De volta ao passado - VI

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Pois é,

Lendo esse post do Flávio Prada, fiquei a pensar sobre a produção de arte.

Após a morte do meu pai, minha mãe resolveu vir morar definitivamente em Porto Alegre. Meus irmãos tinham ficado aqui quando fomos para Brasília e ela achou por bem manter-se perto dos filhos, embora eles já morassem sozinhos havia alguns bons quatro anos. Talvez essa tenha sido mais uma das possíveis frustrações da sua vida, pois o coração lhe mandava retornar ao Rio de Janeiro. Quem sabe ficar perto da filha perdida tão cedo; quem sabe retornar a um tempo e local ao mesmo tempo triste e feliz. Até bem pouco, mantinha uma fotografia do Rio, com o Cristo, pendurada na parede do quarto, atrás da cabeceira da sua cama.

Pouco tempo depois, já instalados na nova morada em Porto Alegre, descubro as coisas do meu pai ainda guardadas. Não descobri sozinho, confesso. Fui motivado pela minha mãe, que na ânsia de continuar a vida, entendia ser a melhor forma, para tal, livrar-se de tudo quanto era lembrança do meu pai.

Chego em casa, num dia qualquer, e vejo sacos e mais sacos contendo tudo o que meu pai havia escrito e guardado ao longo da vida, além de muitas outras coisas. Não sei o que me deu, mas atirei-me sobre os sacos e comecei a resgatar o que ali havia. Não adiantou. Noutro dia, enquanto estava na escola, minha mãe pegou tudo de volta e mandou queimar. Restaram apenas os livros, os discos (LPs, claro) e dois quadros que ele havia pintado, junto com os pincéis e as tintas.

Teve início, então, uma fase de incorporação da figura paterna, até então algo que sentia muito distante. Pra dizer a verdade, só o sentia por perto quando ele tirava a cinta e mandava ver na minha bunda!

Livros, discos de música clássica e pintura. Estava formado o quadro dos meus próximos vinte anos. Tornei-me um chato ( e na bebida busco esquecer...) intelectualóide por muitos anos. Rato de livrarias e discotecas, sócio da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e freqüentador de todos os espetáculos ligados à musica, qualquer tipo de música, e, pasmem, comecei a pintar.

Já pintei mais de centena de quadros. Deixei de dormir. Passava as madrugadas escutando música e pintando. Pintar era um prazer. A cada pincelada sentia algo meu sendo jogado na tela. As cores, as sombras e luzes, as tonalidades, a preparação das misturas, o fazer e refazer até atingir "o ponto". Que êxtase sentimos ao atingir esse "ponto". É algo inexplicável a sensação diante de uma pincelada "bem dada". Quem faz arte, e eu falo de arte - literatura, música, pintura, etc. - e não de produtos para venda, sabe do que eu falo (não confundir vender arte com "arte" para vender). Muitas vezes, a picelada era a música traduzida em cores, em formas, em tonalidades.

Mas meus quadros eram quadros de solidão, diziam as pessoas. Vazios de vida. Eu não os via assim, replicava. Ali estava eu e eu estava vivo! Até que, anos mais tarde, me dei conta de que pintava neles o vazio que havia ficado com a morte de meu pai. Num gesto simbólico, fiz o mesmo que minha mãe: queimei tudo o que havia acumulado ao longo desses anos. Inclusive os quadros que estavam comigo. Queimei o primeiro quadro que pintei. Uma porcaria, com era de se esperar, mas representava muito em minhas memórias. Precisava passar por isso. Precisava queimar um passado que não era meu, um passado que era um futuro que jamais existiria. Por isso o fogo, pois o fogo é o único dos elementos que é capaz de transformar. Queimei no mesmo lugar que minha mãe havia queimado as coisas do meu pai.

Diferente da minha mãe, que queimou tudo escondido de mim, levei minha filha Fernanda para assistir à "cerimônia". E com que prazer eu a vi se debruçando sobre os sacos. Não para resgatar coisas - ela não precisava disso - mas para ajudar a jogá-las ao fogo. O pai estava ali, ao seu lado.

Os quadros do meu pai continuam lá na casa da minha mãe. São quadros de solidão. Não pintei mais, desde então!

7 Comments

Triste, mas belo o seu relato.
Acho os rituais importantes para nos ajudar a entender e enfrentar nossas questões.
Quando meu marido morreu não tive dificuldades em distribuir a roupa dele. Mas a 1ª vez que fui mexer nos LPs para mostrar uma canção para mesu filhos, desatei a chorar.

belo post. belo e triste.
mais surtout beau.
bj.

Puxa, Afonso, que triste! Isto me fez lembrar da morte de meu ex-marido. Na ocasião, juntei tudo o que era dele e dei pra pessoas carentes. Até hoje minha filha me cobra isso. Ela queria ficar com coisas que eram dele. Não sei se agi mal, mas pensave estar fazendo um bem a eles, pois pensava que a presença daquelas coisas faziam a dor ser maior. Besteira. Hoje eles, já jovens, espalham as fotos do pai por todo canto da casa.
Acho que se deve seguir o coraçao. Foi o que vc fez.
abraço, garoto

"É preciso morrer para renascer", assim como é preciso "matar os fantasmas de nosso passado" para deles nos libertar. Então, aí, sim, somos nós mesmos, sem perder a memória, mas sem estarmos presos e determinados pelo que se foi. Sua "cerimônia de adeus" foi tocante. Lendo e aprendendo com você, nobre Afonso.

Foi bastante doloroso ler este post. Eu uso até hoje roupas do meu pai, morto em 1993. E ele tinha em comum o gosto pela música erudita.

Com exceção das roupas, que minha mãe fez questão que eu levasse - sei lá porque, nem ouso tentar interpretar! -, as coisas dele estão intocadas na casa de minha mãe. Acho que só peguei para mim o último CD que ele ouviu. O que estava no CD Player e que ele tinha comprado na tarde anterior ao enfarto noturno: a gravação de Abbado para a 9ª Sinfonia (A Grande) de Schubert.

Melhor ficar por aqui.

Grande abraço.

Oi Dom Afonso, li uma das comentaristas de lah que disse do Gustav Klimt muito mal, tadinho. Se o comercio de panos de prato de plastico bordados estah usando os motivos de Klimt para estampa-los, a culpa nao eh dele, mas da maquininha industrial. Klimt eh qualquer coisa, menos decorativo. Criticava a sociedade ateh doer, era de uma esquisitice impar com as mulheres e antes da secessao era um pintor dos mais classicos. Deixou influencias como em Friedensreich Hundertwasser, que bateu as botas em 2000, e que nao era nada bobinho, o homem nao se aguentava em si, tentou ser ateh arquiteto. Quanto aos seus quadros e aos de seu papa, o que lembrei foi do "Cartas a um jovem poeta", quando Rainer M Hilke indaga ao jovem algo como "Es capaz de viver um dia sem a poesia? Se tua resposta eh um vigoroso nao, nao ha de me perguntar se seus versos sao bons".

Becitos pensativus

Para Heráclito o princípio de tudo era o fogo. O fogo transforma-se em água, sendo que uma metade retorna ao céu como vapor e a outra metade transforma-se em terra. Sucessivamente, a terra transforma-se em água e a água, em fogo. Todas as coisas mudam sem cessar, e o que temos diante de nós em dado momento é diferente do que foi há pouco e do que será depois. Afirmou: "Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez não somos os mesmos, e também o rio mudou."
Ernst Junger disse que o fogo é o único dos elementos que não pode ser poluído.
Eu acho que o fogo tem dupla possibilidade: a de queimar e a de iluminar, mas a um só tempo. Enfim...
Um bom-bom abraço e um beijo,

Simone

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on novembro 14, 2005 12:08 AM.

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