Pois é,
O que é o "sistema"? Tive um colega que dizia ter vontade de sair do trabalho só para poder "ir contra o sistema". Ali, trabalhando, ele jamais conseguiria. Fora, no entanto, dos vínculos com o sistema, nada o impediria de criticá-lo.
A verdade é que vivemos "de rabo preso". Isso é o sistema. Sistema significa abrir mão para não perder o que temos. Essa "coisa" abstrata, a que chamamos sistema, é o que permite a manifestação da hipocrisia como algo normal, natural, sem que ninguém ache estranho. Pensamos de um jeito, agimos e nos expressamos de outro. Tudo para não perder o que já temos, muitas vezes conseguido a duras penas.
Nossa vida se molda em manter aquilo que conquistamos, mais do que por conquistá-las. Dito de outra forma, gastamos mais energia na hipocrisia da manutenção do que na hipocrisia da conquista. As organizações humanas (família, trabalho e sociedade) são o celeiro que alimenta essa batalha entre o que pensamos ser a realidade e o que realmente é a realidade. Vivemos abrindo mão dos nossos princípios em prol da manutenção das nossas pequenas conquistas. E ficamos felizes com isso. Somos ensinados a ser felizes com isso.
Isso é o sistema: viver abandonando princípios para manutenir status. Não mandamos o chefe a puta que o pariu porque podemos perder o emprego, embora tenhamos cereza de que o chefe é um filho da puta ignorante. Isso é o sistema: freios.
Viver de uma imagem da realidade chama-se ilusão. Vivemos iludidos achando que tudo é lindo e maravilhoso, quando achamos que tudo é uma merda!
A conveniência e a irmã gêmea da hipocrisia. Fazemos tudo por conveniência. Fazemos porque nos convém ou fazemos porque não nos convém. Nada de errado nisso. Afinal, somos humanos. A hipocrisia está em não admitir isso. Em vir a público travestido de uma personagem, isto é, aquilo que não somos. A conveniência e a hipocrisia nos fazem os seres conservadores que somos.
Só existem duas formas de mudar o sistema: uma, quando resolvemos abrir mão da conveniência e da hipocrisia e colocamos nossa própria vida à disposição dos nossos princípios. São as revoluções, as guerras civis. Embora rápidas e capazes de mudar o sistema, esse tipo de mudança serve apenas para instalar novas conveniência e hipocrisia e nos tornar conservadores com novos princípios.
A segunda maneira de mudar o sistema é pela revolução cultural ou revolução nos costumes. Elas não funcionam por serem revoluções, pois o sistema sempre estará preparado para absorvê-las, mas por deixarem pequenas mutações sociais capazes de, ao serem disseminadas por longo de um longo período, realizarem a mudança necessária. Pequenas mutações sociais não são percebidas pelo sistema. Ou melhor, o sistema só as percebe quando já se tornaram um câncer capaz de matar o organismo.
Estamos acostumados a associar as grandes mudanças da humanidade a eventos e suas datas e, com isso, tendemos a esquecer que esses eventos representativos são apenas o ápice de algo que já vinha acontecendo há muito tempo.
Nenhuma novidade até agora. Apenas uma contextualização para o que segue... fora o fato, é claro, que a análise comporta suas exceções. Mas o altruísmo ainda é, infelizmente, uma pequena exceção.
Para adiantar: todos temos a liberade de fazer o que bem entendemos. O que alguns fazem, no entanto, é que faz a diferença. O que os outros fazem é apenas exercício de liberdade, não muda nada.
Original em www.crystalinks.com/bastille.jpg









































Bela analise Afonso. Penso que todos estamos, os humanos digo, emaranhados em um novelo de contradições. Para viver bem em sociedade, da maneira como ela se apresenta, temos que abrir mão de princípios que são por sua vez a base moral dessa mesma sociedade. No jogo de ver respeitados os próprios direitos mas respeitando os alheios, inevitávelmente em um sem número de situações, devemos escolher para que lado pender. Isso acontece mais ou menos a cada minuto de nossas vidas. A soma dessas escolhas individuais, forma a vontade coletiva. Por isso, certos preconceitos tem base ancestral na percepção de características de determinado grupo. Basta que seja diferente do meu, a coisa complica. Tendemos a ( nada mais natural) defender as proprias idéias e modos de fazer. Caminha-se sobre o fio da navalha mais fina que possa existir. Fazer-se respeitar, respeitando, é tarefa talvez para poucos e raros sábios. Não fosse assim, guerra não existiriam. Pecado que é assim. Se todos entendessem que a cultura é a chave para abrir todas estas portas, ficaria tudo mais fácil. Multiculturalismo e não relativismo. O mundo é um leque cheio de alternativas, nada que se exclua ou privilegie. Mas se só eu penso assim? Voltamos à estaca zero. Bem, nunca saimos de lá mesmo. Um abraço e um beijo à Condessa.
Pois é Afonso, apenas alguns conseguem fazer a diferença. Mas é sempre bom tentar (mesmo sendo difícil), mesmo que a diferença seja apenas para nós mesmos. Abraço.
Dom Afonso, coisa estranha, eu estava lendo seu post, quando da prateleira despencou o volume 1 do "A ideologia Germanica" de Marx e de Engels na minha cabecinha! Curuiz! Passei pra te ler e te mandar um beijo. E depois de ler o post: confesso que na epoca dos computadores baseados em DOS-tela preta fui eu quem inventei a tag-line: "Eu acreditava no sistema ateh que um dia formataram minha familia!" Becitos, e vou escrever um post inspirada em vc!
Roma Persona Ideologica
Afonso, perfeito. Nada a acrescentar. Beijocas
eu concordo com a simy e acho que se algo muda no mundo (e a passos de tartaruga, diga-se de passagem)é porque algumas pessoas ousaram se arriscar. um pouco aqui, outro pouco ali e agente vai minando resistências. fosse de outra maneira, mulheres ainda usariam cintos de castidade e pessoas ainda seriam queimadas por bruxaria. mas nada de entusiasmo: o gênero humano é pródigo em inventar maneiras de reprimir o outro. nem eu nem os outros: "se eu não gozo, porque permitirei que o outro tenha prazer?", parece ser a máxima que nos guia. eu li uma entrevista maneira com o gaiarsa essa semana que fala disso. o cara é louco de pedra, mas de uma lucidez que me assombra. engrosso o corinho junto com o edu: que venha a parte III. beijoca
Eu sou hipócrita por alguns momentos Afonso porque eu não mando meu chefe se foder.
Esses momentos servem para garantir meus outros momentos de liberdade do sistema. Eu trabalho para garantir a passagem do ônibus, um calçado simples e uma calça jeans, porque mesmo que seja contra o sistema eu não gostaria de andar a pé e nua pela cidade.
Decididamente, o meu tipo de inteligência (se posso falar nestes termos) não se adapta a posts como este. É uma incapacidade estranha. Prefiro ler a mais obscura e intrincada teoria literária a política ou a Filosofia. Coisas...
Participei intensamente da chuva e hoje posso dizer que meu Escort SW é um anfíbio. Os outros paravam, eu não. E passei na famigerada 24 de outubro em frente à Rua Auxiliadora. É engatar a primeira e manter o motor em alta rotação. Bem, comigo funcionou.
Sábado à noite, deu um crepe com minha mãe. Ela sofre de nosso conhecido Mal de Alzheimer e andou fazendo umas confusões. Isso me impediu de ir ao churrasco. Passei a noite achando que a situação se resolveria nos próximos minutos, o que só aconteceu depois da meia-noite. E estava com um CD para ti! E perdi teu endereço! Manda de novo?
Teu comentário hoje em meu blog foi pessoalmente muito interessante. Durante minha infência, eu morava perto do Colégio Júlio de Castilhos e também era um admirador do emaranhado de fios da esquina da Venâncio com João Pessoa. Mas tinha esquecido daquilo. Eu costumava ir a pé até a sorveteria Nevada e lembro de parar ali, observando o céu por trás dos fios.
Mas chega de nostalgia!
Grande abraço e parabéns pelo retorno à primeira divisão a ser confirmado nas próximas semanas. (que jogos ruins de ver, hein?)
Tô entendendo, tô entendendo... Que venha a parte III! :-)