Pois é,
Pensando sobre o post de ontem, vejo ali uma questão:
Por que será que o brasileiro faz na rua aquilo que não faz em casa?
Temos essa mania de achar que a rua não é nossa casa, não nos pertence ou, até, que não tem dono. Ou o dono é o governo e como não votei nesse governo, que se dane! E mesmo que tenha votado, o problema é deles, a mim só cabe reclamar. Substituir a palavra "rua" por prédios públicos, bares e restaurantes, praças, a nossa cidade etc., dá no mesmo.
Em casa as pessoas pedem licença, uma para as outras, se querem passar por um espaço que está ocupado pelo outro; no trânsito ninguém respeita ninguém. Pedestre atravessa fora da faixa de segurança e os motoristas passam com o sinal vermelho. Quase tocam por cima de quem estiver atravessando - na faixa - se o sinal abrir.
Fazemos na rua tudo o que não fazemos em casa. Ou, por acaso, alguém aí mija no chão e não puxa a descarga quando está em casa?
E de quem é a culpa? Minha, tua, nossa! Não reclamamos quando vemos essas coisas acontecerem. "Ah! Não vou me incomodar com isso!" Temos medo da reação dessas pessoas. E aí elas vão tomando conta de tudo. E vemos alunos enfrentando professoras e ninguém faz nada. Os pais são chamados na escola, quando são, e ainda defendem os filhos. E ninguém faz nada.
A culpa é nossa, sem dúvida. O dia que todos aprendermos a reclamar de quem joga papel na rua, certamente teremos representantes que não roubam, empresários que não sonegam, governantes honrados. Estamos por demais acostumados aos pequenos delitos morais. A televisão nos mostra diariamente que se incomodar com isso é bobagem.
Qual a última grande personagem de novela que tinha como principais características bom caráter, honestidade, valores morais que podem ser usados como exemplo? Faz tempo, faz tempo. Novelas são, sim, uma apologia a tudo quanto é de mau exemplo. Ou vai negar? Ou já estás tão acostumado que deves bem ser capaz de estar jogando lixo na rua... ou quem sabe na praia (aliás, carioca - só porque tem gari de praia - joga tudo quanto é pocaria nas praias. Fiquei pasmo de ver isso quando estive no Rio).
O lixo é só um exemplo...
Se não sabemos reclamar dos pequenos desvios, como iremos reclamar dos grandes?
PS. No comentário deixado pela Roma, e que tomo a liberdade de acrescentar ao post, há uma grande verdade: "Na minha opiniao, soh qdo houver uma expressao coletiva e publica na ordem do governo eh que o brasileiro vai saber se projetar no espaco publico".
Os governos brasileiros, desde o descobrimento, sempre foram privados, nunca públicos. Talvez o brasileiro nunca tenha aprendido o que é "ser público", o que me faz lembrar que a explicação de que a sociedade brasileira tenha sido formada após o Estado (diversamente da americana) sempre foi nosso grande problema. Talvez esteja na hora da sociedade formar o estado, acabar com esse patrimonialismo histórico.
E amanhã teremos post sobre "descriminalização do aborto" para o Nós na Rede.











































Afonso, é uma situação bem complicada. A grande maioria das pessoas não tem educação mesmo. O exemplo do lixo foi bem citado, as praias e as ruas no RJ são bem sujas. Abraço.
Porto Alegre anda igual, meu caro. Sendo que o trânsito daqui é dez vezes pior. abs
A novela tem lá sua parcela na influência da população. Em muitos casos, porém, novela é apenas o reflexo do real. Às vezes soam por demais purista os gritos contra a arte (o que não é o caso do post).
Afonso, sobre o exemplo do lixo, algo interessante aconteceu no meu trabalho. Um excelente projeto de coleta seletiva do lixo foi realizado. Até que, como o grito de 'o rei está nu', um pequetito questionou o 'porque' do trabalho de separar, se daqui a pouco estará tudo junto no lixão...
Isto é, os depósitos desordenados de lixo (os 'lixões'), essas aberrações horrorosas existentes na maior parte das cidades brasileiras, não incomoda justamente por não estar sob nossos olhos - e, portanto 'longe' da esfera doméstica. Ficamos contentes em não jogar papel no chão, como se fizéssemos um ato heróico - o que não passa de um simples ato de higiene.
E - como já foi dito - boa parte da solução passa pela educação.
Abraços.
Juliano. Primeiro, gracias pela gentileza de não ter "achado" o post purista. Era pra ser, heheheh.
Segundo, o problema do lixo, que na realidade foi só um exemplo que usei dentre tantos para demonstar a falta de civilidade que temos, é muito fácil de resolver, basta boa vontade. Nós, aqui no meu trabalho, temos um programa de coleta seletiva. No entanto, quando da elaboração do plano, a condição básica estabelecida por nós, era que o produto da coleta seria enviado para comunidades que trabalham com lixo e dele obtém seu sustento. JAMAIS PARA LIXÕES. E tem funcionado muito bem. Começamos pela capital e agora estamos expandindo para todo os locais do interior do estado.
Talvez tenha faltado experiência para quem montou o plano de vocês. abs
Afe, que foi que eu comentei?? Deixa eu ir lá ver antes que me estrepe, hehehe!
Falaste mal de mim, hehehe
Moro em uma cidade que as pessoas são super educadas no quesito limpeza; porque o prefeito fez uma campanha maciça para educar o povo, botando a mão na massa, dando o exemplo. Não vemos nenhuma sujeira na rua que não sejam folhas caídas de árvores. Acostumei tanto com essa civilidade que quando vou para outra cidade estranho bastante. Tenho que percorrer quadras para achar uma lixeira. Estou falando de necessidade básica de higiene.
Quanto aos outros quesitos de bem conviver, tem uma coisinha que me aborrece muito, que é o tal fura fila. Esses dias fiquei indignada com uma mulher que provocou um engarrafamento porque estava falando no celular.
Essas pessoas deveriam pensar que elas não estão faltando com o respeito com as pessoas, mas com elas mesmas. Dar respeito para se respeitar.
Alguma coisa a ver com o referendo em Portugal? Tem que se cadastrar no Nós na Rede, não é?
Beijus
P.S. Edu chega aqui comportado, veja só o que ele comentou no luz...rs.
Educar o povo, Luma, eis a solução. É de pessoas públicas corajosas, como parece ser o prefeito da tua cidade, que precisamos e não de safados que, depois de expulsos, ainda pedem aposentadoria. Quanto ao post de amanhã, é porque amanhã é o "Dia Latinoamericano de Luta pela Descriminalização do Aborto". Não precisa se cadastrar em nada (até porque, não tem cadastro), basta fazer o teu post e (1) mandar um mail pro Nós na Rede ou, (2) podes colocar um comentário lá na Denise Arcoverde (Síndrome de Estocolmo). bjs
Afonso, deixo de vir aqui 3 dias e quase como mosca, não lendo os posts anteriores! Rapaz, este da "falta de civilidade", o da "louca do Rio" (ah! essa Yvonne!) e o da coleção de capa verde, que mereceu um poema do Drummond... Cara, estou arrepiado até agora! Abraços.
heheheh, por isso é que vou no teu diariamente, aconteça o que acontecer. Gracias e abs.
o brasileiro eh o primeiro a criticar o individualismo do norte-
americano, mas eu nunca vi povo que preserva e contribui para o coletivo, como o daqui [EUA & Canada]. sempre me perguntei por que a ideia de que o publico tambem eh nossa responsabilidade eh respeitada
muito mais aqui do que ai? beijos,
Se há uma coisa (das poucas que consigo admirar) nesse povo, Fer, é justamente o senso de coletivo que eles possuem. Isso, que é bom, nós não importamos, só importamos as porcarias... bjs
Afonso, quando no Brasil, eu faço certo e reclamo dos outros que fazem bandalheiras como fumar dentro de um ônibus, por exemplo. Mas sei que sou minoria. Em geral percebo o espanto das pessoas com a minha audácia em reclamar.
Pois é, Leila, mas isso deveria ser o padrão e não a exceção. É uma pena e penso que é por essas pequenas atitudes que devemos começar a mudança tão necessária. bjs e nunca mude, por favor.
A lei que regulamenta o convivio coletivo tem de ser silenciosa e de comum acordo com todos. Leis e regras oficiais sempre foram feitas pra serem desrespeitadas no Brasil. Sofremos do complexo do Malandro e da Lei de Gerson e fazemos de conta que isso nao afeta os outros ao nosso redor. Nao sei como mudaremos isso, sera' talvez inutil esperar um surto de civilidade?
[]s
Certamente não será inútil, Fernando, pois é justamente desse surto que estamos precisando. E a "nossa" blogosfera tem muito a contribuir para tanto. abs e já estava estranhando o sumiço, hehehe.
Em São Paulo não é só rua não. É rua, rio, túnel, prédio pichado, placa não autorizada, faixa não autorizada, ônibus clandestino (me explica: como pode um ÔNIBUS rodar clandestinamente numa cidade?! Se ainda fosse uma moto, mas ônibus?!). Acho que só resolve na base da multa. Pesada. abs.
Aran, em primeiro lugar, gracias pela visita. Minha casa está sempre de portas abertas para os vizinhos (e para qualquer um que chegue. Mando a patroa botar mais água no feijão e fazemos a festa). Temos chimarrão, picanha mal passada e, sempre, uma cervejinha estúpida. Quando estive em SAO, ano passado, parei num hotel ali na Galvão Bueno (é isso?), bairro LIberdade. Pensei que lá, por serem orientais, a coisa seria diferente. Qual minha surpresa quando vi que não era. Não sei se multa pesada resolve, pois nossos sistemas de controle são péssimos. Somente agora, três anos passados é que começam a cassar a carteira de motoristas que dirigiam alcoolizados. Imagina pegar ônibus clandestino. abs
Bom dia....
Sem pretensão....mas acho que o curitibano ta aprendendo....minha cidade é limpa e já encontro nas ruas muito mais civilidade que em outras cidades.....
Regrinhas de gentileza.....já nota-se mais por aqui.....
Bjs....
Regrinhas mais do que apenas "gentileza", Diana, são regrinahs de cidadania e de bem viver em sociedade. Regrinhas que nos ensinam que público não é privado. bjs
É... o mais triste é ver que isso começa desde bem pequeno. Sou professora de música primária, e é desconsolador ver que muitas dessas péssimas manias eles trazem como exemplo de casa...
Mas tento a todo momento plantar uma semente de bons exemplos em cada um. Veremos se alguma vira flor...
Abraços!
Nina, que prazer ter entre os leitores uma professora de música. Já fiz posts sobre música, mas gostaria de fazer mais. Bem sei o que passas e tenho certeza de que várias flores nascerão. bjs
Um fato interessante: enquanto morei no dito primeiro mundo, nórdico e muito bem educado, morria de vontade de jogar um papelzinho no chão (era tudo tão limpinho que me dava nos nervos) mas não conseguia. E quando contava isso pro pessoal eles riam, ao mesmo tempo em que eu notava que eles também ficavam tentados a experimentar a façanha. Será que realmente não nascemos pra viver em sociedade?
Interessante o teu comentário, Edu. Essa de que eles se sentiam tentado pelo lado negro da brasilidade é de matar. A questão do lixo, usei apenas como exemplo da falta de civilidade e cidadania que temos.
O governo é privado ou privada? Esta semana estou um pouco pessimista com isto tudo sabe Afonso. Parece que as coisas não andam por aqui, tudo continua igual por mais que o tempo passe e as pessoas não tem moral e também não querem mudar nada, esta é a grande verdade. Estou decepcionada.
Por vezes parece privada, Simy. Tenho percebido o desânimo das pessoas. Particularmente não quero desistir de acreditar, não em um governo, mas em nós mesmos. bjs
Afonso, existe uma coisa que pouquíssimas pessoas sabem aqui no Brasil: ao descer ou subir escadas, você tem que ficar do lado direito. Simples não? Outra coisa que pouca gente sabe também: ao abrir uma porta, a preferência é para quem sai do recinto e não paraa quem entra. Isso tem me irritado demais. Também simples, né? Concordo totalmente com você. Ninguém tem zelo pelo patrimônio público. O honesto está fora de moda. Legal é aquele metido a esperto que faz sacanagens com os outros. E o trânsito? Caramba!!! Realmente não dá para aceitar. Beijocas
Pois é, Yvonne. Esses dias vi uma briga por causa da porta do Banco. As pessoas não respeitam esse simples regrinha de convivência social. Uma senhora ia saindo e um rapaz, ao entrar, quase a derruba e ainda quis reclamar dela. Pois não é que ela soltou os cachorros no guri mostrando justamente isso: "não aprendeste em casa que a preferência é de quem está saindo?" Fiquei ali rindo à toa do pobre. bjs
Totally agree! Parece que isso faz parte da historia brasileira. Como nao temos homens publicos, nao temos espacos publicos. "Terra de ninguem", da rua vem as piores coisas: ninguem quer ser "menino de rua", "mulher da rua" e assim vai. Na minha opiniao, soh qdo houver uma expressao coletiva e publica na ordem do governo eh que o brasileiro vai saber se projetar no espaco publico. Um becito in ti!
Essa frase está ótima, Roma: "expressão coletiva e pública na ordem do governo". Vou acrescentá-la no post. Posso? Otro becito