Pois é,
Domingo é um dia chato mesmo, de pouca gente lendo e escrevendo nos blogs. Então aproveito para escrever um pouco mais pesado.
Lendo um post do Roberson sobre o livro "Armas, Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas." de Jared Diamond, lembrei-me de um texto que escrevi, na especialização, sobre um pensamento do Boaventura de Souza Santos, de certa forma relacionado. Segue um trecho do post do Roberson, sobre o livro:
"Por meio de uma intrigante revisão da evolução dos povos, estudando 13.000 anos de história dos continentes, Jared Diamond conclui que a dominação de uma população sobre outra tem fundamentos militares (armas), tecnológicos (aço) ou nas doenças epidêmicas (germes), que dizimaram sociedades primitivas de caçadores-coletores. Assim, alguns povos desenvolveram a tecnologia que proporcionou a expansão de seus domínios e aumentou a resistência a doenças, entre outros fatores, conferindo-lhes uma vantagem crucial no enfrentamento com outros povos."
Mais adiante, diz Diamond: "Se pudesse resumir o livro em uma frase seria essa: A história seguiu diferentes rumos para os diferentes povos devido às diferenças entre os ambientes em que viviam e não devido a diferenças biológicas entre os povos.”
Por outro lado, Boaventura, ao discorrer sobre a dicotomia consenso/resignação, escreve:
"A capacidade das classes dominantes em transformar suas idéias em idéias dominantes fez com que as classes dominadas imaginassem estarem governadas em nome de um interesse geral. A Teoria Crítica, ao denunciar o caráter repressivo deste consenso, suscitou conflitualidade social e abriu espaço para alternativas sociais e políticas. As classes dominantes se desinteressaram por esse consenso tal a confiança que tem de que não há alternativas às idéias que defendem. O que existe é inevitável, portanto gera resignação. Descolada de uma idéia de progresso possível, como conceber rupturas progressistas?"
A seguir o texto que escrevi como proposta para debate:
Penso, cá com meus botões, que existem três idéias aí: consenso, ruptura e progresso.
Há, na história, uma espiral que une estas idéias.
Consenso e resignação são lados de uma mesma moeda que se manifestam em momentos diferentes, sendo que a resignação é sempre posterior ao consenso.
Ruptura e progresso são lados opostos de moedas diferentes.
Todo consenso conduz à resignação, mas nem a toda ruptura segue-se o progresso.
Explico pela espiral que citei antes ( e claro que de forma bem resumida).
Podemos aceitar, com uma boa margem de certeza, que a primeira dessas idéias a prevalecer na humanidade tenha sido o consenso. Homens das cavernas, vivendo de forma isolada, descobriram que a vida em comunidade era a que melhor lhes servia para efeitos de proteção e a conseqüente manutenção da espécie. É o consenso.
Não creio que a questão da alimentação tenha sido importante nessa época, pois o alimento era abundante e, quando acabava em determinada região, buscavam outras.
Mantido este consenso por um determindo tempo, os grupos acomodam-se na segurança (reverso do consenso = resignação) supondo estarem a salvo das intempéries da natureza.
Alguns, no entanto, e por sua própria natureza - isto é, não necessariamente determinados por fatores externos - entendem que existam outras formas de viver e rompem (ruptura) com a estrutura existente. Pela observação, descobrem que a natureza se reproduz e que podem tentar imitar a natureza reproduzindo os alimentos de que precisam. Estabelecem a agricultura e a pecuária (progresso em relação ao sistema nômade anterior).
O resto da história já conhecemos. Do nomadismo ao ... No entanto, sempre que passamos por uma mesma idéia, esta é superior em conceito à anterior (espiral).
O que vivenciamos desde meados do século XV é o consenso da modernidade - nova volta da espiral. O que esperamos, então, se seguirmos nossa espiral? É o que Santos espera também: uma ruptura. E mais uma ruptura que gere progresso, idéia implicita na pergunta feita por ele ("rupturas progressitas").
Acontece, que progresso, como entendemos normalmente, é uma palavra, um conceito, um significado da modernidade.
Onde então a ruptura?
Penso que o se deve romper é com a espiral. O progresso que se propõe é progresso, apenas num nível superior e não um progresso diferente - e em um nível "inevitável". Na idade média queimavam-se os livros. Não se pense que hoje seria possível queimar todos os computadores.
A ruptura da espiral significa "andar" para os lados. Significa buscar um conceito de progresso diferente do progresso da modernidade que cresce em espiral. Significa, talvez, um retorno à epocas em que os ideais não significavam necessariamente bens materiais.
E aí concordo com Santos quando se refere, mais adiante, à SOLIDARIEDADE.
E o que é SOLIDARIEDADE? Talvez não eu não consiga definir. Mas sei que é diferente de "comunidade", de "globalidade", de "mundialidade", de "assistencialismo", de "ONG", de "voluntarismo", de etc.
E proponho para o debate que consigamos um novo consenso sobre a que, no fim desta época de ruptura, a nova idéia de progresso seja baseada na SOLIDARIEDADE e que possamos, ao menos, estabelecer entre nós uma idéia mínima sobre o que seja SOLIDARIEDADE.
O que é SOLIDARIEDADE?
Tá certo, tá certo. Durma-se com um barulho desses...









































Escrevi mil e duzentas palavras mas apaguei todas. Ficariam cansativas. Espero então para comentar no seu próximo post. De qualquer forma esse assunto dá mesmo "pano prá manga".
Por quê? Talvez tenhamos perdido coisas muito interessantes que poderias ter escrito. Da próxima vez que escreveres assim, controla o impulso e deixa a gente ler. Espero continuar logo, logo. bjs
Uma palavrinha que diz tanto! No mínimo dar os ombros pro amigo chorar. Com relação a troca de interesses socio-econômicos entre países, poderíamos discutir a manhã toda.
Talvez não tenha sido bem esse o enfoque, Luma. hehehe bjs
Ótimo debate, com uma perguntinha bem difícil. A primeira coisa que cada um deveria pensar é que para obter-se avanço com solidariedade, devemos ter plena consciência da existência do próximo, e respeitá-la como se os outros fossem nós mesmos. A partir daí, poderiamos evoluir para um estado de menos individualidade e ganância pessoal. Abraço.
É por aí, Carlos. Trata-se de expandir esse conceito que falas. Continuarei a tratar do tema depois da série...abs
Consenso, ruptura e progresso. Criação, manutenção e destruição. Brahma, olé!
SKOL!
Afonso, solidariedade é uma palavra que infelizmente não existe quando se trata de países/povos dominadores em relação aos países/povos dominados. E olha eu não estou falando de assistencialismo. O ser humano já provou desde os primórios tempos que tem necessidade de conquistar espaços ainda que às custas da desgraça alheia. Nós ainda somos bárbaros e sequer compreendemos o que vem a ser a generosidade, que dirá a solidariedade entre nações. Uma vez eu li um artigo no jornal sobre a solidariedade e tomei conhecimento de que o país mais filantrópico do mundo é os EUA. Veja só, um país que mais traz problemas para o planeta é justamente o mais generoso. Outro fato também muito interessante é que quando acontece uma desgraça aqui no Brasil como as chuvas que vez por outra castigam populações carentes, quem mais contribui em alimentos, roupas, etc. é a classe mais pobre. Os endinheirados são mais resistentes. Sei lá, talvez eu tenha me perdido no meu pensamento, mas para mim a virtude mais linda deste mundo é a generosidade que envolve uma certa compaixão, ainda que às vezes assistencialista. A solidariedade é a sofisticação da generosidade. Não sei se me fiz entender. Beijocas
Mais do que isso, Ivonne. O modelo atual de solidariedade nãoleva em conta uma série de coisas. Pretendo desenvolver mais esse assunto, depois da série de "posts-aventura", heheh bjs
http://www.chezmaya.com/applet/squelette.htm
Uma brincadeira com Bach
Muito legal. Vou recomendar ao Milton, hehehe
Solidariedade, realmente, é a antítese para a situação atual, num mundo em que empresas cortam salários e benefícios e empregos para aumentar o valor de suas ações em Wall Street. Num esquema global onde continua uma corrida cega entre governos por dólares e petróleo. Num momento em que a ameaça do terrorismo joga populações e pessoas umas contra as outras.
Mas acho que a proposta de mudança radical teria que surgir dentro dos Estados Unidos. Por enquanto, ainda são MUUUUUUUUITO poucos os políticos com coragem (mesmo na esquerda) de desafiar o status quo.
Abraço,
Não sei porque teria que ser nos EUA, Leila. Penso que um modelo de solidariedade (e não falo aqui de assistencialismo) que rompa com a razão indolente (Boaventura) atual, deva nascer justamente fora dos EUA (no Sul, como se refere Boaventura). Os Eua são, hoje, o paradigma do consenso/resignação. Veja o que Boaventura diz: "Eu passo a metade do ano nos EUA e estou convencido de que não há uma idéia nova em ciências sociais que venha de lá. Nós podemos aprofundar, podemos tornar muitas sofisticadas as nossas análises, mas as idéias inovadoras não vêm de lá neste momento". bjs
Caro Afonso:
Fico contente que a discussão tenha rendido. Gostei particularmente do trecho em que falas a respeito de consenso, ruptura e progresso. Em seu livro e num próximo post que colocarei no ar Diamond comenta algo muito parecido.
Quanto à questão da solidariedade, preocupa-me a confusão da mesma com a caridade. São coisas complementares??
Lembro uma citação:
A caridade começa onde termina a justiça.
É sempre um prazer ler teus posts.
Grande abraço.
Realmente, para mim há uma confusão. A solidariedade que me refiro é mais estrutural e não conjuntural, no sentido de ajudar a quem está precisando no momento. É uma mudança de modelo. abs
'Solidariedade: essa moda pega.' Será? O individualismo está mais forte que nunca. Por mais que a filantropia está atuante por aí, existem mais sentimentos - além de solidariedade - que movem as ações de gentis homens do topo da pirâmide. Solidariedade pregada e executada por nós, simples ocupantes do andar médio social, já pode ser feita pelo "Criança Esperança".
Isto é: solidariamente, podemos fazer mudanças pontuais, jamais estruturais. Tenho maus pensamentos a respeito da expectativa de vida da solidariedade na conjuntura atual.
Abraços.
A questão, Juliano, é sair desse modelo de solidariedade que se confunde com assistencialismo, com arrecadar dinheiro. Há uma solidariedade que significa uma mudança estrutural, exatamente a que precisamos. abs
Afonso
Uma espiral pode ir aproximando "as linhas" ou ir afastando-as.
Mesmo a que vai se aproximando, a cada volta a linha mestre se aproxima de sua volta anterior (redução do raio), tende a nunca tocar em si mesma. Isto pode explicar o comportamento humano, quanto mais próximo estamos seguimos distantes.
Eu espero que a espiral esteja se centralizando, pois assim a ruptura será mais fácil. As vezes parece que a espiral se projeta para fora...
Ruptura já!
A questão é sair fora do modelo de espiral, para os lados, por exemplo. abs