Dá pra agüentar? - II

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Pois é,

Se ainda não leu, leia, antes, o post de ontem.

4. "A divisão do produto do trabalho entre salários e lucros foi determinada na luta entre trabalhadores e capitalistas para determinar qual seria o salário:

'O salário comumente pago pelo trabalho depende, sempre, do contrato que é feito entre as duas partes, cujos interesses não são, de modo algum, os mesmos. Os trabalhadores querem ganhar o máximo e os patrões querem pagar o mínimo possível. Aqueles se dispõem a juntar-se, para elevar os salários, e os patrões a juntar-se, para diminuir os salários pagos pelo trabalho.' (Smith)

Mas esta luta não era, de forma alguma, uma luta entre iguais. Smith não tinha dúvida alguma de que os capitalistas eram a classe mais poderosa e dominante neste conflito. O trecho que se segue, citado em toda a sua extensão, mostra que Smith identificava três fontes do poder dos capitalistas para dominar os trabalhadores. Sua maior riqueza permitia que eles esperassem mais tempo nas disputas industriais; eles podiam manipular e controlar a opinião pública e tinham a vantagem inestimável de contar com o apoio do Governo (que - lembramos uma vez mais - "tinha sido instituído para defender os ricos dos pobres"):

'Não é, porém, difícil prever qual das partes leva, em todas as ocasiões comuns, vantagem na disputa e obriga a outra a aceitar seus termos. Os patrões, em menor número, podem juntar-se com muito mais facilidade; a lei, por outro lado, autoriza ou, pelo menos, não proíbe estes conluios, ao passo que proíbe os dos trabalhadores. O Legislativo não toma medidas contra o conluio para baixar o preço do trabalho, mas tem muitas medidas contra o conluio para aumentá-lo. Em todas estas disputas, os patrões podem esperar muito mais tempo. Um proprietário de terras, um fazendeiro, um patrão industrial ou um comerciante, mesmo sem empregar um único operário, poderia, em geral, viver um ano ou dois do capital que já tivesse acumulado. Muitos trabalhadores não conseguiriam subsistir uma semana; poucos poderiam subsistir um mês e talvez nenhum conseguisse ficar um ano sem emprego... Os patrões estão sempre, e em toda parte, numa espécie de conluio tático, porém constante e uniforme, para não elevar os salários pagos pelo trabalho... Na verdade, raramente ouvimos falar destas combinações, porque elas são o estado comum e natural das coisas, do qual ninguém ouve falar. Os patrões também fazem, às vezes, combinações particulares para baixar mais ainda os salários pagos pelo trabalho. Estas são sempre feitas sob o maior silêncio e o maior segredo, até a hora de serem postas em prática, e, quando os trabalhadores cedem, como às vezes ocorre, sem resistência - embora gravemente prejudicados - elas nunca chegam ao conhecimento de outras pessoas. Essas combinações, porém, sofrem, freqüentemente, a risistência de uma combinação defensiva e contrária dos trabalhadores... Mas... suas combinações... são sempre muito comentadas... Os patrões, nestas ocasiões, também reclamam muito do outro lado e nuncam deixam de clamar pela ajuda do magistrado civil e de pedir o cumprimento rigoroso das leis aprovadas com tanta severidade contra as combinações de empregados, trabalhadores e tarefeiros.'

Assim, Smith via que o poder dos capitalistas advinha de várias fontes inter-relacionadas: sua riqueza, sua capacidade de influenciar a opinião pública e seu controle do Governo."

5. É incrível a atualidade desses escritos ainda hoje. Pensem nisso (talvez muitos não tenham lido Adam Smith)! A mídia só alardeia movimentos dos trabalhadores. Alguém já viu a Globo, ou similares, noticiar movimentos empresariais? No entanto eles acontecem!

6. Quando se fala que no Brasil ainda temos um "capitalismo selvagem", é pelo fato de ainda "funcionarmos" segundo o pensamento de 230 anos atrás. Nada mudou, por aqui, de lá para cá.

7. Repito: ainda tem gente que acredita nisso mesmo sem ser "industrial". Pensa que é "neo" quando, na verdade, defende idéias já perfeitamente analisadas há 230 anos.

8. O que é nosso país hoje? Mídia ("capacidade de influencia a opinião pública") nas mãos deles; Legislativo, Judiciário e Governo nas mãos deles.

Continua...

4 Comments

afonso, adorei o post e eu li, sim os DOIS textos. eu nunca li adam smith, mas nem precisei pra ter acesso a uma verdade inconteste: o capital é EVIL, do mal mesmo... senti isso na pele nesse final de ano. alguém um dia ainda vai me explicar como uma empresa (onde, por acaso, eu trabalhava...) que era sem fins lucrativos, que nunca teve donos, de repente, muda para SA e tem como principal objetivo produzir lucros cada vez maiores e isso à custa de demissões inexplicáveis... como um bando de membros do "conselho" transformam-se, sem mais nem menos, em donos da empresa. ora, isso confirma o que você disse: eles têm tudo a seu favor: as leis, a mídia, o governo e tudo mais. e ainda tem gente que defende isso. dá vontade de xingar, mas eu vou me comportar, por que isso aqui é um blog de família, hehe. um beijão

Pois é, Afonso, dois posts excelentes, riquíssimos em conteúdo e com um poder de pólvora espetacular! Basta ler a "cartilha" do Liberalismo que se tem, como corolário, munição para derrubá-lo... ou contrapor idéias outras...

Afonso, não adianta, ngm lê o post abaixo do primeiro.

Só vc pra contar quantas voltas o mundo deu, Afonsão... :-) Mas é por isso que continuo com a minha proposta: trabalhho escravo dos 15 aos 30 anos, depois acesso ilimitado a qualquer coisa produzida pelos escravos. No more money. A gurizada faz, o resto consome. Sinple as that.

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on dezembro 20, 2005 12:12 AM.

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