O lado negro da força

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Pois é,

Pra tudo o que se diga ou se faça, sob esse mundinho de Deus, sempre haverá alguém para ali enxergar alguma segunda intenção. Somos irremediavelmente atraídos pelo excuso, pelas entrelinhas; nada pode ser como é ou como foi dito. O lado negro da força impera. Somos educados assim desde criança.

O marido que chegar em casa com flores é porque está aprontando. Apesar de ser um "chiste", isso expressa bem a necessidade que temos de "ver" coisas onde elas não existem. Tem mais dessas expressões na cultura popular: ver cabelo em casca de ovo, ver chifres em cabeça de cavalo, etc. Todas, se levadas ao exagero, conduzem às famosas "teorias da conspiração".

É o que está acontecendo, por esses dias que antecedem ao referendo. Já se disse tanta asneira em termos de teorias da conspiação, que só falta dizerem que o diabo é quem está por trás de tudo isso, interessado que é por almas para encher seu inferno.

Foi por essa razão que optei por manifestar meu pensamento sobre essa questão em termos de uma mudança paradigmática. Como diz Boaventura de Souza Santos, quando fala das estratégias regulatórias e emancipatórias atuais:

"[...] a teoria crítica moderna é subparadigmática, isto é, procura desenvolver as possibilidades emancipatórias dentro do paradigma dominante. Pelo contrário, a tese [...] é que deixou de ser possível conceber estratégias emancipatórias genuínas no âmbito do paradigma dominante, já que todas elas estão condenadas a transformar-se em outras tantas estratégias regulatórias.. Em face disto, o pensamento crítico, para ser eficaz, tem de assumir uma posição paradigmática: partir de uma crítica radical do paradigma dominante, tanto dos seus modelos regulatórios, como dos seus modelos emancipatórios, para, com base nela e com recurso à imaginação utópica, desenhar os primeiros traços de horizontes emancipatórios novos em que eventualmente se anuncia o paradigma emergente".1

O voto pelo SIM significa um primeiro traço de um possível novo paradigma emergente. Talvez de um paradigma onde não subsistam as teorias da conspiração e onde possamos pura e simplesmente aceitar as coisas como são, sem entrelinhas. Não é fácil. Ainda citando Boaventura:

"A definição da transição paradigmática implica a definição das lutas paradigmáticas, ou seja, das lutas que visam aprofundar a crise do paradigma dominante e acelerar a transição para o paradigma ou paradigma emergentes. A transição paradigmática é um objetivo de muito longo prazo. Acontece que as lutas sociais, políticas e culturais, para serem credíveis e eficazes, têm de ser travadas a curto prazo, no prazo de cada uma das gerações com capacidade e com vontade para as travar. Por esta razão, as lutas paradgmáticas tendem a ser travadas, em cada geração, como se fossem subparadgmáticas, ou seja, como se ainda se admitisse, por hipótese, que o paradigma dominante pudesse dar resposta adequada aos problemas para que eles chamam a atenção. A sucessão das lutas e a acumulação das frustrações vão aprofundando a crise do paradigma dominante, mas, em si mesmas, pouco contribuirão para a emergência de um novo paradigma ou de novos paradigmas. Para que isso ocorra, é necessário que se consolide a consciência da ausência das lutas paradigmáticas. Essa consciência é tornada possível pela imaginação utópica. A consciência da ausência é a presença possível das lutas paradgmáticas no seio das lutas subparadgmáticas".2 (grifo do Chato).

Não podemos perder tempo debatendo a validade ou não do referendo; se a pergunta fol bem ou mal formulada ou se as teorias da conspiração que grassam a internet são, ou não, verdadeiras. Essa é uma falsa estratégia emancipatória, ainda dentro do paradigma dominante, que vê, na vida, um valor relativo. O voto pelo NÂO é a manutenção do paradigma regulatório.

1 e 2SANTOS, Boaventura de Souza. Para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na transição paradigmática. Vol 1 - A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

14 Comments

primoroso meu amigo.
bj!

oi, afonso, belíssimo texto, inteligente, embasado, claro, enfim, tudo o que já foi dito aqui e mais alguma coisa. eu tb voto SIM, mas já cansei de ser chamada (nas entrelinhas) de ingênua, mal-informada e otras cositas não muito agradáveis. acho que a essas alturas nada muda até mo referendo, mas ainda é preciso sacudir a mangeira pra ver o que vai cair. esperança é a última que morre. eu não entendo o voto envergonhado. era melhor anular, mais verdadeiro. acho que quem vota NÃO, no fundo tá querendo dizer não pra outras coisas e não sabe qual o canal. eu to um bocado cansada desse assunto, mas ainda cabe dizer que você deu um puta recado! junto com o milton ribeiro forma uma das melhores coisas que já li até agora sobre o assunto. beijo pra ti, cris
Fiquei vermelho! E não tem coisa pior para um gremista do que ficar vermelho, hehee bjs cris.

Falaremos depois de um ano do referendo.

Isso, Afonso. Precisamos de novos paradigmas. Um abraço.

Sobre o texto de Carlos Castañeda, é justamente isso Afonso ... já não acho mais que esse caminho é o do coração ... e assim me sinto num caminho sem muita importância... e me pergunto se vale a pena ...

Abs,


Raquel

bem, estou apressada!
acho que quase uma semana sem te visitar me vejo surpreendida por um belo template novo, crises de identidades, pratos suculentos e discussões acirradas... nossa! esse é o Dom Afonso que conheço, quando nos deixava tontos nas aulas da Joyce no EAD.
enfim, na verdade vim aqui para dizer que esse parágrafo do Carlos Castañeda que está ali em cima é maravilhoso! e isso que estou apenas começando com o tal autor...
um grande beijo para ti e para tuas meninas!

Quase ia me esquecendo o Template ficou bom. Eu gostei.

Errado ou não Votarei Não. Eu estou com a Yvonne mas não sinto constrangida de ter feito esta opção. Já estou certa e qualquer coisa que eu leia não mudará isto, eu acho...

Bela Semana.

Querido Dom Afonso! Se eh que eu entendi, vc disse que pra lutar contra um sistema que a gente considera chinfrim, soh usando a capacidade de sonhar com um mundo novo?
Se foi, tendi direitim a mensagem. Eh constrangedor a gente pensar que quem vota pelo uso de armas que estah votando a favor de que as pessoas usem armas pelo mundo afora, alegando direito na hora de matar, ou nao alegando nada. Numero genero e grau minha concordancia!

Lindo o texto, Afonso, well based, mei cabeca, mas muito baum! Becitos!

Cabelo em casca de ovo: perfeitamente possível. Pelos humanos grudados na casca.
Chifre em cabeça de cavalo: unicórnios... vai me dizer que tu não acredita?!?!?!?!

Voto Não sem levar em conta teorias conspiratórias.

A pergunta foi mal formulada, mas qualquer pessoa inteligente consegue entender... o problema é que este artigo anda escasso: inteligência.

Confesso ainda estar pensando no assunto. Pensando e sentindo.

Afonso, eu votarei no NÃO. Confesso que não estou me deixando influenciar por opinião de ninguém. É um voto consciente, apesar de que eu me sinto totalmente constrangida. Ninguém que é do bem e que quer ver o mundo feliz é favorável ao uso de armas. Beijocas

Oi Afonso, o lugar da foto é Angra dos Reis, um condomínio particular entre a mata e o mar. Gostei da foto e coloquei, parece um lugar encantado e a fotógrafa fui eu. Minha mãe está se recuperando bem, obrigada. Quanto a esse referendo, sei lá, quanto mais escuto menos sei o que fazer... Vamos ver no que vai dar. Ótima semana!

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on outubro 17, 2005 12:08 AM.

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