário da Leila, vizinha de condomínio, me fez repensar o assunto "desemprego".

Tenho, cá com meus botões, que o verdadeiro sentimento do que seja a tão falada dignidade humana, só o percebemos quando estamos desempregados.

Normalmente vemos o desemprego como mera estatística. Estamos acostumados a ver notícias relatando o aumento ou a diminuição do taxa de desemprego com tanta naturalidade quanta a que temos ao tomar banho. Mas não é - e não deveria - ser bem assim.

Convém lembrar que, a priori, todos nos achamos competentes naquilo que fazemos. É natural. Nenhum ser humano tem de si uma imagem ruim. Os que tem devem tratar-se, pois isso é um disturbio, uma disfunção ou, como talvez digam os psi, uma patologia.

Falando como leigo, creio que podemos dizer que um ser humano se sustenta em um tripé de conceitos, ou "visões": (1) a auto estima, que diz respeito ao modo como vemos a nós mesmos; (2) a alteridade, nossa consciência do outro e, muito importante, como os outros nos vêem e como pensamos ser vistos pelos outros e, (3) a dignidade humana, que diz respeito àquilo que todos temos em comum e nos define com seres humanos, distinguindo-nos do restante do mundo animal. E também, creio, a dignidade humana é a base do altruísmo. Nossa essência, enfim.

O desemprego nos atinge de formas diferentes e com profundidades diferentes, conforme o tempo. Começa por atingir a auto estima. Por mais consciência que tenhamos da nossa capacidade, das nossas habilidades, enfim, da nossa competência profissional, quando somos demitidos não é essa a parte atingida. Permanecemos, no início, cônscios do nosso profissionalismo. Mais, somos conscientes das nossas falhas e de que existiriam formas de superá-las. Bastaria que as organizações investissem no desenvolvimento das pessoas. Tanto é assim, que logo após a demissão, buscamos cursos e outras tantas maneiras de aperfeiçoar nosso "currículo". Não é por aí, portanto, que nossa auto estima é atingida.

A primeira fase do desemprego é aquela em que não acreditamos ser possível que tenha acontecido conosco. Aí começa a fraquejar a auto estima. Nas nossas crenças. E a primeira delas é a de ser "imune" aos eventos da vida. Tudo acontece com os outros, menos com a gente. Eu fumo e bebo, mas somente os outros morrem de câncer ou de cirrose. Nossa crença na imunidade faz parte - e grande parte - da auto estima. Não sei se existe, mas poderíamos chamar de "complexo de super-homem". Somos indestrutíveis. Até o primeiro desemprego, que é quando descobrimos nossa kriptonita. E aí nossa auto estima começa, literalmente, a ir para o brejo.

Em um desemprego rápido, isso é relativamente superado - não sem conseqüências - pois contamos com o segundo pilar: os outros. A família, os amigos e algumas outras pessoas, nos ajudam a superar o período. Em boa parte dos casos, pra não dizer na maioria deles, até financeiramente. Se a situação for resolvida logo, tudo bem. O difícil é quando esse período se prolonga. Aí somos atingidos na nossa imagem social. Tanto a que fazemos do que os outros pensam a nosso respeito, quanto aquela que efetivamente os outros tem de nós. E cai por terra a nossa independência.

A independência está para o outro assim como imunidade está para a auto estima. Nossa sociedade estigmatiza as pessoas dependentes. Não importa por qual motivo. O conceito de independência é tão forte, que tem sido transferido e imposto às mulheres. Independência de tudo e a todo custo. E o desempregado perde justamente a sua independência. Vive de pedir. E, já fracos pelo efeito da kriptonita, qualquer ajuda começa a soar como esmola. E esmola nos remete a quando a damos na rua. Não vemos o outro, somente a nossa satisfação - no sentido de realização - ao dar a esmola. Tudo se torna diferente quando somos nós a receber a esmola, mesmo que "esmola" seja um sentimento nosso, que não corresponde exatamente a ajuda que está sendo dada.

É nessa fase que muitos casamentos acabam e muitas famílias se desestruturam. Funciona, aqui, o velho ditado: "o casamento começa na cama e termina no bolso". Já passei por isso.

Por fim, e se o tempo de permanência nessa situação ultrapassar os seis meses - o que é muito comum, visto que a média de tempo para o reemprego anda por volta dos oito meses - começamos a perder nossa dignidade humana. Tornamo-nos diferentes, aos nossos próprios olhos e aos dos outros, dos demais seres humanos. Já, aí, completamente abatido na nossa imunidade e totalmente dependente dos demais, começamos a duvidar da nossa essência humana. Nessa fase até a ajuda da família começa a faltar, até por começarem a pensar - eles mesmos - que somos "vagabundos que só querem viver a custa dos outros". É terrível.

A perda da dignidade humana significa a perda da identidade. A identidade está para a dignidade humana, assim como a independência está para o outro e a imunidade está para a auto estima.

O desemprego atinge os três pilares.

Não pensamos nisso quando vemos as pessoas na rua buscando a sobrevivência; buscando manter, ao menos, a dignidade humana, a sua identidade. Reclamamos do camelô que atrapalha nosso caminho de empregados, sem parar para ver que são pessoas à beira de, muitas vezes, perderem a dignidade humana.

E já notaram como os vemos assim? Uma massa informe, sem identidade, que só nos atrapalha? É como vemos os mendigos e é como vemos aqueles que sequer tiveram tempo, ainda, de formar sua própria identidade: as crianças de rua.

O desemprego não muda porque os empregados não mudam. E os empregados não mudam porque os empregadores jamais irão mudar.

At. às 09:00h: Há uma outra visão sobre a questão. Ler ""Envelhecer" no emprego pode levar à demissão"

10 Comments

pois é, afonso. o mundo vai mal. ando sentindo na pele tudo isso, afinal, minha empresa descobriu que pode contratar jovenzinhos de 20 anos ganhando metade do meu salário. e daí que sou uma profissional treinada, experiente e com ótima formação? ter formação hj em dia é quase um demérito. ninguém quer saber de uma quase doutora. resta-me fazer concurso e com certeza me preparar pra mudar pra bem longe do rio. ainda estou longe de me sentir derrotada, porém. a luta tá só começando. beijo

É Cris, não é fácil. Por outro lado, um concurso não é nada mal. Ainda há dignidade no serviço público e pode-se fazer um bom trabalho. beijão

Afonso,
Lindo texto! Frase perfeita! Seu texto seria uma pérola no site que coordeno...

Lido com questões diretas/indiretas ligadas ao desemprego desde 1985. Na época ainda um rapazola!!!hehehehe
Exatamente quando o falecido banco Sulbrasileiro quebrou, levando ao desespero milhares de famílias no sul do país.
Mesmo depois de tudo o que passei na vida, confesso que nunca senti o que sinto nesse momento com a demissão da dona patroa a 35 dias atrás. Teu te4xto define os sentimentos em relação ao mal do capitalismo: "criar um exército de mão-de-obra reserva para poder pressinar salários para baixo e grantir mais produção dos que ainda estiverem trabalhando".
Forte abraço!

Fica à vontade quanto ao texto, Paulinho. Lembrei da Cris quando estava escrevendo. Sei bem que não é fácil essa fase. É esse "modo de ser" do capitalismo que temos que mudar. Quiça um dia... abração

Sabe Afonso eu tenho uma visão um pouco pessimista sobre as pessoas (com algumas exceções). não conheço ninguém desempregado, quer dizer, não conheço ninguém que não trabalhe quando quer trabalhar, não conheço mesmo. Os que não o fazem realmente perderam a dignidade e a auto estima mas se acostumaram com isso. Eu penso nesses pequenos que podem se acostumar com a situação porque nunca viveram outra vida. Talvez por eu enxergar um futuro pra mim mesmo sem me orgulhar da minha educação me faz pensar assim.

Tens sorte então, Simy, se não conheces ninguém desempregado. beijão

Como você bem disse Afonso, ficar desempregado afeta diretamente a nossa auto-confiança, e sem ela já viu. O fundo do poço é o limite. E como o Cláudio já comentou, os "patrões" sabem bem disse e se aproveitam para encher o bolso deles as nossas custas. Abraço.

É, Carlos, e isso é o que mais incomoda, saber que sempre tem quem continua ganhando... abração

Muito pertinente seu comentário, Afonso. O "trabalho remunerado e garantido" (nem sempre é um "emprego") é um dos direitos fundamentais do ser humano e sustenta a auto-estima, auto-confiança e esperança no futuro. Todos precisamos ser reconhecidos pelo outro e autônomos para tomar decisões. Como fazer isso sem auto-sustento? O "grande Capital" sabe disso e nos explora, num pseudo-acordo (você mesmo comentou sobre este tema há alguns posts atrás). Daí a mais-valia!

É vero! Sou capaz de dizer que o desemprego é mantido assim como maneira de (1) manter os salários baixos e (2) aumentar a pressão sobre os que estão empregados. É phoda! abração

Meu primeiro contato com o desemprego foi aos 13 anos de idade, quando meu pai, depois de mais de 20 anos numa empresa multinacional, e ocupando um cargo de gerência, com quase 50 anos de idade, foi mandado embora por motivos políticos. Minha mãe era dona de casa, nós éramos 4 filhos. Meu pai, naquela idade, não conseguia achar nada que correspondesse ao nível do seu emprego anterior, e durante 1 ano ficou desempregado, a família toda vivendo apenas da indenização. Nunca vou esquecer os sentimentos de insegurança, medo de ficar pobre, a pena que a gente sentia do nosso pai deprimido. Foi um baque muito grande para todos nós e acabou contribuindo para que ele tivesse um enfarte que quase o matou alguns anos depois.

Sabes bem então o que é isso, Leila. beijão

Bom dia....

Entendo muito bem disso.....já fiqueidesempregada mais de ano.....
Vc vai lá embaixo.....e acaba sentindo medo...vergonha....tudo.....
É preciso muita força pra sair....
Bjs.;..

É, Diana. Não apenas força, mas se todos buscassem ajuda profissional, tanto para uma recolocação quanto para tratar as conseqüências psicológicas, seria mais fácil. O problema é que nem todo mundo pode pagar esses profissionais, ainda mais estando desempregado. Sei que existem diversas instituições que cobram bem baratinho para quem está desempregado. beijão

E pensar que o Bichinho está há 5 anos sem emprego fixo. É realmente duro, viu? Mas acredito estar ajudando-o pelo menos no pilar da auto-stima.

Mudando de assunto, leu sobre o mega-encontro? Viu as fotinhas?

Vi. Mudando de assunto (heheh): lembre-se: o casamento começa na cama e termina no bolso. Sob o mesmo teto a situação muda de figura. Não quero ser mais chato que o Chato, mas pensa bem, com muita lucidez. Sabes bem que a vida não é feita de amor e, sim, de contas. abração

Afonso, fora tudo isso que você mencionou ainda temos outro grande problema: quem é que vai pagar a nossa aposentadoria considerando que poucas pessoas têm carteira assinada hoje em dia? Isso é preocupante. Esse problema atinge todo mundo. Outra coisa, quais são as oportunidades de emprego para nossas filhas? Tenho muito medo de que a minha não possa dar aos seus filhos tudo que felizmente eu e o pai dela demos. Beijocas

É um risco que todos corremos, Yvonne. Não se trata de quem vai pagar nossa aposentadoria, pois passamos 35 anos, no mínimo, contribuindo para isso. As oportunidades para nossos filhos talvez existam e muito vai depender deles, de certa forma. Aí entra a educação que damos a eles. Mas é preocupante mesmo. beijão

Afonso, além de tudo o que você falou, ainda temos um outro problema: quem vai contribuir para a nossa aposentadoria? São poucas pessoas têm carteira assinada.

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on janeiro 27, 2006 12:02 AM.

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