Uma geração: a minha

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Pois é,

Tenho, como acredito que a maioria já saiba, 48 anos. Se bem me lembro das aritméticas, nasci em 1957. O que isso quer dizer? Quer dizer que pertenço a uma determinada geração e que há todo um significado de vida que carregamos em função da geração a que pertencemos. Coisas das quais participamos e coisas das quais apenas ouvimos falar e, o pior, coisas que, penso eu, caracterizam a minha geração como a geração do "ficou faltando algo".

Na década de sessenta, minha geração ainda era criança e ser criança naquela época era diferente de ser criança nos dias de hoje. Quando entramos na adolescência, na década de 70, pegamos quase todos os movimentos no final, quase tudo estava acabando: o movimento hippie; os Beatles; a guerra do Vietnã, a bossa nova; a tropicália; Elvis; o cinema novo; o rock; os festivais de música; a jovem guarda e tantas outras coisas que fariam uma lista imensa. Tudo se acabando.

Ao mesmo tempo tivemos o auge da ditadura e da repressão, que se abatia, também, sobre adolescentes que iniciavam a vida. Também não participamos de quase nada, pois éramos, ainda, muito jovens. Movimentos estudantis? Nem pensar, pois eram coisas dos irmãos mais velhos. Quando atingimos a idade para poder sair à rua e lutar contra a ditadura, ela acabou. A revolução não foi da nossa geração; ser contra também não.

Ficou faltando algo. Não posso dizer que curti os Beatles, porque somente ouvia quando meus irmãos ouviam; não posso dizer que fui hippie, porque hippies foram meus irmãos. Em 1969 tinha apenas 12 anos: Woodstock? Somente anos mais tarde. Na realidade, não fomos nada, em termos de movimento, essa minha geração adolescente.

Meus avós foram a geração da Primeira Guerra e da Depressão; meus pais foram a geração da Segunda Guerra; meus irmãos a geração hippie, e eu? Como chamo a minha geração, se depois nada mais aconteceu de importante que marcasse o mundo, até que surge uma geração que pode ser identificada como a geração do Muro de Berlim, do fim da guerra fria? Nesse meio tempo, duas gerações sem nome, sem movimento.

E nós? Ficou faltando algo. Talvez por isso fiquemos perplexos diante da situação do país, pois também estamos pegando a "rabeira" da sujeira. Sequer disso pudemos participar, pois essa será a geração da minha filha de 15 anos, que certamente herdará um país melhor do que o que tivemos, na minha geração. E vamos, a contar os anos que nos restam por aqui, pegar a "rabeira" de um país melhor.

Até mesmo a geração que pegou os famosos anos 80, será a geração da "década vazia". E nós? Ficou faltando algo! Ficou faltando um movimento que nos caracterizasse, que eu pudesse dizer "Eu sou da geração do ...". Viram? Ficou faltando algo!

Que geração mais sem graça essa minha!

9 Comments

É verdade, a sua geração foi muito fora de hora, mas a minha é pior ainda. É a de seus filhos, os que nasceram entree 82 - 88: chegamos justo à tempo para fazer parte do grupo geracional mais inerte da história. Vocês ainda tiveram a sorte de pegar um fim-de-festa, quando nós nascemos, a festa já tinha acabado há muito tempo.

É verdade, a sua geração foi muito fora de hora, mas a minha é pior ainda. É a de seus filhos, os que nasceram entree 82 - 88: chegamos justo à tempo para fazer parte do grupo geracional mais inerte da história. Vocês ainda tiveram a sorte de pegar um fim-de-festa, quando nós nascemos, a festa já tinha acabado há muito tempo.

Já fui boa em matemática,agora me ocupo de outras coisas...rs.
Sinal dos tempos quando a gente se preocupa com outras coisas, hehehe bjs

OPA!
Tu te coloca nas décadas de 60 e 70 e me deixa na de 80?
Acho que nossa adolescência era mais próxima que as atuais. Hoje 8 anos fazem muita diferença.
1980 eu tinha 15 anos, saia desde os 13 anos, pegando a rabeira dos anos 70. Tenho saudades daqueles bons tempos.
heheheh. Tem alguma diferença, sim. Nos anos 80 eu já era casado. abs

Discordo completamente.
Apesar de ser um pouco mais novo, cheguei nos "enta" neste mês, acho que "nossa" geração viveu momentos interessantes. Quando comparados as adolescências, nossas e atuais, a única diferença é a velocidade da informação. Acho que curtimos cada etapa, podíamos fazer "séquisso" sem plastificação, vivemos uma ditadura que hoje podemos contar o que ela foi, vivemos o despertar de ritmos musicais, pudemos ver grandes times e seleções, já tinhamos os grande autores e mais tempo para ler versões impressas (menos tempo diante desta tentação chamada internet) enfim...
Eu tenho orgulho da minha geração, mas esta e a minha opinião de murrinha. Creio que fomos forjados mais críticos, mais chatos e todos sabemos que na vida faltam mais chatos.
Pensa bem, meu caro: oito anos é muita diferença, ainda mais naquela época. Numa época que foi diferente da tua. Passaste a tua adolescência nos anos 80, o que é bem diferente dos anos 60 e setenta. A partir dos 80 as coisas mudaram muito e ficaram, de certa forma, mais fáceis. E foi exatamente o que eu quis dizer. A geração anterior (meus irmãos) foi diferente da minha, que foi diferente da tua. Ambas, a dos meus irmãos e a tua, foram marcantes, a minha não. abs

OI, Afonso
Também tenho 48 anos e lembro que presenciava , na Faculdade, a sala em que Gabeira dava aulas superlotada, com gente saindo pela porta. E eu, muito alienada em relação à política. Vivia enfiada na biblioteca, devorando livros.

Ouvia, meio incrédula as histórias de colegas que haviam sido torturados na época da perseguição aos estudantes, professores dando depoimento sobre o "big brother" em sala de aula. Mas nunca me envolvia em discussões. Era muito romântica.

Será que perdi alguma coisa?

abraço, garoto

Você é da "Geração Chanty", do Dárcio Campos.
Olha Renato, confesso que nem sei o que é isso ou esse cara. Tive que dar uma goglada e descobri que não me lembro de nada disso. Lembro apenas do Flávio Cavalcanti porque meu pai assistia e gostava. abs

Hmmm... que tal a "geração do bonde que passou" ou "geração que perdeu a hora" ou...
ou... ou... é, tá faltando algo... abs

Afonso, muito interessante isso que você escreveu. Eu que nasci em 1954, portanto 3 anos mais velha que você, já senti uma grande diferença, pois entrei nos anos 70 já bem mocinha. No entanto, vejo minha filha e penso: de que ela vai se lembrar como legal?Não vejo nada. Quanto ao post acima, faço minhas as suas maravilhosas palavras. Beijocas
Pois é, Yvonne. Hoje três anos não fazem diferença, mas naquela época sim. Tens a idade do meu irmão. Vai sobrar lembrar que na geração dela o Brasil virou um grande país. bjs

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This page contains a single entry by D. Afonso XX, o Chato published on julho 27, 2005 5:43 AM.

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