De volta ao passado - I

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Pois é,

Quem me conhece dos tempos do blogspot deverá lembrar que nasci (infelizmente) no Rio de Janeiro, então estado da Guanabara.

Alguma coisa deve ter acontecido, que não tenho absolutamente nenhuma recordação dessa época. Morei no Rio até os quatro anos e onze meses. Muita gente tem lembranças de coisas dessa idade, e até menos. Eu não!


Lua-de-mel no Rio, dez 2003. Não precisa dizer onde, né?

Quando casamos, eu e a Kaya, minha vontade era de passar a lua-de-mel no Caribe. O sonho da Kaya era passar no Rio. Pois bem, acabamos dividindo entre o Rio e Fortaleza (o mais próximo do Caribe que ela aceitou ir). De certa forma, aceitei de bom grado a idéia de passar uma semana no Rio, pois pensei em recuperar a memória perdida. Quem sabe se visitando o local onde nasci e morei (Praia Vermelha) eu não conseguiria "rever" minha primeira infância depois de 43 anos?

Por outro lado, aproveitaria para localizar o túmulo da minha irmã, falecida um ano antes de eu nascer e que morrera com onze meses. Nunca mais, em 47 anos da minha vida, alguém foi lá. Meus pais jamais falavam dela. Eu apenas sabia da sua existência por outras pessoas da família. Como sou metido a genealogista e já percorri uma centena de cemitérios fotografando túmulos e desencavando livros de registro de enterros em busca de informações, a ida ao Rio representava a oportunidade de localizar minha irmã e, talvez, render-lhe alguma pequena homenagem. Difícil tarefa, mas achei o túmulo no Cemitério do Catumbi.

Primeira decepção. Fiquei ali uma boa meia hora. Mesmo velho, tive a inocência de achar que algo ali me levaria de volta ao passado. Tentei imaginar o que teria acontecido com ela, para que tivesse morrido com apenas onze meses e - num rasgo de egoísmo - se a morte dela teve alguma influência no sumiço das minhas memórias. É bem possível que meus pais tenham me superprotegido com medo de que se repetisse, comigo, o infortúnio que tiveram.

Meu nome, Afonso, deve-se a um primo do meu pai - chamava-se José Afonso - que os acompanhou, ao meu pai e a minha mãe, e os confortou nesse duro período. Talvez eu seja fruto da dor de uma perda e do amor de uma homenagem. Ambos, meu pai e o primo, morreram jovens e com a mesma idade, 46 anos, do mesmo problema: coração. Parece que a vida os uniu pela morte e os manteve unidos na morte.

Limpei o mármore onde estava gravado o nome dela, já quase apagado pelo tempo e pela ausência: Maria Elisa. Essa foi minha pequena homengem, além das fotos que tirei e da lembrança que hoje, mais do que simples história de família, ela representa.

No dia seguinte fomos para a Praia Vermelha. Tentei me preparar controlando a expectativa. Passei na frente do hospital onde nasci e do prédio onde morei. Ficamos a tarde toda ali, na praia. Sentamos para tomar umas cervejinhas e olhar para a paisagem. Depois de um tempo, criei coragem e fui até ao mar.

Fiquei ali olhando, buscando, escutando. Mas o mar não me disse nada. Esperava que ele me dissesse: "Afonso, lembra quando tua mãe te trazia aqui pelas manhãs? Lembra quando corrias desajeitado pelas minhas areias? E que quando eu te tocava saias correndo assustado?"

Não lembro! Não lembro! eu gritava baixinho. Pisei no mar, tive vontade de mergulhar com roupa e tudo. Não fiz. E saí triste. Triste porque o mar não me sentia. Doeu! Doeu muito, mas não pude chorar, pois não tinha pelo que chorar. Restou a decepção comigo mesmo, por imaginar que, Assim fazendo, poderia recuperar algo que deve ter sido importante. Talvez não devesse ter ido. Ao menos poderia continuar na ilusão de que um dia ainda poderia recuperar minhas memórias. Hoje tenho a triste certeza de que elas jamais retornarão.

Cinco anos sumiram da minha vida. E o Rio de Janeiro continua sendo apenas três palavras na minha carteira de identidade.

21 Comments

Parabéns. A Kaya é uma gata!!
e vive miando pra mim, heheheh. abs

Lindo texto, Afonso. Também não entendi o infelizmente...
Posso fazer coro aos demais leitores e elogiar a beleza do casal? A Clarissa está bem de DNA, rs.
Gracias, Viva. A polêmica explicação foi dada, hehehhe bjs

Muito lindo o seu texto. Como carioca só fico entristecida por você ter achado que nascer aqui foi uma infelicidade na sua vida. Que pena! Beijocas
P.S.: A propósito, que mulherão a Kaya, hein?
Pois é, Yvonne. Preferiria ter nascido aqui no RS. Enfim, fazer o quê? Gracias pelo meu bom gosto, eheheheh bjs

Moramos onde está o nosso coração. E seu coração está onde estiver Kaya, Clarissa, ...

E não se preocupe por achar que "deve" algo à sua irmã... Perdi a minha quando tinha 9 anos e é tudo obscuro na minha lembrança.


Agora, você ponha suas barbinhas de molho, pois a Kaya é um mulherão!!

Tá.. você também é bonitão!

beijão.

Moramos onde está o nosso coração. E seu coração está onde estiver Kaya, Clarissa, ...

E não se preocupe por achar que "deve" algo à sua irmã... Perdi a minha quando tinha 9 anos e é tudo obscuro na minha lembrança.


Afora, você ponha suas barbinhas de molho, pois a Kaya é um mulherão!!

Tá.. você também é bonitão!

beijão.

Posso confessar? Te imaginava bem mais novo.
E que sorte em moço? a Kaya é uma gatona.
Beijoca.

Realmente dois tesões, esses meus compradre+comadre. Concordo com a Luma, que o RJ sejam lembranças novas, bonitas, de um amor que gerou uma filha linda (ei pessoal, olhem no histórico pra ver as fotos da minha afilhada, pô... deixem de preguiça!) :-)

Dom Afonso Gato! (permita-me chama-lo assim, considerando minha percepcao sobre sua foto publicada) .

Lindo ler isso, normalmente sou avessa as memorias alheias, nao sei por que, talvez por que tive uns amigos malucos que sempre se escreveram em livros de memorias como herois, escondendo exatamente o que voce mostra: a fragilidade das nossas vidas. Fiquei emocionada lendo-te, e ficou uma questao: eu nao sei se memoria eh algo que guardarmos ou algo que perdermos. Anyway, bonito o texto, e bonito vc!

Becitos miles, inspirada pelo seu texto a ouvir Debussy, Clair de Lune, com uma chuva fininha caindo feito um chro baixinho.

Adorei finalmente conhecer voce e a Kaya! ;-)
Eu lembro de algumas coisas de minha tenra infancia, antes dos 5 anos. Mas a esta altura do campeonato, lembrar dessa fase eh uma facanha! beijos,

olha, afonso, nem fazendo análise eu recuperei as memórias da minha primeira infância. o que eu queria mesmo era recuperar as memórias da família, mas quando visitei portugal não pude ir à viseu, terra do meu avô. já tenho uma boa desculpa pra voltar lá.
olha, eu arrisquei uma definição de chato lá no blog. quando você tiver um tempinho, vê o que você acha...

lindo... triste... emocionante! sou daquelas saudosistas que sempre está tentando resgatar o que do passado me compõe presente, então te entendo e admiro.
um grande beijo para todos! :*

Ihhhh Chorei! Mas fiquei pensando sobre isso. As "lembranças" que tenho dessa idade, na realidade não são lembranças minhas, mas sim das fotos que vi da época, das histórias que meus pais e meus avós me contaram... Lembro sim, mas das coisas pelos olhos deles.
E tá bom, hiho Let's go!
Beijoks

Belo post! Só não entendi o "infelizmente".

É difícil ter memórias nítidas dessa idade Afonso. Mas o seu texto foi bem bonito. Quero ver a parte 2. E mudando de assunto, obrigado pela torcida. Já estou bem melhor. Abraço.

Talvez esquecemos por defesa .Quando voce escreve com o coração seus textos provocam muita reflexão (icha eu não queria rimar !).Como voces são bonitos !

Grande Dom Afonso:

Teus posts confessionais são admiráveis. Emocionantes mesmo!
Quanto a lembranças da primeira infância: minha primeira lembrança vem dos 4 anos e 6 meses, com jogos do Brasil na copa de 74. Dali pra frente as coisas são claras na minha mente. Até lá só brumas.

Afonso,
minhas memórias de infãncia também não são nítidas e eu só tenho certeza so que me aconteceu depois que entrei pro colégio de freiras...e eu já tinha 7 anos!
Se quer lembrar mesmo dessa época, faça hipnose. Funcionou pra mim.
Um beijo
Bela

Teu texto me deixou triste, Afonso. Mas é lindo. Ah, os paradoxos ...

Mexer na ferida é pior, talvez por isso seus pais não falavam da Maria Elisa e a memória só se mantem com exercícios. E também porisso você as perdeu. Quem sabe a partir da sua lua de mel o Rio não lhe faça ter só boas lembranças? Bonita Maria Clara! Bom fim de semana! Beijus

*Viu só textinho no Nós por Nós...dose dupla no luz!

Afonso, que belo texto este. Sabe, eu perdi um irmão ainda bebê (ele tinha oito meses, e eu dois anos) e morávamos no Recife. Muitos anos depois quis ir visitar seu túmulo, mas curioso que, mesmo estando emocionada, não conseguia me ligar àquelas coisas todas. Ao lugar, ao bairro, ao prédio em que passei a infância, ao próprio mar também. Me identifiquei muito com a situação que você narrou.
E sim, a Kaya é mesmo um avião. Vocês dois são muito bonitos. A Clarissa deve ser lindíssima. :)
Comentário clássico: vai ter trabalho daqui a uns anos, paizão! :P
Um beijo.

Afonso, muito bonito o seu depoimento e a lembrança da Maria Elisa. Mas, mesmo que você lembrasse de qualquer coisa aos 4 anos de idade, acho difícil que a intimidade com o mar ressurgisse em você...

Ah, e a foto do casal em lua-de-mel, hein? Bonitos vocês dois, a Kaya então é um avião, né?

Bjs,

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on outubro 28, 2005 1:51 AM.

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