"E a vida o que é, diga lá, meu irmão?"

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Pois é,

Para quem apenas quer saber minha posição sobre o referendo, ela é SIM.

Quem quiser saber o "por quê" do SIM, siga lendo.

Verdade.

Razão, fé e coração.

Uma breve revisão. Em algum momento, entre o surgimento do ser que hoje chamamos de humano e os dias de hoje, surgiu a necessidade de se estabelecer o que seja verdade. De Platão aos atuais pensadores - dentre eles, nós. Sim, pois somos pensadores; não tão famosos, certo, mas com o mesmo direito a pensar - a verdade tem sido um problema fundamental do conhecimento humano.

Existem três abordagens para a tentativa de definir a verdade, ou de saber o que é verdade. Pela razão, pela fé ou pelo coração. Platão foi um dos primeiros a estabelecer o que seria verdade. Para ele, verdade era a adequação ou correspondência entre a razão e o ser, ou adequação do discurso com a realidade. Não pertine ao tema, discorrer sobre o pensamento de Platão, mas apenas lembrar que remonta aos tempos gregos a relação entre verdade e razão, relação essa que, mais tarde, será retomada para fundar a modernidade.

"O filósofo grego soube aproveitar a atração que a alma humana sente pela verdade, pela beleza e pelo bem, que a levou sempre para os caminhos do conhecimento, da criação e da ação. Através dos séculos, a lição platônica produziu frutos e foi interpretada de maneiras diversas tanto por Aristóteles quanto por Plotino. Descartes, Kant e Hegel inspiraram-se nela. (...) Baseia-se em sua fé na autoridade da razão que, adquirida pelo homem, permite-lhe transpor as fronteiras da necessidade e, ao mesmo tempo, merecer sua própria dignidade".1
Paralelamente ao desenvolvimento da civilização greco-romana, o judaísmo e, mais adiante, o cristianismo, desenvolvem-se com base em outra abordagem: a fé. A verdade grega, produto da razão adquirida pelo homem, passa a ser, para a civilização judaico-cristã, a revelação divina. O conhecimento da verdade só é possível graças a bondade de Deus (inicia-se com Santo Agostinho a tradição transcendental do pensamento ocidental) e dado aos homens de . Estabelece-se, por mais de mil anos, um duelo quase mortal entre fé e razão, até que esta última acaba por vencer ao inaugurar a renascença ou o "modernismo".

Uma nova razão passa a imperar no mundo. Se antes, ao tempo dos gregos, a razão, ao olhar para o todo, não conseguiu descobrir a verdade e precisou transportar a verdade para a Idéia de Platão; se a fé medieval, ao transportar a verdade da Idéia para Deus, também não conseguiu descobrir a verdade, era necessário estabelecer uma nova forma de abordar a questão. O transcendente, de qualquer forma, estava no céu. Nada mais óbvio que as pessoas continuassem a olhar para o céu em sua busca pela verdade. Assim, a quebra do paradigama transcendental medieval só poderia ter começado pela Astronomia. Nos quase cem anos (94 para ser exato: 1543 a 1637) que separam a obras de Copérnico e de Descartes, a humanidade elaborou o que seria a visão de mundo predominante até hoje: o cogito ergo sum.

Na realidade, o pensamento completo de Descartes é: "se duvido, penso; se penso, logo existo". Descartes afrontou a fé, pois a fé não duvida. Aí o novo paradigma: duvidar, em contraposição a certeza da fé. (é bom salientar que raramente as obras sobre o pensamento de Descartes referem-se à frase completa. Geralmente transmitem como "penso, logo existo", o que deixa de lado o principal fato que foi o de afrontar a fé pela dúvida).

Descartes fez mais: ao descobrir que duvida de tudo, menos de que "existe" (a única certeza, para Descartes, era a da existência do ser que duvida), acabou por separar o sujeito (a res cogitans) do objeto (a res extensa); o "eu" do "mundo", o "eu" daquilo que "não sou eu". E para descobrir o que era que estava fora de si, desenvolveu o método até hoje utilizado pela razão: dividir para melhor entender o todo. E colocou Deus fora do homem. Separou, definitivamente, o homem da natureza, o homem de Deus. O Estado da Igreja. E é sob esse paradigma que entendemos, até hoje, o mundo que nos cerca. A Ciência torna-se senhora do mundo, no lugar antes ocupado pela Religião.

"Entre os séculos XV e XVI, o Ocidente presenciou a emergência de um ser humano autônomo e dotado de uma consciência de si mesmo - curioso em relação ao mundo, confiante em sua capacidade de discernimento, cético quanto às ortodoxias, rebelde contra a autoridade, responsável por suas crenças e ações, apaixonado pelo passado clássico e ainda mais empenhado num futuro maior, orgulhoso de sua humanidade, consciente de sua distinção, ciente de sua força artística e individualidade criativa, seguro de sua capacidade intelectual para compreender e controlar a Natureza e bem menos dependente de um Deus onipotente".2

Esse é o homem que despontou e permanece, até hoje, senhor de si e da Natureza.

Revistos os conceitos, de forma bastante resumida (para caber num post) e que são do conhecimento de todos, eu sei (apenas fiz questão de lembrá-los como base da argumentação), cabe a pergunta: serão a razão e a fé suficientes para nos dar uma resposta ao questionamento do referendo? Minha resposta a essa pergunta é não. Precisamos de outra "ferramenta", outra abordagem para nos ajudar nessa situação.

Há que se romper com os paradigmas da razão e da fé. E assim como a fé prevaleceu sobre a razão greco-romana e uma nova razão transpôs-se sobre a fé cristã medieval, há que se estabelecer o paradigma do coração para superar o que tanto razão quanto fé trouxeram ao mundo e para as pessoas que nele habitam: destruição e morte. Claro que também trouxeram coisas boas, mas não conseguiram estabelecer o que de mais importante pode haver: tornar a vida um valor absoluto.

Razão é fé não estabeleceram a vida como valor absoluto e toda a cultura ocidental está baseada nessa premissa. Quando toda a estrutura de pensamento da humanidade relativiza a vida, resulta no que disse um comentarista a um dos posts (com outras palavras): "pra que se preocupar com 1.512 mortes se o trânsito mata muito mais?". Isso a razão é a fé nos trouxeram: a banalização da vida. Mede-se a vida como se mede um quilo de qualquer coisa. Estima-se a vida como se ela fosse uma commodity: vale, mais ou menos, conforme a procura e a oferta. Joga-se a vida e a morte para as mãos de Deus. É fácil. Deus é o culpado, o mercado é o culpado, as outras pessoas são as culpadas. "Eu? Eu tenho fé e razão!", dizem as pessoas.

Mas o que é o paradigma do coração?

Desde os primórdios da humanidade, o coração é o símbolo da vida. Talvez o único que inequivocamente represente a vida. A frase escrita aí em cima: "Vote com o coração, não com a razão" é uma frase desprovida, em si, de valor, ou de qualquer indicativo que seja a favor de um ou outro lado na questão do referendo. Houve, no entanto, uma clara interpretação POR TODAS as pessoas que comentaram, e extrapolando para aquelas que apenas leram, de que votar com o coração era votar pelo SIM. Isso não estava escrito em lugar algum. Mesmo aqueles que deixaram opinião favorável ao não, o fizeram pela interpretação de que votar com o coração era votar pelo sim. Alguns, inclusive, ao dar a interpretação do SIM, reverteram o sentido da frase - e quem reverte, reverte a partir de um sentido original - para dizer que votão com coração pelo não.

Por quê? Porque pessoas que utilizam a razão para decidir sobre a vida, acabam divididas entre os mais diversos argumentos utilizados tanto por um, quanto pelo outro lado. A grande Ciência surgida do modernismo não é capaz de dar respostas unívocas, únicas, para qualquer coisa que seja. A "verdade científica" é apenas a conformidade de visões de uma maioria da hora, que, amanhã ou depois, poderá ser outra e outra será a "verdade" da hora. Assim também as "verdades" que estão sendo ditas, tanto de um lado quanto de outro; números de um lado e de outro.

"E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?", já cantava Gonzaguinha.

A vida, no Direito brasileiro, não é, como muitos podem pensar, um direito absoluto. A partir do momento em que a Constituição (art. 5º, XLVII, a) excepciona o direito à vida, prevendo casos possíveis para a aplicação da pena de morte, está a dizer, explicitamente, que a vida, no Brasil, não é um valor absoluto a ser preservado. Ora, se o Estado, essa figura quase que surreal, definido e formatado pelas pessoas que habitam este território, permite-se matar, com qual direito há de querer proibir seus formadores de fazê-lo também? Aí está a gênese da questão do desarmamento. É da índole do povo brasileiro (expressão aqui tomada como sociedade) o matar. E esta previsão nada mais é do que fruto da razão; fruto de um período da história da humanidade no qual a razão tornou-se a fonte de conhecimento da verdade; fruto, também, de outro período da humanidade, em que a fé era utilizada para separar os que mereciam permanecer vivos dos que deveriam morrer.

Precisamos dar início ao estabelecimento de um novo paradigma; um paradigma capaz de produzir algo diferente do que foi produzido pela razão e pela fé. Um paradigma que parta do princípio de que a vida é um valor absoluto.

Bandidos vão continuar a existir? Sim. Contrabando vai continuar a existir? Sim. Gente armada vai continuar a existir? Sim. Claro, os paradigmas da razão e da fé ainda vão levar muito tempo para serem contrapostos pelo paradigma do coração. Como dizia Confúcio, para se chegar ao final do caminho, devemos dar o primeiro passo.

"E a vida?

e a vida o que é, diga lá, meu irmão?

ela é a batida de um coração?

ela é uma doce ilusão?

mas e a vida?

ela é maravilha ou é sofrimento?

ela é alegria ou lamento?

o que é, o que é, meu irmão?

há quem fale que a vida da gente

é uma nada no mundo

é uma gota, é um tempo

que nem dá um segundo

há quem fale que é um divino mistério profundo

é o sopro do criador numa atitude repleta de amor

você diz que é luta e prazer

ela diz que a vida é viver

ela diz que melhor é morrer

pois amada não é e o verbo é sofrer

eu só sei que confio na moça

e na moça eu boto a força da fé

somos nós que fazemos a vida

como der ou puder ou quiser

sempre desejada, por mais que esteja errada

ninguém quer a morte, só saúde e sorte

e a pergunta roda e a cabeça agita

fico com a pureza da resposta das crianças

é a vida, é bonita e é bonita

viver e não ter a vergonha de ser feliz

cantar e cantar e cantar

a beleza de ser um eterno aprendiz

eu sei que a vida devia ser bem melhor e será

mas isto não impede que eu repita

é bonita, é bonita e é bonita"

Para aqueles que admitem ser a vida um valor absoluto, só resta abominar qualquer espécie de atitude humana contra ela, inclusive permitir que mais e mais pessoas andem armadas. Quem vê na vida um valor absoluto vota SIM.

Não me importa o que os bandidos pensam. Meu coração é pela vida, é pelo SIM.

24 Comments

apesar de eu ser contra o desarmamento
acredito que agora fico com peso ao ler o seu texto bem profundo e direto
poréém meu querido ¬¬
a quem interessa o desarmamento?
a policia? não
aos ladrões? sim
e a proibição só vai trazer prejuisos para o proprio pais
pára comprar uma arma não é facil´
você precisa ter m\is de 18 anos
não ter fixa na policia
fazer treinamento
e não ter problemas pscologicos
e provar que precisa de uma arma em casa
ou seja impossivel


você é muito tolo mesmo. :*:

apesar de eu ser contra o desarmamento
acredito que agora fico com peso ao ler o seu texto
bem profundo e direto

poréém meu querido ¬¬
a quem interessa o desarmamento?
a policia? não
aos ladrões? sim
e a proibição só vai trazer prejuisos para o proprio pais
pára comprar uma arma não é facil´
você precisa ter m\is de 18 anos
não ter fixa na policia
fazer treinamento
e não ter problemas pscologicos
e provar que precisa de uma arma em casa
ou seja impossivel


você é muito tolo mesmo. :*:

Se você olhar para a natureza, verá que a vida não é um valor absoluto. Isso é uma idéia humana, cultural portanto e, como todo elemento cultural, absolutamente relativo. Varia conforme a cultura e o momento histórico.
A despeito disso, gerar a morte, seja em que circunstância for, é um fator de infelicidade e, como ninguém deseja ser infeliz, é melhor restringir os meios de matar. ;-)

Afonso,
Penso que toda essa nossa ação parte da consideração histórica observável de que o conflito social é parte das relações sociais e de poder... o conflito social é considerado não só como um fato social em sua positividade como, também, um fato-sendo-feito e, por isso, aberto às circunstâncias do lugar e do tempo em que ocorre. e nos oferece a possibilidade empírica de abordar as contradições sociais. Ele é a manifestação concreta dos antagonismos de grupos e classes e, por meio dele, se evidencia a experiência concreta de construção de sujeitos sociais, onde se configuram a construção de identidades coletivas, de motivações e interesses compartilhados, estratégias de luta, assim como formas de organização e manifestação.
A manifestação é o momento em que os protagonistas tornam-se públicos e se apresentam para o conflito.é neste momento que os protagonistas tentam ocupar um espaço na arena política, enfim, no espaço público, para se colocar como um sujeito ativo da construção do devir social que, evidentemente, terá desdobramentos e de forma alguma se encerrará no momento da manifestação.
A busca pela visibilidade é uma constante nos conflitos sociais. Busca-se a visibilidade para que o sentido daquela luta se torne público, torne-se conhecido pela sociedade. A legitimação dessas lutas não será a partir do reconhecimento dado a elas pela sociedade, pelo contrário, seu objetivo é uma veiculação de idéias, mesmo que contrárias ao senso comum, buscando uma participação efetiva no cotidiano social. E, como já nos disse Kant: "vivemos agora em uma época esclarecida"? a resposta será: "não, vivemos em uma época de esclarecimento".
vamoquevamo

Oi, Afonso
Eu também sou sim, e meu argumento é o do coração e fé, ao mesmo tempo. Meu coração também é pela vida, é pelo SIM.
Quanto ao seu comentário lá no meu blog, é isso mesmo: aproveita pra registrar estes momentos de mãe, avó e netas, isto é muito bom.
Já lhe falei que as cólicas se relacionam com o que a Kaya come? Por aqui, só houve cólica uma única vez e a pediatra listou os alimentos"proibidos" que provocam as cólicas. É certíssimo.

abraço, garoto

olha eu chateando de novo!!! agora eu tô lá!!! rs....

Muuuuito bom, "professor". Gostei muito de seu post, pela fundamentação filosófica de um argumento nada filosófico: as não-razões do coração. Também penso como você: é em nome de uma "utopia" e de um sonho que voto SIM. Abraços.

Eu também voto SIM ao fim do comércio de armas de fogo e munição, pelo nosso direito à vida, que "é bonita, é bonita e é bonita!"
Abraços...

Matar me iguala a escória. A arma de fogo não serve para outra coisa. Voto SIM. Incondicionalmente. Excelente post, Afonso (minhas previsões se concretizaram, hehehehe).

Putz, arrasou com esse post filosófico!!!! Também digo sim com a razão e o coração.


Afonso, usando a razao eu tambem temo que o a forma e o resultado deste referendo acabem sendo confusos e inuteis, como apontaram varios comments acima. Porem, nao e' por isso que vou apoiar o comercio de armas. Por esse lado, tanto a razao quanto o coracao apoiam o sim.

Abraco

O voto ideal é aquele em que razão e coração conseguem driblar a distância que os separa e chegar a um consenso.
Infelizmente não é o caso deste nosso referendo.

Um abraço!

Quem sabe eu não ande armada mas contrate uns armários pra servirem de escudos humanos? Voto não, infelizmente.

resumo do post: PERFEIÇÃO!

Vou acabar sendo chata ...
Andei comparando uns posts Descriminalização do Aborto X Referendo sobre o Desarmamento e vejo que algumas pessoas que concordam com a descriminalização do aborto porque defende os direitos da mulher sob seu corpo (me incluo nessa), são favoráveis ao desarmamento por defender a vida ... ou seja nesse caso as pessoas comuns não tem direito a legítima defesa?? Aí eu pergunto se eu sou mulher e cabe a mim decidir ter um filho ou não . Porque não a cabe a mim decidir me denfender numa situação de perigo eminente??? Não discuto aqui a vida do bandido ou do feto ... Discuto aqui até que ponto podemos escolher ??? Existe um limite??? Quem determina??? Razão, coração ou a fé ???

Abs,

Raquel (a chata)

Afonso,
tão bonito esse post!
Estou com você, SIM apesar de tudo.
Beijo!

Eu voto pelo não !!!
Minha índole não é suficientemente pacífica a ponto de me negar o direito a legítima defesa.
De qualquer forma fico aqui pensando com a razão, o coração e com pouco de fé que ainda me resta... sobre oque você escreveu... e confesso vou ler mais vezes.

Abs,


Raquel

Afonso, seu post está ótimo, mas esse referendo é uma grande babaquice que não levará a lugar nenhum e nós como bons brasileiros já deveriamos saber disso.

Ótimo post mas vou votar pela razão. NãO

Bom dia.....

Como sou meio ''lerda''....rss...ainda vou levar um tempo pra assimilar tudo...preciso ler mais vezes....
Sou NÃO.....
Boa Semana....
Bjs...

Ótimo post Afonso. Meu voto é não para a proibição do comércio de armas. Mas sou a favor da vida e do desarmamento. Mas acho que esse referendo não está muito correto. Abraço.

Puxa, que post! Chego a sentir vergonha de minha improvisação... A verdade, a beleza, o coração, o absoluto e a razão estão presentes aqui.

Grande abraço.

Afonso, seu post está lindo. Eu votarei pelo NÃO. Beijocas

Seu coração é lindo, compadre. Um beijo e boa noite. P.S.: Beeeelo post!!

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on outubro 10, 2005 12:05 AM.

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