Era um menino meio desengonçado. Tinha as juntas dos joelhos muito unidas, os pés tortos, mas o uso de botas ortopédicas lhe ajudavam a caminhar direito.
Quase não tinha jeito pra nada: não sabia soltar pipa, mal jogava futebol e lia. Lia desesperadamente. Como se ler fosse a busca pra uma outra vida. Mas quanto mais ele lia, mais ele descobria novas vidas, diferentes da sua e assim ia vivendo um pouquinho de cada vida. Ao final do dia, caía exausto na cama, de tanto viver aquele monte de vidas, além da sua.
Quase não conversava com ninguém. Só com o pai, que lhe mostrava o mundo encantado dos livros, revistas e jornais. Quando o pai saía pra comprar pão aos domingos, era uma festa pro menino. Ele saía pela banca de jornais e ia escolhendo as revistas que queria. O pai comprava todas e assim o menino vivia muito mais vidas. As coloridas das revistas em quadrinhos e as em preto e branco, dos jornais do pai.
Com o tempo o menino sentia que o seu pai era o seu Deus. Era um Deus que ele entendia só de olhar. Assim o menino, sempre econômico nas palavras, mas com uma fartura imensa de uma vida vivida de outras vidas e lotada de sonhos adquirido pelas leituras, cresceu.
Era meio errante. No duplo sentido. Nunca sabia onde era o seu lugar no mundo. A cidade em que nasceu não era reconhecida mais, os amigos, poucos, se foram. A vida ficou complicada, mas o seu Deus, o seu pai, já estava velho. Repetia sempre as mesmas conversas, não gostava mais de ler jornais e passava os dias fazendo palavras cruzadas e imerso numa televisão onde a sala era o seu reino.
O menino, que não era mais menino, mas um homem, às vezes hesitava na linha tênue da infância com a vida adulta. Se abastecia de jornais e revistas. Lia, continuava lendo muito e só assim a vida tinha o seu sentido, de fato: o de que tinha vindo pra esse mundo pra viver várias vidas em uma só.
Frase pra minha lápide: "Indie até o fim!"
Dilma vai pra Europa.
A vergonha alheia agora é internacional!
Felipão no Flamengo!
A frequência de jogadores nos bailes funks da Chatuba, vai cair consideravelmente!
Chega de intermediários: Lady Gaga pra presidente!

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Meu domingo foi estranho.
Eu não tinha você por dias e dias. Mas ontem, contrariando a lógica, saí de casa no começo da noite. Enfim uma noite sem seriados, como costumo fazer quase todas as noites.
Segui o meu instinto, mas eis que o destino fez rodar os calcanhares e ir rumo à uma lan house.
Lá, eu te chamei pra sair.
Em princípio você disse que não estava bem, que estava triste, pra baixo... mas eu queria te ver. Olhar pros seus olhos encantados, sentir as suas mãos pequenas e macias nas minhas, sentir a sua voz, tocar a sua boca com a minha.
Insisti e você topou me encontrar.
E eu quase não acreditei, quando te vi bela (como sempre) num vestido curto dourado. Suas pernas vestidas no mesmo tom.
E veio o beijo natural, os abraços, os seus toques que me deixam quase desmaiados de prazer e de saudades.
Entramos no seu carro e fomos pra um barzinho na beira do rio. Bebemos, conversamos (como há muito tempo não fazíamos) e a magia entre a gente fazia as horas voarem. Ou será que o tempo sempre se acelera, quando os nossos corações correm descompasados ao encontro de nós mesmos?
Na despedida, os beijos, os abraços e as lágrimas de sempre.
O amor correndo em cascatas silenciosas dentro de nós.
Quero um fim pra essas despedidas.
Quero que você saiba que jamais fui feliz longe de você.



